Preparem os bolsos. Com a enxurrada de títulos da Pixel e já comum avalanche de lançamentos da Panini, o mercado cada vez mais se abarrota de coisas boas. Confira os destaques de cada editora este mês.
PANINI
A editora estréia um novo título, Universo DC, com séries ligadas ao evento Crise Infinita, como Batalha por Bludhaven e Xeque-Mate. Na Universo Marvel, o tão esperado evento Planet Hulk tem início. A nova revista Batman Extra, que propõe contar histórias do Homem-Morcego fora da cronologia, traz em 120 páginas a saga Mais Sombrio que A Morte. Detalhe que nenhuma edição (esta já é a terceira) chegou nas bancas fora do eixo Rio-SP. Falando em Batman, a Panini também promete o encadernado Batman Crônicas, com as primeiras histórias do personagem. Resta saber quantos meses este material irá atrasar.
A Biblioteca Histórica Marvel – Quarteto Fantástico 1, o luxuoso encadernado com as primeiras histórias do grupo foi reprogramado para este mês, bem como o a edição definitiva de Os Supremos.
PIXEL
Até o momento a Pixel está batendo forte na concorrência com sua distribuição eficaz. Este mês, o seu carro chefe Pixel Magazine (número 03) traz um especial da série Fábulas, da Vertigo. Mas é o livro de luxo do Monstro do Pântano que merece toda a atenção de qualquer fã de quadrinhos que se preze. Escrito por Alan Moore, a obra foi um marco nos quadrinhos nos anos 1980
Paulo Floro
Arquivado em: Ande Sparks, Chris Samnee, Critica-Quadrinhos, Floro, Quadrinhos
Truman Capote escreveu um dos mais importantes livros do jornalismo literário, A Sangue Frio. Na verdade, este termo nem fazia muito sentido antes do escritor buscar na pequena cidade do Kansas a inspiração para sua obra. A história é conhecida : a chacina de uma família por dois assassinos. Mas a história de Truman na cidade, e as implicações que isso causou entre a população e os acusados, só seriam relatados por seus biógrafos, como Gerald Clarke em 1988.
Capote no Kansas é mais um relato romanceado deste período da vida do escritor. Assim como no filme de Bennet Miller (Capote), indicado ao Oscar em 2006, o principal foco narrativo são as contradições do refinado gentleman de Manhattan, e a vida pacata do interior dos EUA. A partir disso, várias tramas se desenvolvem, como a relação de Truman com um dos assassinos, o relacionamento distante com seu parceiro, sua amiga e companheira Nelle Hooper e, claro, sua transformação pessoal ao longo dos cinco anos que passou escrevendo sobre o caso.
O roteirista Ande Parks, no entanto, decidiu se apoiar em apenas um elemento desta parte da biografia de Truman. Na história, Parks decidiu colocar o fantasma de uma das vítimas como interlocutora do escritor. Assim que ela aparece, não está claro se ela está viva ou morta. Só depois é que notamos que Capote está falando com um fantasma. Ele não só tinha se tornado um médium, como estava indo de encontro à sua personalidade, já que desde o início da graphic novel o vemos auto-indulgente.
Este elemento fácil torna a HQ limitada ao anular quase todas as outras possibilidades de narrativa. Ao apelar para a história da menina morta servindo como ponte moral, apela para o piegas. Uma personagem excelente como a amiga Nelle ou até mesmo o prisioneiro Jack foram muito mal utilizados. Nativo do Kansas, Parks se dedicou bastante a esta graphic novel.
Antes, ele era mais conhecido pelo seu trabalho em Arqueiro Verde, junto com seu colaborador frequente Phil Hester. No entanto, Capote no Kansas traz momentos interessantes, como a cena em que Capote flerta e transa com outro cara no Kansas, enquanto nos recordatórios, escreve uma carta para seu parceiro em NY.
Esta graphic novel foi lançado originalmente pela Oni Press, editora independente norte-americana. A Devir após perder os direitos da Vertigo/Wildstorm para a Pixel apostou na concorrência para trazer novos títulos para o mercado brasileiro. A editora já publicou outro título da Oni Press, Courtney Crumrim e as Criaturas da Noite, de Ted Naifeh. [Paulo Floro]
NOTA: 5,5
Ted Naifeh
[Devir, 128 págs,R$ 20,90]
Histórias onde losers dão a volta por cima, não são incomuns nos quadrinhos. Courtney Crumrin tem as características caras aos outsiders ianques: não é atraente, não tem amigos e vive presa no seu mundinho, socializando apenas com outros esquisitos como ela.
Este álbum da Devir não traz nada de novo, mas proporciona uma deliciosa e despretensiosa leitura. Poderia estar ao lado dos mangás shoujo e não das literaturas tenebrosas de Sandman, como é encontrado nas livrarias.
Na trama, Courtney é uma menina não muito feliz que se muda com seus pais para uma mansão de um tio rico, o Professor Aloysius Crumrim. Yuppies decadentes, a família tenta se adaptar à nova realidade financeira. Com o tempo, a pobre garota descobre a reputação macabra de seu tio e passa a ser hostilizada na escola. Na mansão vitoriana do Professor Aloysius, Courtney irá ter contato com as tais criaturas da noite e com as artes místicas de seu tio bruxo. Não é nenhuma surpresa que, com seu magnetismo sobrenatural irá encontrar todo tipo de ser, a começar pelos irritantes duendes, terminando em uma cidade inteira dominada por seres macabros.
O autor Ted Naifeh encontrou uma brecha no já consolidado mercado de quadrinhos de horror (do qual faz parte Constantine e Crimes Macabros, por exemplo) e criou um universo de histórias leves e narrativas bem construídas. Se fosse um filme, Courtney Crumrim seria uma típica sessão de sábado num multiplex. 
Seu traço é uma mistura do quadrinho oriental com comics infantis, estilo disney. Uma clara alusão de que o autor busca mesmo uma semelhança com o público infanto-juvenil, que cada vez mais se afasta dos quadrinhos de Super-Heróis americanos em busca dos eletrizantes mangás japoneses. Nas primeiras páginas, é um tanto estranho ver Courtney desenhada sem um nariz, mas essa peculiaridade da personagem é uma besteira comparada ao desenho competente de Naifeh.
Indicada para o Eisner Awards, a série possuí ainda dois outros volumes, Courtney Crumrin and the Coven of Mystics, e Courtney Crumrin in the Twilight Kingdom, ainda inéditos por aqui e provavelmente futuros lançamentos da Devir, caso este álbum alcance algum sucesso. Pra quem gostou de Morte, A Festa, Deadboy Detectives, irá gostar deste. A diferença é que crianças também poderão curtir. [Paulo Floro]
NOTA: 7,0
Arquivado em: Christopher Shynum, Critica-Quadrinhos, Devir, Laeta Kalagridis, Quadrinhos
De Laeta Kalogridis (roteiro) e Christopher Shynum (arte)
[Devir, 152 págs, R$ 42,00]
Baseado no filme homônimo de Marcus Nispel (O Massacre da Serra Elétrica), Desbravadores – Uma Saga Americana é o típico caso de quem aposta na embalagem em detrimento do conteúdo ruim.
Na graphic novel, um garoto viking, sobrevivente de uma expedição naufragada, é criado por uma tribo de índios americanos. O curioso na história é que muito antes de Colombo pisar no continente, bárbaros escandinavos adentraram a América do Norte. Espírito, como o garoto fica conhecido, referência ao contraste de sua pele muito branca com a tez vermelha dos indígenas, trava uma violenta batalha pessoal para destruir seu antigo povo e os impedir de seu plano de destruição.
A adaptação da obra ficou por conta de Laeta Kalogridis (roteiro) e Christopher Shynum (arte). O artista Shynum e Nispel, diretor do longa conversaram bastante e desenvolveram juntos a idéia de Desbravadores. No prefácio do livro, Nispel afirma que o livro e o filme nasceram pensados como um só projeto. De fato, a arte é estonteante, talvez até mais do que os efeitos especiais do filme. O único problema, talvez, seja a fotografia e a colorização, que exageram nos tons escuros, como se na América pré-colombiana não existisse luz do dia.
Mas o que torna Desbravadores uma HQ bem descartável é mesmo o roteiro. Com uma idéia interessante nas mãos, produtores e roteiristas se renderam à narrativa fácil, aos clichês do gênero de aventura. É irresistível não enumerá-los: o amor proibido entre o estranho e a bela dama filha do chefão; a catarse final, quando o mocinho dá a vida pela amada; a história contada em flashback por algum antepassado no tempo atual; a ingenuidade do vilão em cair na armadilha armada; a fatídica cena de superação, após sucessivas derrotas; o clímax da luta que indica, enfim que o fim da história se aproxima, entre outros.
Mostrar os vikings como bárbaros sanguinários é outra deficiência do roteiro, que se mostra pobre, sem repertório e estreito em seu ponto-de-vista. Por um momento, os bárbaros nórdicos mais parecem demônios de algum círculo do inferno.
Aproveitando o lançamento do filme aqui no Brasil, a Devir lançou a graphic novel em um formato diferente do original (o conhecido formato americano), por um preço que destoa bastante da qualidade do material. E, considerando que o filme foi um fracasso de público e crítica, sabemos bem o lugar de uma HQ como essa: o limbo.
[Paulo Floro]
NOTA: 1,5
BOAS E VÃS FILOSOFIAS
Satira do nascimento do pensamento ocidental com Epicuro, Sócrates e Platão se converte em tema de quadrinhos
por Fernando de Albuquerque
Já está nas prateleiras das livrarias brasileiras o álbum, em edição de luxo, Epícuro, o Sábio. Mais um lançamento da Conrad, com 168 páginas, que traz uma tradução bem cuidada e elaboração de qualidade. Inteligente, bem-humorado, inusitado, o trabalho prima pela crítica ferina à base de quase todo o pensamento ocidental: a sociedade ateniense clássica. Se por um lado a democracia de Atenas primava pela pluralidade de pensamento, pela ousadia de idéias, por outro ela ostentava um lado pouco conhecido: um machismo que beira a ferocidade e um preconceito estremado contra as mulheres.
O personagem principal da trama é Epicuro, filósofo que pregava a exacerbação dos sentidos, dos prazeres, e cujo pensamento originou a palavra epicurismo. Como outros jovens gregos (na história e provavelmente na vida real), ele almeja um dia chegar ao patamar de Sócrates, que é retratado como um intelectual pernóstico, cercado de discípulos tietes, dono de um ego abismal e de um humor mordaz, principalmente na hora de avaliar as idéias dos novos pretendentes ao posto. Prazer que se torna ainda mais acurado quando o “pensador” em questão se trata do atrapalhado e tímido Platão.
O livro é uma grande tiração de onda com a profusão de pensadores que trafegavam nas ruas de Atenas. Sobre o machismo, a abordagem é mais do que pertinente: quem já leu um pouco de história dos gêneros sabe que foi lá, na pátria da democracia, que o estado patriarcal fincou raízes e criou o mundo sexista e altamente misógeno. Para quem não sabe os atenienses viam as fêmeas como seres menores, intelectualmente desprezíveis e, até mesmo sexualmente, menos desejáveis que os jovens discípulos que seguiam os mestres e educadores.
No álbum, tudo começa com a chegada de Epicuro em Atenas, que tinha como meta abrir uma escola de filosofia, ganhar discípulos e fama. Mas ao trocar a ilha de Samos pela badalada capital grega, o pensador se envolve em muitas confusões, deflagradas por um encontro com a deusa da agricultura Deméter. Ela muda seu destino forçando Epícuro, ao lado de Platão e do ainda jovem Alexandre resgatar Perséfone das mãos de Hades, também conhecido como plutão.
A partir daí, o trio se mete em todo tipo de trapalhada e aperto. Cruzam com Cerbero, o cão de várias cabeças, guardião dos portais do inferno e com Caronte, o barqueiro que conduz os mortos até Hades. O trio se depara ainda com uma galeria de personagens emblemáticos da mitologia, como Hércules, Paris, Ulisses, só para citar alguns ícones. Na mistura entre mito e verdade, o trio, que de fato existiu, também se encontra com outro grande mestre: Homero, autor da Ilíada e da Odisséia.
A história é divertida, chega a ser inteligente, mas é recomendada principalmente para os que têm alguma base de mitologia grega e de filosofia. Sem esse conhecimento, fica difícil captar as piadas e tiradas, as gozações e sarros com os “papas” do pensamento ocidental. Não por acaso, a história foi produzida pelo norte-americano Sam Kieth, que junto ao inglês Neil Gaiman deu vida a um dos personagens mais fascinantes das HQs, o Sandman.
É ele quem assina a parte gráfica, digna de ser apreciada pela profusão de detalhes, e efeitos. Já o roteiro traz a assinatura do também norte-americano William Messner-Loebs, que escreveu séries como Mulher Maravilha e The Flash, mas que se consagrou com este álbum.
EPICURO O SÁBIO
Sam Keith e William Messner-Loebs
[Conrad, 168págs, Trad. Carlos Patati, R$ 54]
NOTA: 9,0
O MUNDO É MÁGICO – AS AVENTURAS DE CALVIN E HAROLDO
Conrad
[144 págs, R$ 44,90]
A melhor notícia do ano foi saber que a Conrad editora irá lançar a coleção completa de Calvin e Haroldo, em 14 edições. Esta edição que chega às livrarias corresponde ao último volume de tiras publicadas pelo criador da série, Bill Waterson. É uma edição caprichada, no formato original americano, seguindo o modelo do preto e branco para tiras diárias e colorido para os domingos. Calvin é genial, uma das obras mais espetaculares, com diálogos que mesclam o filosófico e o trivial. Calvin consegue demonstrar em suas aventuras ao lado de seu gato de pelúcia Haroldo (Hobbes, no original), toda a hipocrisia do mundo adulto. Ler Calvin dá uma sensação de nostalgia incrível. O mundo adulto, com suas regras e conceitos vazios são um prato cheio para o deboche do enfezado garoto e seu tigre. O melhor lançamento deste mês. [Paulo Floro]
NOTA: 10
LIGA DA JUSTIÇA 50
Panini
[100 págs, R$ 6,90]
Desculpe-me, os fãs adictos, mas a falta de consistência da DC às vezes cansa. Poucas épocas não nos aporrinham com sagas em que o universo precisa ser destruído. No entanto, eu não consigo me desapegar do título da Liga. E digo, que para os que acompanham, coisas legais parecem vir por aí, como o novo título da LJA e 52, a maxi-série que será lançada por aqui em edições mensais. Por enquanto acompanhamos a monotonia dos títulos. LJA sem Geoff Johns, que passa a comandar Crise Infinita, perde um pouco de vigor. Lanterna Verde, coincidência ou não, ainda escrita por Johns, é a melhor história da revista, Flash, tem um roteiro bobo, quase ingênuo. Já SJA é uma história chata, truncada e distante da fase anterior. Crise Infinita atrapalhou uma melhor comemoração dos 50 números de LJA. E é realmente algo a comemorar, nunca um gibi da Liga da Justiça teve uma edição tão consistente em nossas bancas. Nisso a Panini merece aplausos. No entanto, fora o poster de Alex Ross, nada além de mais uma número na coleção. [Paulo Floro]
NOTA: 4,5
Arquivado em: Critica-Quadrinhos, Floro, Grandes Astros Superman, Quadrinhos
GRANDES ASTROS SUPERMAN
Panini
[32 págs, R$3,90]
Com distribuição nacional, a série Grandes Astros (All Star) já está nas bancas, com Grandes Astros Superman e Grandes Astros Batman e Robin. A série tem como mote convidar grandes escritores para contar uma história dos personagens clássicos da DC sem estar ligado à cronologia oficial da editora. Muitos afirmam que a DC tenta fazer em Grandes Astros o que a Marvel fez com o universo Ultimate, recontando a origem dos personagens para um novo público. A dupla Grant Morrison e Frank Quitely (WE3) fez uma dos melhores títulos da série, misturando humor, ficção científica com ação e tudo o mais que você esperaria de um gibi do homem de aço. A cena que conta a origem do Superman é surpreendente, contada em apenas uma página. Há tempos que não lia algo tão bom do Morrison, beirando à perfeição. Pena o gibi ser caro (24 páginas por R$3,90) e a série nos EUA estar tão atrasada. Mas nada tira a perfeição que é essa história. [Paulo Floro]
NOTA: 10
MARVEL MAX 41
Panini
[100 págs, R$ 6,90]
Genial é a palavra para descrever esta obra-prima do bizarro. Marvel Zombies, de Robert Kirkman mostra os heróis marvel como zumbis famintos devorando todos que encontram pela frente. As cenas são espetaculares e absurdas, como Magneto sendo comido por dezenas de heróis, inclusive o Hulk, que ao se transformar em Banner tem a barriga rasgada por ossos de Magneto. O roteiro não é nada surpreendente mas é inusitado e politicamente incorreto como a Marvel nunca foi. Com isso, a Marvel Max volta a ser o melhor investimento da Marvel em bancas. Esquadrão Supremo aumenta a tensão entre o grupo de seres mais poderosos da Terra em sua missão no Oriente Médio. Straczynski retoma sua bem feita crítica à política mundial, depois de várias mini-séries chatas derivadas de Poder Supremo. E Garth Ennis continua mestre em seus personagens casca-grossa, beirando o genérico (Fury, Justiçeiro, etc), mas abusa da violência com inteligência. [Paulo Floro]
NOTA: 8,0
MARVEL ACTION 1
Panini
[100 PÁGS, R$6,90]
A revista Demolidor mudou de nome, ganhou pouco mais de 20 páginas e agora se chama Marvel Action. Por trás desse nome ridículo, a revista conta com os heróis urbanos e soturnos da editora. É uma tentativa da Panini de aumentar as vendas da revista Demolidor, que apesar de aclamada pela crítica, não vendia bem. O argumento é bem forçado, já que um aumento de páginas e novas séries possivelmente turbinariam as vendas. Cavaleiro da Lua começa bem, mas não chega a lugar nenhum, se bem que vale a pena acompanhar a série, com arte de David Finch. O que chama atenção mesmo é a estréia de Ed Brubaker em Demolidor. O arco mostra a vida de Matt Murdock na prisão após os acontecimentos na saga Dossiê Murdock, a última de Brian Bendis no título. Uma continuação perfeita, com a mesma ambientação. Demolidor ainda é uma das melhores séries da Marvel. Só é uma vergonha não ter mais um título próprio. [Paulo Floro]
NOTA: 8,0