O EVANGELHO FULMINANTE DO VOZ DEL FUEGO
por Wagner Beethoven
Leandra Lambert é o nome que está atrás de diversos projetos na música eletrônica desde 1990, mas atualmente o Voz Del Fuego é o seu foco. Além de ser a voz do fogo, ela é acompanhada por uma banda, o Lingerie Underground (Leandra Lambert – vocais, letras e eletrônica; Marcelle Morgan – vocais e letras; Flávia Goo – guitarra; Flávia Couri – baixo e André Mobi – bateria acústica ). Além de ter uma banda, Lambert está preparando um curta 16 mm, sobre Hilda Hilst e seus contos eróticos.
Este atual projeto, Voz del Fuego, nasceu em 2003, no Rio de Janeiro. O nome vem de dois ícones da cultura popular, a primeira era a excêntrica dançarina Luz Del Fuego, ou originalmente registrada como Dora Vivacqua e o livro Voice of Fire (A Voz do Fogo, lançado por aqui pela Conrad) do mesmo criador de Monstro do Pântano, Alan Moore. Lambert ainda mistura em suas referências Bjork, Kraftwerk, Zé do Caixão, Rimbaud e Cosme & Damião. No Trama Virtual e no FiberOnline, o grupo disponibiliza várias mp3, as músicas que deveriam fazer sucesso nas pistas com títulos interessantes: “Assim Funkou Zaratustra”, ou “Descendo a Mão na Princesinha”.
O Grito! falou com Leandra Lambert, por email.
Por que às vezes com o Lingerie Underground, e outras com o Voz Del Fuego?
Pela diferente sonoridade e forma de apresentação ao vivo. Se fosse uma banda de rock tradicional ou um projeto totalmente dentro da estética eletrônica, não haveria isso. A mistura de rock e eletrônico possibilita essa versatilidade. É claro que um show solo ou em duo leva mais pro eletrônico e com banda completa pesa mais pro rock. A gente escolhe como vai ser de acordo com o público, o local do show, com as possibilidades práticas e principalmente com o nosso humor e a nossa vontade, claro. Mesmo quando é solo ou duo, pode variar de um eletrônico mais “pista” até o mais experimental. Agora inventamos outra formação: Só a Lingerie, totalmente rock, sem programações. É engraçado, há versões meio “hard rock” ou “punk 77″ de 2 ou 3 minutos para músicas eletrônicas de 5 ou 6 minutos, pura diversão. Primeiro show assim,foi em 15 de abril de 2007 no Salloon 79, em Botafogo, com As Doidivinas.
Voz del Fuego & Lingerie Underground
Vocês Andam Gravando?
As gravações que estão online são solo e demo, só a “Pra Ficar Bonita” tem a guitarrista, não temos nada com baixo e bateria acústica por aí, só um ensaio de 2004, com outra formação, ainda compondo a música “Descendo a mão na Princesinha”. Nada disso dá idéia de como é o show com a banda, é outra coisa. Começamos a gravar com a banda, mas está indo devagar, parou, voltou… esquema “de graça nas horas vagas do estúdio de um amigo”.
Qual foi a repercussão de ter aparecido na Rolling Stone?
Cria uma curiosidade, gente que nunca tinha ouvido falar passa a conhecer algo sobre a banda. Como a gente não tem um apelo dos mais populares, apesar de ser uma banda basicamente feminina, também não chega a mudar a vida, não aparece um monte de gente te oferecendo shows e contratos, né?! Mas é uma forma de reconhecimento aparecer ali. E felizmente não fui atacada por nenhum emo por conta dos meus comentários críticos e sarcásticos a respeito, hahaha.
Vocês explicam no site da banda porque o Inhumanoids acabou, mas qual a razão do Voz Del Fuego? Não poderia continuar sem o seu parceiro, o Self?
O Inhumanoids chegou a ter uma formação mais “electro & breakbeats” sem o Self, em 2000; e tinha sido o fim depois disso. Fiquei quase dois anos sem produzir nada em música, estressei por um tempo, perdi o tesão e fui me dedicar a outras coisas. Em 2002/2003 ressuscitei o Inhumanoids mais para deixar um registro online do que tinha sido feito tantos anos antes, no início dos 90, e que tinha a ver com o que estava acontecendo em música eletrônica naquele momento.
Isso acabou me estimulando a voltar a produzir, caiu a ficha de que era possível fazer uma demo sozinha, toda em casa, com um computador e um microfone. Independência total. Tinha que ser algo novo, eu não queria voltar a algo que tinha se desgastado e me desgastado. Daí também o nome ter “fogo” no meio, que tem esse simbolismo de renovação, de renascer das cinzas. Mas ao mesmo tempo o Self me chamou para fazer um show com ele, voltamos a brincar um pouco… acabou rolando mais uma volta do Inhumanoids em 2004, meio de bobeira. Só que deu confusão mais uma vez e acabamos com a brincadeira, melhor cada um seguir seu caminho. Porra, parece que tinha encosto no nome!
O que faz o Voz Del Fuego diferente?
Acho que é o fato de não estar nem aí para enquadrar nem o som, nem o visual em qualquer estilo ou modismo. Não fazemos questão nem de definir uma formação fixa… Quando comecei a me interessar mais por música, não tinha tanto essa de se pensar na banda como um “produto”, isso era coisa dos pops mais pré-fabricados. Não tinha nada a ver com o underground. Quem em geral cagava pro mainstream era coerente e não ficava se preocupando em se adequar perfeitamente a uma determinada cena e só botar gente bonita, bem figurinada e bem relacionada na banda, essas coisas. Era um bando de vagabundos, desajustados e atormentados com orgulho disso, gente que não fazia a menor questão de corresponder a nada, e que resolvia sair tocando, muitas vezes sem saber. Mais interessava um show demente de bom ou uma demo podre com boas idéias que poderiam ser mais bem desenvolvidas depois do que ter tudo certinho e esquematizado rumo ao sucesso. E agora é assim, mesmo no mundo “alternativo” tem muito essa noção de produto, mercado, metas, “compre seu kit hype do momento”. Pode ser esperto agir assim, mas eu acho um porre. Ou melhor: uma ressaca!
A gente pode se definir como electro-rock, electro-punk ou dance-punk só pra situar as pessoas de que se trata de algo que une eletrônico e rock, que tem influência e atitude punk/pós-punk, que é DIY, que às vezes mergulha no pancadão, por aí vai. Mas se você for ouvir, não se enquadra exatamente no que tem rolado nesses gêneros, algo soa meio estranho, é sem imitar nada, sem fazer questão daquele truque certo que sempre funciona. Freqüentemente uso outras batidas, velocidades mais aceleradas ou desaceleradas, vocais e timbres que parecem vir de outros gêneros e épocas ou de nenhum gênero, nenhuma época. Gosto que o som seja dançante, mas não me prendo às fórmulas disponíveis no mercado, não tenho medo de experimentar, faço o que estou a fim de fazer e pronto. E a banda tem a liberdade de criar o que quiser em cima, é raro que eu interfira na parte deles, só se eu achar que está muito fora, que está “batendo mal” com o resto da música – o que é raro acontecer, porque eles são ótimos. Eu poderia sair da banda com os meus cacarecos que eles continuariam a ser uma banda muito legal, hahaha.
O uso de tecnologias é freqüente na banda…
A tecnologia, bem, uma roda é tecnologia, uma bateria é tecnologia (acústica, como o nome diz), uma guitarra é tecnologia (acústica e elétrica), a eletrônica é tecnologia. A diferença maior é que nós não vivemos a época em que essas tecnologias mais antigas transformaram o modo de vida das pessoas; nós vivemos a época em que a tecnologia eletrônica vem afetando de forma ampla o modo como vemos o mundo, nos comunicamos, nos relacionamos. E a música, as artes e a literatura acompanham e expressam de sua época, de alguma forma. Mesmo uma gravação só de voz é eletrônica: foi feita através de um microfone conectado a uma interface, armazenada num HD, transformada em arquivo mp3, foi parar na internet, baixada e ouvida num mp3 player… Só em roda de violão em acampamento e congêneres é que a eletrônica não está presente, né?! A eletrônica e a informação são características vitais da cultura atual – e também o nosso maior fantasma.
As apresentações ao vivo da banda são um falatório a parte. Como faz pra ter tanta disposição?
Ih, não saquei a parte do falatório… explica pra eu poder responder?! Hahaha A disposição: bom, eu me sinto num ritual pessoal, do qual outras pessoas podem participar. É uma onda meio dionisíaca mesmo. Posso estar empolgadíssima e “levar” outras pessoas junto… ou não. Fazer o que, às vezes não “sintoniza”. Para mim tem que ser de verdade, não consigo forçar a barra. Papo de doidão, hein?! Hahahah… mas isso é tão antigo… a música e as encenações sempre tiveram esse papel e esse poder. E é claro que uma bebida ajuda, etc… hahaha.
É incomum a referência da dançarina Dora Vivacqua para uma banda de eletrônico. Como você explica isso?
A referência a princípio foi mais pelo lado independente, libertário e provocador da Luz del Fuego, que tinha uma postura bem incomum para as mulheres da época, algo a se admirar e desejar mesmo hoje em dia, quando tantas mulheres voltaram a se contentar com o papel de mulherzinhas e enfeites. Mas música eletrônica e rock têm tudo a ver com dança, no fim das contas… são feitos para se dançar, pular e pirar a noite toda. Tudo a ver com dançar semi-nua com uma serpente.
Alan Moore é outro nome para a explicação do nome da banda. Qual a responsabilidade de ter ele como ícone?
Olha, eu não me preocupo muito com essa possível responsabilidade não… se eu me preocupasse, fudeu: nunca acharia que nada que eu faço está suficientemente bom. Prefiro encarar o livro “A Voz do Fogo” apenas como algo que me afetou muito na época e ao qual eu quis prestar uma humilde homenagem, sem maiores pretensões ou responsabilidades. Mas espero um dia fazer um álbum-homenagem, mais conceitual mesmo, inspirado em obras dele, levando isso mais a sério. Mas não demais, hahaha… sempre tem que rir no final!
Qual é a verdadeira intenção de Leandra Lambert?
Não sei, isso é um mistério. Qualquer dia consigo arrancar dela essa resposta, hahahah.
O ROCK É PAIXÃO, VOCÊ NÃO PENSA NA PROFUNDIDADE
Lover’s Rock virou zine, o numero um marca uma nova fase no cenário pop de Porto Alegre
Por Wagner Beethoven
O Lover’s Rock é uma festa que acontece no Vale dos Sinos (RS), que tem no casting bandas da região dos Sinos e/ou Porto Alegre, além de DJs revezando as músicas do velho rock e do último hype, ou seja, uma festa indie no cenário underground gaúcho. Só que Gabriela Tellini e Catrine Eisinger não se contentaram só com isso, elas fizeram o Lover’s Rock em formato zine.
Neste 1º numero tem um texto sobre Bob Dylan e seu novo disco Modern Times, Guilherme Becker analisa toda a sapiência do velho rockstar e conclui que ser velho é ser além de tudo ser firme e poçante e produziu um texto bem esclarecedor do Velvet Underground. Lu Barata fala do rock sem machismo, Rock’n’Girls.
Tomás Bello escreve sobre a internet e as Grandes Gravadoras, terá um fim para esta luta? Bem, nem as envolvidas sabem a resposta. Se você não sabe o como fazer uma coletânea para dar de presente, Márcia Lima da às dicas de como presentear alguém com as saudosas K7’s! O zine trás uma entrevista do Kim Jim, um rockstar underground de Porto Alegre, em duas páginas o saxofonista ensina o verdadeiro sentido do rock’n’roll.
Tem a sessão de lançamentos, nele há presença da Publica, Supergatas e Dawn Laser Campires. Catrine mostra a nada convencional The Gaúchos. Mas quem pensa que Lover’s Rock só tem material de Porto Alegra ou coisas antigas se engana, mary Farias mostra The Pippetes para o pessoal de POA, tudo muito bem feito e finalizado com um conto a lá Nelson Rodrigues de Valentina e Henrique escrito baseados nas aventuras “fictícias” de Marrie.
Graficamente o L’s R é bem semelhante a todo zine. Em oficio dobrado, com uma tiragem de 200 exemplares xerocada, foi lançado na primeira edição da festa. Porém, o que diferencia o L’s R de um e-zine? O primeiro motivo é a coragem pára um feito tão glorioso. Segundo é a qualidade e terceiro e último é a tentativa de divulgar a boa música de modo tão primal.
Fazer um zine hoje em dia desse modos é complicado, caro e muito restrito, e é por isso que atualmente fica mais viável fazer uma coisa on-line, se bem que não seria uma má idéia fazer uma versão virtual do zine de papel, para o público out Rio Grande do Sul.
para receber o zine envie um e-mail para zineloversrock@gmail

Pegue a lanterna e jogue-se: new rave mostra quanto o Rapture é foda.
RAPTURE
Pieces Of The People We Love
[Umvd Labels, 2006]
Echoes (2003) caiu com uma verdadeira bomba no universo pop, era urgente, era devorador, ele sintetizou o que se sentia falta na época, uma banda de electro-punk (?). Não sei se podemos encaixar a banda neste estilo ou se ele existe realmente, mas Echoes foi um impacto, assim como foi o Is This It? do Strokes e o Fever To Tell do Yeah Yeah Yeahs. O New Rock estava precisando de tudo isso, posso enumerar várias banda que só no mês de novembro bombaram nos anos 2000.
O segundo disco seria uma miséria? Não, para uma banda que sabe o que faz e confia na qualidade e no bom gosto de seus produtores. Pieces Of The People We Love é prova disso. Depois de Três anos sem lançar nada, feito difícil de acreditar para uma banda no seu segundo disco e no mundo tão cheio de fast music da vida. O vocal esta mais limpo, mas não menos voraz, as guitarras continuam as mesmas e os sintetizadores muito melhores e com ainda mais força.
Eles fizeram um disco muito melhor do que o primeiro, Pieces Of The People We Love é assim. Bem melhor e mais sólido que o primeiro. “Don Go To Do It” engana com o coro, mas mas zuadinhas não estariam de fora, por que afinal ainda é o Rapture. A segunda faixa, “Pieces Of The People We Love” é cheia de palminhas e lá lá lás acompanham tudo numa explosão de sentimentos. “Get Myself Into It” tem o saudosismo do álbum anterior, mas “The Devil” não continua com isso, é bem inglês e abusa das influências dos anos 80 e de sua Disco.
Entretanto, até o Rapture tem que descançar, “Callin Me” é linda, uma melodia recheada de guitarras e uma bateria típica dos from NY. “The Sound” não é apenas uma música é um hino de Nova Iorque, música excelente para cantar, fazer air guitar e dançar até as pernas não agüentarem. Quem foi que disse que o Rapture não tem filhos? Com essa música, mostra que os Klaxons fizeram direitinho a cartilha. Não precisamos discutir a new rave, basta escutar o Rapture, o ideário-mor de toda essa nova onda.
Piece of the People We Love não é apenas um álbum que se possa escutar em casa, por que você vai quebrar todo o chão de tanto dançar e gritar. Este é um candidato ferrenho para figurar nos Best Of The Year. [Wagner Beethoven]
NOTA: 8,5.
FIGURINES
Skeleton
[Control Group, 2006]
“Race You” assim como a capa do disco não são convidativos, ela é melancólica e é música fim de festa, mas “The Wonder”, a segunda faixa do Skeleton, disco da banda Figurines, formada por Christian Hjelm nos vocais e guitarras, Andreas Toft no baixo, Claus Johansen nas guitarras e backing vocals e Kristian Volden na bateira, começa com um sentimento de despedida, mas só se for do anonimato.
O Figurines veio de um álbum de estréia que não foi recebido com o devido alarde, mas guitarras e coro no refrão aumentam o apelo pop do grupo dinamarquês neste segundo disco. O seu indie-rock apenas reforça que eles se tornaram competentes, mantendo suas referências que vão de Modest Mouse a Guided by Voices, passado por Biult to Spill, country e folk. Skeleton, o seu segundo disco é um álbum complexo, não adotaram uma roupagem lo-fi do seu primeiro trabalho, Shake a Mountain (2003) e sim uma coisa ousada e cheia de misturas e texturas.
“All-Night” é sup-power-pop, emersa em guitarras rápidas e o vocal agoniado de Christian Hjelm. À primeira audição, Skeleton é esquizofrênica e a banda parece querer isso, algumas músicas do disco parece ser uma só, passando sem o ouvinte notar, depois de “All-Night”, “Silver Ponds” poderia ser facilmente descartada ou simplesmente agregada a sua antecessora.
Mesmo sendo uma banda bem… hype hoje em dia, o Figurines faz suas músicas parecerem familiares como é o caso de “Ambush” e “Remeber” e elas ainda trazem um tom de Pavement.
“Other Plans” é uma seria canditata para hits nas melhores FMs do mundo. Se elas alcançaram a tanto, também vão colocar o country-hit “Ghosts Town”, mas o Figurines não seria o que é se não fosse um álbum “fraco”, com isso eles tiram uma lição, e receberiam nota máxima se o disco todo fosse como “Continuos Songs”, esta que é a melhor faixa do disco. Mas infelizmente eles não mantêm o delicioso pop e terminam Skeleton com “Release Me On the Floor”.
Skeleton é bem confuso, para entendê-lo, um conselho é valido, descanse e deixe o vozerão de Hjelm dominar você, mas não escute só uma vez, por que ele é um disco sem muita pretensão. Deixe-o tocar e divirta-se. [Wagner Beethoven]
NOTA: 7,0.
por Wagner Beethoven
De maneira informal, o Monodecks foi formado em 2004 e com o pé direito em 2005 tocaram no Festival No Ar: Coquetel Molotov. No entanto, só agora o grupo faz seu segundo show, no bar Novo Pina, Recife Antigo, neste sábado. A banda têm diversas referências, de Lou Reed a Slint, de Mogwai a Sun Ra, passando por Brian Eno e o Pink Floyd. Com predileções por temas psicodélicos e instrumentais, o som do vai do minimalismo às experimentações, o que já fez o Monodecks ser chamado de “música sensorial”.
Ainda sem disco lançado, a banda disponibiliza músicas no site do Trama Virtual e na sua página no MySpace. Para conferir ao vivo o som deste grupo recifense, chegado num noise não muito fácil, o Monodecks se apresenta ao lado das bandas Hrönir e Agnst, neste sábado (confira o Serviço no final da entrevista).
Antes de sua segunda apresentação, o líder D Mingus falou com o GRITO!, por email.
O GRITO: A banda, logo no primeiro show, teve boas críticas. Embora não esteja fazendo muitos shows, o Monodecks ainda tem, mesmo que em pequena quantidade, um grupo fiel de fãs. Como você explica isso?
Esse pequeno grupo corresponde justamente a nossos amigos… Só que, mesmo dentre eles, o critério dos que se identificam com a banda acaba sendo puramente estético/musical mesmo. Porque, nem há a possibilidade, por exemplo, daquele primo fã de Zeca Baleiro vir falar “poxa, gostei muito daquela música que fala sobre tal coisa – o que aquela frase quer dizer hein?”. Pô, a gente curte tirar um som e entrar nele, deixar o lance fluir. Não achamos que temos obrigação de explicar alguma coisa com nossa música. Além dessa questão de sermos uma banda quase cem por cento instrumental, há a questão da baixa-fidelidade (lo-fi) das nossas gravações, dos improvisos e noises que muitas vezes tornam-se “viagens longas e sem previsão de volta” – tudo isso e tantas outras abordagens pouco usuais acabam tendo um efeito “repelente” para o grande público (o que pra nós não é nenhuma novidade). Mas podemos dizer, sem medo do clichê, que se fazemos música pra agradar a pessoas, essas pessoas somos nós mesmos.
O GRITO: “Reverbera da Caverna”, “Pirâmides” e “Trêmulo” já estão disponíveis no Myspace da banda. Quando poderá ser visto um EP ou mesmo um disco de vocês?
Dessas três, apenas “Reverbera na Caverna” foi gravada em estúdio e com a banda completa. Mesmo assim foi num esquema ao vivo de gravação-demo, de mixar depois em casa com os canais “vazando”, com prazo pra entregar a mix em CD pra algumas pessoas. De toda forma ela é a única gravação que temos disponível no momento pra mostrarmos como funciona o som do monodecks com todos seus tentáculos em ação (ao mesmo tempo). Como não dispomos de muita grana, o EP ou “disco cheio” que pretendemos lançar fica um pouco refém dessa questão, mas pretendemos agilizar o danado esse ano de todo jeito, nem que seja no esquema tosqueira de sempre. Mas de repente, podemos resolver investir tudo numa só faixa melhor produzida – só o tempo vai dizer (e a grana).
O GRITO: Quais são as dificuldades em ter um banda tão numerosa?
A banda nem tem tanta gente assim. Na verdade, o que atrapalha é a escassez do tempo de cada um, já que ninguém se sustenta através da música. A dificuldade maior é a de conseguir conciliar as agendas particulares, enfim, mais ou menos como toda banda. Danado é que não somos mais guris e estamos justamente naquela fase do “se vira pros 30 (anos)”, daí muitas vezes bate a angústia porque o que era pra ser a válvula de escape acaba emperrando.
O GRITO: O monodecks vem com uma proposta diferente das bandas daqui. Como é ter uma sonoridade tão incomum em Recife?
Acho que o tipo de som que a gente faz não é só incomum aqui – acaba sendo em todo país. E isso porque hoje estão praticamente chovendo bandas que fazem um rock com inclinação mais experimental. Se hoje o espaço pra esse tipo de som é pequeno, imagina num passado até próximo… Pelo menos agora a internet facilita as coisas um pouco.
O GRITO: Quais são os planos da banda para o futuro?
Pretendemos fazer mais shows, gravações decentes, investirmos num equipamento melhor… nem temos tantas ambições. Como a gente sabe que muito possivelmente jamais conseguiremos pagar as contas com nossa música, nos damos por satisfeitos em podermos nos divertir tirando um som juntos. Músico é um tipo escroto de masoquista.
Serviço:
Pré-Existências: Ambientações Sonoras do 3º Grau
Monodecks, Angst e Hrönir
Sexta (23/03/2007) 22h
Local: Novo Pina (Recife Antigo)
Preço: R$ 5,00 – Info: 81 8715.3981 (Domingos)
Veja Mais: Entrevista com o Monodecks – 19 de Setembro de 2005
CONHEÇA AS OUTRAS BANDAS QUE IRÃO TOCAR COM O MONODECKS
Os integrantes da extinta banda Airbag (que logo depois se tornaria o Ahlev de Bossa) tocando guitarra, baixo e flauta transversa em “harmonia”. Isso é o que o Angst consegue fazer, a união de Alan Diego, Pedro Figueiredo, Sara Wanderley, Breno Barbosa, que em 2002, com influências do Sonic Youth, Mogwai e Radiohead formaram o grupo. Fazem música bastante incomum, indierock de primeira qualidade.
Hrönir
Eles descontroem o ritmo, reconstroem o som e fazem experimentações de video-art, gravando o seu som de forma completamente inimaginavel. A banda, que já tem diversos trabalhos, trilhas sonoras e afins é formado pelo workaholic da música, Thelmo Cristovam, Túlio Falcão e Lucas Alencar. O trio faz um free jazz, música ambiente, experimentalismos, improvisos e dissonâncias. Dificil de acreditar? Só vendo pra crer.

Ilustração para a Revista Complot (México)
TONTO NADA.
por Wagner Beethoven
O Grito fez uma entrevista rápida com o quadrinhista Fábio Zimbres. Dono de um estilo peculiar e surreal, Zimbres passou dos fanzines underground para tiras na Folha de São Paulo. Foi também colaborador da revista Animal, uma das melhores publicações de quadrinhos que o Brasil já experimentou.
Em 1997, Zimbres, junto com outros artistas criaram a Tonto, em Porto Alegre, uma editora independente que começou editando uma pequena coleção de livrinhos chamada de miniTonto. A idéia, que pretende auxiliar outras produções independentes pelo país afora é louvável, sobretudo no ótimo momento que vive o mercado. Além de Zimbres, artistas como Allan Sieber fazem parte da Tonto, que vende seu catálogo pelo site.
Neste bate-papo, Zimbres da editora Tonto e sua visão do mercado de hq´s.
Onde e por que nasceu a necessidade de fazer quadrinhos?
Difícil dizer. Gosto de quadrinhos desde criança e foi natural que eu acabasse trabalhando com isso mais tarde. Escrevo, desenho e edito revistas desde os 10 anos de idade.
Por que você decidiu criar uma editora e não tentar ingressar no mercado já existente?
O caso é que eu já editei e fiz colaborações para muitos tipos diferentes de veículos: desde revistas de distribuição nacional, como Animal ou Chiclete com Banana, até fanzines e revistas independentes, como Dundum e outras. A editora surgiu numa época em que pouca coisa estava sendo publicada e a coleção era uma maneira de mostrar o trabalho que estávamos fazendo e não se via porque não havia revistas.
De onde vem a inspiração para as histórias, o roteiro tem algum reflexo da sua vida?
Sempre tem algum reflexo e é difícil saber onde acaba um e termina o outro. Sempre surgem de meus interesses.
Falando de dinheiro. Dá para viver de quadrinhos independentes?
Eu não vivo, acho que ninguém vive disso no Brasil. É preciso publicar em vários lugares e fazer uma série de coisas diferentes, como ilustração, design etc.
Qual a dificuldade em publicar quadrinhos no Brasil?
Acho que não é muito difícil, há várias editoras e é cada vez mais fácil fazer auto-edição. O que aínda não foi muito bem resolvido é a distribuição e as maneiras de se vender nossos trabalhos.
Você acha que o mercado de história em quadrinhos no Brasil está passado bom um bom momento, como vêm sendo dito?
Suponho que sim, há uma grande atividade que é visível. Está melhor do que quando começamos a Tonto. Não vejo uma grande qualidade nem ninguém vivendo disso mas está melhor. Só espero que não suma de repente como no começo dos anos 90.
Qual personagem você mataria se pudesse?
Não me ligo muito em personagens e acho que a violência não leva a nada. Até o Garfield tem direito a vida.
Que mensagem você daria para um novo leitor da Tonto?
Seja fiel a si mesmo e não tenha medo. Não damos garantia nenhuma e nem devolvemos o dinheiro. Arte é assim.
Acesse
Editora Tonto: www.tonto.com.br
Site de Fábio Zimbres: www.fzimbres.com.br
SUPER FANTÁSTICO
Sempre afiada, Madonna mostrou em 2006 que é invencível.
por Wagner Beethoven
MADONNA | Confessions on a Dance Floor
[WEA, 2006]
Ela que por várias vezes antecedeu tendências e conquistou o mundo por diversas vezes, ela que não sabe fazer nada feio, sempre com o produtor certo e a posição da Yoga correta, ela que choca qualquer mortal com o menor gesto ou atitude. Madonna nunca caiu de seu pódio e 2006 prova isso. Sua carreira conseguiu se consolidar em Erotica (1992) que fez dela uma imortal na música, mas com Ray Og Light (1998) ela fixou a sua sonoridade, do pop pop para o pop eletronico usando de qualquer elemento que ela queira desejar. Ela é Madonna, ela pode tudo. William Orbit fez milagre e novamente Madonna Louise Veronica Ciccone estava bombando nas pistas de dança. Sua música é sexo, provocação e um refrão correto. Mas American Life foi a desilusão na carreira da cantora, afinal Bush de tanto ser falado enjoou fácil fácil.
Seu 10º álbum de carreira, Confessions On A Dance Floor agrega os anos 70 no trabalho da artista, é uma coisa tão fantastisca que as músicas de tão dançantes se parecem remixes vindos de um disco do Normam Cook quando ele esta tocando o seu set ao vivo na praia de Ibiza com o Fatboy Slim. Mas pode dizer o disco se resume a house-funk dos vanguardas do Daft Punk. Tudo muito classe.
Confessions On A Dance Floor é um disco para ser tocando na pista de dança, super bem produzido, todos os detalhes minuncioçamente pensados. Com o sample de “Gimme Gimme Gimme” do Abba, “Hung Up” é um caso à parte, uma coisa única, posso dizer que será o single de Madonna que marcará sua carreira de agora em diante, sua melodia, seu apelo pop é uma coisa nunca vista em qualquer outra música já produzidas no mundo pop de hoje. Ele toca em qualquer lugar do mundo, seja no açogue ou na night, “Hung Up” é mais uma torre do grande castelo do Império da Rainha do Pop.
“Sorry” não tão genial, mas nada fraca é uma electro bom de dança e fácil de cantar, ou seja, mais uma hino para a carreira dela. Depois de ser mãe de dois filhos do marido Guy Ritchie, ela soube reconhecer a ajuda que a Big Apple deu no inicio, quando NY acolheu a cantora de Detroit e com isso fez o tema de “I Love New York”. Ela tem uma mansão na Inglaterra com o maridão, mas sempre é bom rememorar, huh?
O disco tem uma ar de saudosista, pode-se ver claramente antigas canções neste trabalho, “Like A Prayer”, “Frozen”, “Nobody’s Perfect/ I Guess I Deserve It” mas isso não diminui a obra da artista, que conseguiu se reinventar, não chaga a ser um David Bowie, mas é única Rainha do Pop e esta longe de perder o posto.
NOTA :: 8,0
TODOS OS PASSOS DE UMA VEZ
Bem, pode ser difícil, mas chegou a hora de conhecer o Amps For Christ
por Wagner Beethoven
AMPS FOR CHRIST Every Eleven Seconds
[5 Rue Christine, 2006]
Um mistura de vários gêneros musicas, do mais popular ao mais obscuro, eles misturam o hardcore e o barulho ao tradicional folk, suas letras tratam desde grandes guerras, até a corrida desenfreada do mundo capitalista, passando por paz, amor e a misericórdia de deus.
Amps for Christ nasceu em 1996 da necessidade de Henry Barnes junto com Enid Snarb de juntar o noise experimental, o death metal, com o seu amor ao folk, às composições clássicas e o jazz. Além destes dois integrantes a banda conta com a participação de Tara Tikki Tavi em instrumentos chineses e vocais e Charlie White com poesia.
A discografia do Amps for Christ não é pequena. Este trabalho não é diferente dos anterioes, o experimentalismo inesperado e a noção de coesão estão presentes, não é nada impossível de gostar. Every Eleven Seconds é uma trilha para o mundo pós-apocalíptico, uma obra do mundo moderno que não teve seu devido valor reconhecido.
O disco é quase todo instrumental, “Augmented-Domented” é um conjunto barulhinho sem nexo aparentemente, mas logo em seguida o country penetra na doentia percepção musical com “Cock O’the North”. As guitarras se notam mais marcantes na terceira faixa, intitulada “Out On The Moon (Slight Return)”, e ainda mais forte em “Violated”, uma mistura de grunhidos, perseguição e atropelo de situações, junto com “I Hate This Dumpster” são as faixas mais pesadas do trabalho.
O destaque vai para umas das mais divertidas faixa do disco, “El Corazn De San Vicente” que é uma linda melodia que consegue amolecer qualquer durão, onde o campo e o bucolismo são regras. “Shiploaf” é cantada, estranhamente falada, não parece ser tão estranho quando logo mais se escuta a eletônica “Scotland The Brave”.
O disco termina com “Proof Man” e sua cítara. Bonita, delicada e muita detalhada em todas as suas nuancias sonoras. Amps for Christ é um mistério, consegue ir mais além do que o jovem Beirut e tem mais experiência. Trazendo um trabalho bem feito e digno de ser clássico
NOTA :: 9,0
HERMAN DÜNE
Giant
[Independente,2006]
Voz e violão, felicidade e perfeição são temas do Herman Düne. Fofo. A banda formada por suecos, nova-iorquinos e franceses, passa por uma linha tênue da pieguice e o acústico autêntico, pop boa praça, Belle Sebastian no clima surf music. Assim é o oitavo trabalho do Hermen Düne, mas nada como a vida feliz e o cenário musical cheio de coisas boas. “I Wish That I Could See You Soon” consegue pôr qualquer um para cima. O disco tem ótimas faixas, belas melodias e o coral feminino deixam as faixas ainda mais suaves, o sax, o violão a voz de André Herman Düne consegue fazer o fã de Jack Johnson esquecer o seu ídolo. “Pure Hearts”, “Take Him Back” “To New York City” e “Baby Bigger” são bonitas para dizer que são apenas boas músicas, mas a voz do líder e guru da banda é cansativa e o disco segue quase que se arrastando, ele foi ousado, pois nos dias atuais um álbum com quase 1 hora é fazer o ouvinte esperar muito para prestar atenção nele enquanto fica com o coração na mão para não perder o novo hype. [Wagner Beethoven]
NOTA :: 5,0
XIU XIU
The Air Force
[5 Rue Christine, 2006]
O trio composto por Ches Smith, Jamie Stewart e CaraLee McElroy, mas que mundialmente é conhecida como Xiu Xiu, já é consolidada no pop atualmente, e vem com o seu quinto álbum não desanimando nem fãs nem critica. Neste Air Force eles usaram e abusaram do punk, noise, clássico, folk e do indie rock. O disco apenas cria um ambiente perfeito para a banda fazer bonito. Aqui vamos esquecer que o ruído, é por definição uma sonoridade que pode incomodar algum, já que ele é um dos focos neste trabalho da banda. “Buzz Saw” é uma faixa perdida do Morrisey. “Boy Soprano” não é a biografia de Pavarotti, mas um uma ótima musica para deixar nas pistas. “Save Me” é outro ponto alto do disco, com refrão fácil, essa música provavelmente pode figurar nas rádios pelo mundo. O disco tende a ficar cada vez melhor, a banda segue o lema do fim do arco-íris tem o pote de ouro. Mas eles não conseguem, talvez por ter quase 40 minutos, eles não se perderam tanto com o excesso de texturas, mas sinceramente eles não conseguem ser ruins mesmo com excesso. Colocar Jesus Cristo na capa não é nada cristão, mas o pop não é cristo, ele é pagão e é por isso que devemos adorar o Xiu Xiu. [Wagner Beethoven]
NOTA:: 7,0