O Grito!


Volver | Pedro Almodóvar
Abril 7, 2007, 8:54 pm
Arquivado em: Cinema, Crítica-Cinema, Pedro Almodóvar, Rafaella

VOLVENDO CON ALMODÓVAR>
Volver é o novo Almodóvar, que com voltas e voltas, arruma sua galeria de signos.
por Rafaella Ordella

VOLVER Pedro Almodóvar
[Espanha, 2006]

“Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Esse petardo de Tolstói abre o livro Anna Karenina como uma sentença triste, porém absolutamente verdadeira que nos atinge de maneira irreversível. Ninguém escapa dessa premissa,seja uma família da aristocracia russa do século 19 ou uma família espanhola das últimas décadas.

Volver, a mais recente película de Pedro Almodóvar, é uma fábula moderna e lírica, bonita como poucas incursões nesse tema. Almodóvar pode estar mais sóbrio nas cores, mas sua exuberância está estampada ora nas atuações precisas (precisa talvez seja um termo racional demais…) ora pairando como na metáfora do vento que enlouquece, leva e traz as pessoas de volta ao vilarejo de origem. Sua mão está no roteiro, que serpenteia como muitas vidas fantásticas de pessoas reais (será que os outros continentes dividem conosco a intensidade dos sentimentos?). Está nas atuações à flor da pele, pungentes, cheirando à pimenta vermelha que Penélope Cruz usa pra alimentar um batalhão de gente.


Boca de se fuder: Almodóvar ainda é o melhor no retrato da inquietude feminina.

Sua marca registrada, criar a comoção da identificação, permeia uma narrativa brilhante, nada óbvia como sugerem aqueles que confundem estilo com repetição,pelo contrário. É um talento se reiventar em histórias similares e distintas ao mesmo tempo…Volver é único, ainda que remeta a obras anteriores. Poucos falaram de família desse jeito antes, tocando em temas recorrentes mas sugerindo uma abordagem tão afetuosa. As mulheres já receberam o carinho do diretor em forma de filme ao longo de sua obra, e o maior mérito desse trabalho é reafirmar a força do sexo feminino, nas relações entre si e nas sagas familiares.

Aqui, um ar de Garcia Márquez contemporâneo, a dar outra perspetiva do quão mágicas podem ser as trajetórias das pessoas. Nada há de terra-à-terra no universo de quem guarda segredos por décadas, quem vive à sombra do amor de quem ama, quem abre mão da própria vida para cuidar dos seus.

Carmen Maura reconciliou-se com seu habitat natural, na persona de uma matriarca nada previsível, ainda que doce e forte em momentos alternados. Superou em muito a avó firme e divertida de “Valentim”. Volver marca voltas ainda mais simbólicas, o resgate do passado daquele menino excêntrico que saiu da cidade de Mancha pro mundo e no entanto hoje retrata suas impressões de povoados folclóricos, místicos e pessoas extraordinárias que estão sob a pele de mães, filhas, avós, vizinhas. Sem que ninguém desconfie.

NOTA:: 10



Volver | Pedro Almodóvar
Novembro 14, 2006, 10:38 pm
Arquivado em: Cinema, Crítica-Cinema, Pedro Almodóvar, Rafaella

VOLVENDO CON ALMODÓVAR
Volver é o novo Almodóvar, que com voltas e voltas, arruma sua galeria de signos.
por Rafaella Ordella

VOLVER Pedro Almodóvar
[Espanha, 2006]

“Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Esse petardo de Tolstói abre o livro Anna Karenina como uma sentença triste, porém absolutamente verdadeira que nos atinge de maneira irreversível. Ninguém escapa dessa premissa,seja uma família da aristocracia russa do século 19 ou uma família espanhola das últimas décadas.

Volver, a mais recente película de Pedro Almodóvar, é uma fábula moderna e lírica, bonita como poucas incursões nesse tema. Almodóvar pode estar mais sóbrio nas cores, mas sua exuberância está estampada ora nas atuações precisas (precisa talvez seja um termo racional demais…) ora pairando como na metáfora do vento que enlouquece, leva e traz as pessoas de volta ao vilarejo de origem. Sua mão está no roteiro, que serpenteia como muitas vidas fantásticas de pessoas reais (será que os outros continentes dividem conosco a intensidade dos sentimentos?). Está nas atuações à flor da pele, pungentes, cheirando à pimenta vermelha que Penélope Cruz usa pra alimentar um batalhão de gente.


Boca de se fuder: Almodóvar ainda é o melhor no retrato da inquietude feminina.

Sua marca registrada, criar a comoção da identificação, permeia uma narrativa brilhante, nada óbvia como sugerem aqueles que confundem estilo com repetição,pelo contrário. É um talento se reiventar em histórias similares e distintas ao mesmo tempo…Volver é único, ainda que remeta a obras anteriores. Poucos falaram de família desse jeito antes, tocando em temas recorrentes mas sugerindo uma abordagem tão afetuosa. As mulheres já receberam o carinho do diretor em forma de filme ao longo de sua obra, e o maior mérito desse trabalho é reafirmar a força do sexo feminino, nas relações entre si e nas sagas familiares.

Aqui, um ar de Garcia Márquez contemporâneo, a dar outra perspetiva do quão mágicas podem ser as trajetórias das pessoas. Nada há de terra-à-terra no universo de quem guarda segredos por décadas, quem vive à sombra do amor de quem ama, quem abre mão da própria vida para cuidar dos seus.

Carmen Maura reconciliou-se com seu habitat natural, na persona de uma matriarca nada previsível, ainda que doce e forte em momentos alternados. Superou em muito a avó firme e divertida de “Valentim”. Volver marca voltas ainda mais simbólicas, o resgate do passado daquele menino excêntrico que saiu da cidade de Mancha pro mundo e no entanto hoje retrata suas impressões de povoados folclóricos, místicos e pessoas extraordinárias que estão sob a pele de mães, filhas, avós, vizinhas. Sem que ninguém desconfie.

NOTA:: 10



Misantrôpega 1 | Pedro Almodóvar
Outubro 24, 2005, 7:04 pm
Arquivado em: Cinema, Misantrôpega, Pedro Almodóvar, Rafaella

MISANTRÔPEGA
Por Rafaella Ordella
Coluna

Almodóvar é um tradutor irretocável da alma feminina. Melhor que qualquer eventual álbum de Chico Buarque. Ele vai das alegrias aos dramas, dos azedumes ao altruísmo de nossos sentimentos. Encontra, expõe e cria simpatia ao revelar o ônus e a delicia de pertencer a esse sexo, em tudo que isso abrange. Como levamos a vida transitando entre o coeso e o caótico, obedecendo apenas à oscilação dos nossos hormônios.

Sexualidade incandescente; lucidez inconsciente. Bolsa cheia de troço. Traição. TPM, frigidez e pílulas para dormir, num estranhíssimo transe pós-moderno. Toda aquela retórica de ‘nós temos o direito’ sendo diluída no melhor ‘feminismo’ quando assumimos querer apenas ser cortejada, levada para jantar ao sol de mariachis e ganhar rosas. E dá-lhe batom vermelho, muito rímel, Salto Alto e cores cítricas, berrantes!

Mesmo lidando com relacionamentos instáveis entre mãe, filho, irmãs, pacientes em coma e enfermeiros, amantes, enteadas, ex-marido travesti, ele sempre oferece um desfecho feliz.

E por feliz entende-se plausível, por mais extraordinárias que as coisas possam parecer; com o tipo de justiça poética que nos dá a sensação de todo mundo encaminhado.

Um bando de Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos! Tramas vertiginosas, capazes de nos levar de uma gargalhada à reflexão de vida. Um recheio heterogêneo de lágrimas e putaria. Além do êxito inegável de ter transformado o Kitsch em cult.

Atrizes hilárias, histriônicas, botando com sua ‘latinidade’ a Pop Arte no chinelo. Enfim, roteiros impensáveis senão a um ex-diretor de filmes pornôs que faz em duas horas misto de novela mexicana, romance barato de banca de jornal, teatro do absurdo, letra de bolero e mil citações mais sofisticadas, como Truman Capote, por exemplo.

Uma coreografia de poesia cafona, certa euforia melancólica. Libido se confundindo com catarse. Toda a estética e a (atrevo-me a diz tal palavra?) profundidade encontradas nos perfis psicológicos dessas personagens que facilmente identificamos com alguém próximo, pode parecer a principio non sense e escatalogia gratuitos. O ideal seria ir despido das censuras para ter um olhar aberto á obra de Almodóvar. Porque os mais sensíveis se sentirão atingidos, bem no estômago.

Mas o elemento diferencial está aí, quando ele diverte e agride deliberadamente. E sem esse tipo de perspectiva mais ácida sofre coisas sagradas e profundas, humanas e cretinas do mundo, a vida seria um tédio.

Hasta luego