Por Joana Coccarelli, especial para O Grito!

Da primeira vez, ficou o suntuoso saguão do Hotel Victoria, em contraste com o quarto coberto de afrescos psicodélicos berrantes. Pela janela, o rodelão da lua refletindo num canal fronteiriço com o Red Light District e, minutos depois, assim que dobramos a primeira esquina, um homem de casaco de couro nos oferecia discretamente qualquer tipo de droga. Caminhamos, eu e papai, como clandestinos pelas ruelas repletas de vitrines iluminadas com neon vermelho, roxo e pink, observando elegantemente as putas de etnias variadas, uma dançando em espartilho, meias e ligas brancas, outra tediosamente sentada – vestia camiseta “Brasil”, cheia de araras – bebendo café.
Essa foi a primeira vez. Dia seguinte, na estrada, vimos nascer um sol análogo à lua da véspera, e muitos moinhos pelo caminho. Eu tinha tenros doze aninhos.
Dezoito anos depois, há menos de seis meses, perambulo com minhas duas hostesses por Amsterdam. É um deslumbre estonteante, embalado por deprimentes comparações com a realidade nacional. Você quer se mudar para lá. Aceita emprego de engraxate e pensa em virar hippie. Porque ali subcultura é parte da cultura dominante: historicamente, a Holanda dos contos de fada absorve, civilizadamente, os costumes ditos desviantes, tal como aconteceu nos anos 1960 através da legalização da prostituição, do relaxamento das políticas antidrogas, do apoio ecológico às bicicletas como alternativa aos automóveis e, mais recentemente, da legalização do casamento gay. Isto, em si, já ejeta nossos parâmetros para Urano, onde apenas a Suíça consegue chegar num distante segundo lugar. O resto do mundo ainda rola à milanesa no esgoto hipócrita da guerra contra o tráfico, na supressão do sexo à venda e na homofobia arcaica.

Hash Museum: até os holandeses mais conservadores se convencem de que bagulho não é o anticristo
Suas sinapses já estão em curto, mas foda-se, você topa um coffee-shop. Faremos o percurso andando porque a cidade é pequena e viajante tem mais é que bater perna para ter certeza do que está vendo. O que é sempre um desafio: o fim da tarde é laranja como a monarquia dos Orange que ainda representa o país, como sua seleção de jogadores de futebol, como os cabelos de tantos nativos que cruzam ciclovias com buquês de flores na cestinha. Existe aquela perfeição generalizada que inclui até os recônditos mais errantes. Amsterdam beira a inverdade.
Coffee-shops não se restringem ao Red Light District, notório bairrinho hardcore. O primeiro onde entramos ficava numa avenida “de família”, para quem se importa com isso. Então você chega ao bar, abre o cardápio e encontra variantes fumáveis ou comestíveis da forma e espécie de planta que quer. Vale pedir orientações pro barman. Você paga na hora, ele lhe entrega um saquinho plástico com a prenda e você compra um suco, já que ali álcool é proibido. Saca umas sedas de dispositivos semelhantes aos de guardanapo e vai se servir sentado num banquinho ou numa mesa. Ninguém circula pelo ambiente, não há chance para escarcéu: a atmosfera é chapante e os freqüentadores querem assim.
O cérebro nas alturas nos levou, muito apropriadamente, ao Museu Van Gogh – se for numa sexta-feira, ainda melhor, pois nesse dia da semana o acervo fica aberto até 10 da noite. Coincidência ou não, havia um DJ e um VJ em ação no pátio do museu, repleto daquelas pessoas bonecos de porcelana, lindas e movimentadas. Ainda assim não é fácil permanecer na social for so long: acima, há andares de amplos salões com diversos desbundes do ás do pós-impressionismo, pinceladas derretidas de cores absurdas e linhas que remontam a vapor saindo da terra, vento cósmico ou correnteza.
Para chegar ao Van Gogh é preciso atravessar – ou contornar, se já for noite – o Wondelpark, um idílio vegetal onde o povo passeia, corre, anda de bike e, nos idos anos 1970, era camping da juventude nômade da época. Ao redor, as casas mais charmosas da cidade, com janelões tão grandes e tão baixos que dá pra espionar a sala, do chão até o teto. Uma excitação voyeur para a vida doméstica local.

Existe aquela eletricidade fresca de se estar onde quase tudo é permitido
Compritchas descolex é no Waterlooplatz, o melhor mercado das pulgas do mundo. Lá é possível escavar chapéus tipo Raíssa Gorbatchev, turbantes de lã preto estilo Eartha Kitt, antiquários para a casa, casacos semi-teatrais, calças xadrezes, acessórios dramáticos e muito mais. É vintage na raíz, saído do velho baú da casa de alguém. Os vendedores estão sempre prontos para acertar pechinchas, prática que me ajudou a negociar uma saia do Rajastão junto a um clone de Janis Joplin, cabelos em chamas, o redondo universal daqueles óculos, vestida à caráter.
Waterlooplatz fica no meio do já mencionado Red Light District; na real o bairro é muito tranqüilo de visitar durante o dia, famílias inteiras de holandeses rosados passam por ali. Existe aquela eletricidade fresca de se estar onde quase tudo é permitido. As vitrines normalmente se concentram em ruelas menos visadas, mas vale a pena passar e dar um confere nas meninas (só não vale fotografar). Há cogumelos vendidos no fundo de lojinhas de bonés e o adorável…
…Hash Museum, onde realizei meu manifesto legalize em clip de máquina fotográfica. A entrada é repleta de verdejantes vasos de cannabis e a recepcionista sorridente informa que fotos estão liberadas. E eis todos os argumentos pelos quais até os holandeses mais conservadores se convencem de que bagulho não é o anticristo. O espaço é limitado, mas cabem boas amostras religiosas, econômicas, culturais e botânicas da plantinha e seus derivados. Numa das salas fica o animado grow-room da Sensi Seeds, marca clássica de semente de maconha: uma estufa indoor com temperatura e iluminação controladas, premiada com diversos tufos satisfeitos.
Antes de continuar descobrindo os sem-número de fábulas amsterdâmicas, dê um pulinho na praça Spui (pronuncia-se “spáu”). Não passa de uns bares com a estátua de um moleque na frente. Aquilo ali é história. A Hunter Tobacco Company presenteou a escultura à cidade, e foi lá que, no comecinho dos anos 1960, teve início o antimovimento anarquista Provo – primeiro com apoteóticas manifestações anticigarro, seguido do plano das bicicletas brancas (anticarro, ecológico), plano das mulheres brancas (feminista), do Marihu Project (legalização), primeiras manifestações mundiais contra a guerra do Vietnam e, finalmente, elegendo um vereador, que só andava descalço e arrotava antes de falar à câmera.
Inglaterra? França? Japão? Estados Unidos? A Holanda viu, e ainda vê, tudo primeiro.
Joana Coccarelli é jornalista, autora do blog Narguee-la e idealizadora do projeto de artes Coccarelli.art.
TRADIÇÃO E MESMIÇE
Vargas Llosa lança novo romance onde recorre a temas batidos e finais felizes pouco salgados. Sempre fugindo ao estilo caliente e latino.
por Fernando de Albuquerque
MÁRIO VARGAS LLHOSA
Travessuras da Menina Má
[Alfaguara, 302 páginas, R$ 49 reais]
Com o título Travessuras de Menina Má, o premiado peruano Mário Vargas Llosa, traz ao público um romance que toca na principal ferida das relações amorosas: a opressão de uma das partes sobre a outra. Coisa bem comum e que pode ser encontrada em qualquer esquina – isso facilita a identificação do leitor. Ele revela o velho jogo de sedução em que uma mulher exercendo o papel da dominatrix, controla totalmente um homem, faz dele gato e sapato, oferece e negocia favores, conquista e a derrota, como se o outro fosse inimigo a ser destroçado.
O romance, que conta com tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, é protagonizado por Ricardito, um jovem de 15 anos que tem por objeto de desejo Lily, uma “chilenita” que baila com sensualidade e age com desenvoltura nas festinhas da turma do bairro limenho de Miraflores, nos efervescentes anos 1950. Nada melhor poderia nutrir a imaginativa cabeça de um menino em plena puberdade. Num lance de humilhação pública, descobrimos que a moça não é chilena e que a história dela esconde grandes mentiras. Ela some.
Anos depois, Ricardito realiza o sonho de morar em Paris, vivendo com modéstia como tradutor e intérprete. Reencontra a menina, travestida de revolucionária a caminho de Cuba, onde pretende receber treinamento de guerrilha. Ele lhe declara que continua apaixonado e quase consegue alguma coisa, novamente ela se vai. Clichê maior não poderia existir. Afinal, é um sonho da classe média latina pousar as mãos no capital de seus antigos colonos em busca de conforto e reconhecimento.
Com o passar dos anos, o rapaz torna a encontrá-la nas situações mais diversas: protegida por um líder cubano, casada com um francês, esposa de um rico inglês, escravizada por um japonês pervertido. À medida que o tempo passa, eles se tornam amantes fugazes, Lily sempre dando e tomando, nunca lhe retribuindo a paixão cega que ele nutre por ela. Afinal quem não já passou por isso nos dias de hoje. O sexo relâmpago é uma via de mão dupla desses sentimentos.
Enquanto narra suas desventuras, Ricardito atravessa sua história pela vida política do Peru. Embora o discurso do narrador seja renegar o atraso e os descaminhos de um país marcado por ditaduras e guerrilhas, ele não se furta a acompanhar a ascensão e queda de uma geração de idealistas que tenta construir uma alternativa revolucionária em meio a desacertos de toda sorte. O romance seria estupendamente bom se não fosse a velha tentativa latina de tomar partido.
O tempo passa, Ricardito não consegue alcançar o coração da menina má, vai envelhecendo e perdendo os amigos que preenchem um pouco do grande vazio que se torna sua vida. Ela muda. Ensaia uma aproximação e torna a humilhá-lo. Ele viaja, estuda, assiste a filmes e peças, conhece pessoas e retorna ao ponto do desejo parado na mulher misteriosa, cujo nome desconhece. A passividade é o sobrenome que o cerca.
Vargas Llosa nunca temeu cometer maldades. Suas obras sempre tiveram personagens capazes de cometer as piores atrocidades em nome do instinto ou do poder. “Travessuras da menina má” segue essa linha. Não que a personagem não se justifique, pela pobreza e desditas sofridas na infância. Da segunda metade do livro em diante, à medida que conhecemos suas motivações, as coisas se atenuam. Ela sofre revezes e, carente de ajuda, até se casa com Ricardito, topando uma vida pequeno-burguesa insossa e acomodada. Mas não será fiel a si própria se não aprontar de novo.
E o que propõe, então, o escritor? Com toda a onipotência de que só os autores desfrutam, Vargas Llosa pune exemplarmente nossa anti-heroína, fechando o romance com uma singela, quase cínica, fé no amor. Sim, talvez o amor seja lindo. Desde que renuncie à opressão. Enfim: muito clichê recheado de premiações ostensórias.
NOTA:: 6,5
O ROCK É PAIXÃO, VOCÊ NÃO PENSA NA PROFUNDIDADE
Lover’s Rock virou zine, o numero um marca uma nova fase no cenário pop de Porto Alegre
Por Wagner Beethoven
O Lover’s Rock é uma festa que acontece no Vale dos Sinos (RS), que tem no casting bandas da região dos Sinos e/ou Porto Alegre, além de DJs revezando as músicas do velho rock e do último hype, ou seja, uma festa indie no cenário underground gaúcho. Só que Gabriela Tellini e Catrine Eisinger não se contentaram só com isso, elas fizeram o Lover’s Rock em formato zine.
Neste 1º numero tem um texto sobre Bob Dylan e seu novo disco Modern Times, Guilherme Becker analisa toda a sapiência do velho rockstar e conclui que ser velho é ser além de tudo ser firme e poçante e produziu um texto bem esclarecedor do Velvet Underground. Lu Barata fala do rock sem machismo, Rock’n’Girls.
Tomás Bello escreve sobre a internet e as Grandes Gravadoras, terá um fim para esta luta? Bem, nem as envolvidas sabem a resposta. Se você não sabe o como fazer uma coletânea para dar de presente, Márcia Lima da às dicas de como presentear alguém com as saudosas K7’s! O zine trás uma entrevista do Kim Jim, um rockstar underground de Porto Alegre, em duas páginas o saxofonista ensina o verdadeiro sentido do rock’n’roll.
Tem a sessão de lançamentos, nele há presença da Publica, Supergatas e Dawn Laser Campires. Catrine mostra a nada convencional The Gaúchos. Mas quem pensa que Lover’s Rock só tem material de Porto Alegra ou coisas antigas se engana, mary Farias mostra The Pippetes para o pessoal de POA, tudo muito bem feito e finalizado com um conto a lá Nelson Rodrigues de Valentina e Henrique escrito baseados nas aventuras “fictícias” de Marrie.
Graficamente o L’s R é bem semelhante a todo zine. Em oficio dobrado, com uma tiragem de 200 exemplares xerocada, foi lançado na primeira edição da festa. Porém, o que diferencia o L’s R de um e-zine? O primeiro motivo é a coragem pára um feito tão glorioso. Segundo é a qualidade e terceiro e último é a tentativa de divulgar a boa música de modo tão primal.
Fazer um zine hoje em dia desse modos é complicado, caro e muito restrito, e é por isso que atualmente fica mais viável fazer uma coisa on-line, se bem que não seria uma má idéia fazer uma versão virtual do zine de papel, para o público out Rio Grande do Sul.
para receber o zine envie um e-mail para zineloversrock@gmail
Com a banda 3 Na Massa, cantoras como CéU e Thalma de Freitas se reiventam como musa em projeto inovador
por Rafaella Soares
Serge Gainsborg fez suas respectivas Jane Birkin e Brigitte Bardot gemerem e sugerirem as maiores fantasias lúbricas nos clássicos da chanson francesa pro mundo todo. O Two Virgins tem uma faixa que consiste basicamente de John e Yoko dizerem o nome um do outro, entre gemidos e respirações ofegantes. Mick Jagger botou Marianne Faithfull no bom caminho, por assim dizer, e Sister Morphine, encontrou uma voz.
A música é pródiga em exemplos bem sucedidos de produção/composição masculina registradas por vocais sensuais femininos.

Thalma de Freitas
Atinge ao mesmo tempo um clima lúdico e sofisticado. Aqui cabe dizer, todos as formações no estilo “coletivo” atual – vide Moreno, Domenico, Kassin+ tantos!, esbanjam em barulhinhos, texturas, invencionices das mais prazerosas. As parcerias não podiam ter simbiose maior. Nas músicas disponíveis no Myspace, tem desde Thalma de Freitas, sub-aproveitada em novelas da Globo, mostrando sua elegância nada afetada e voz suave na faixa “O seu lugar”, até CéU, revelação de 2006, interpretando uma canção de Junio Barreto, “Doce Guia”. “Tatuí” merece um à parte. A hipnótica faixa escrita por Rodrigo Amarante ganha um ar de lolita na voz de sua namorada, Karine Carvalho. Como se não bastasse isso, pra deixar o ouvinte arfando e louco pra ouvir de uma vez o aguardado cd de estréia, Manara com sua safadeza à moda antiga ilustra a página da banda na internet.
Céu
A partir desta semana, O Grito! inaugura o seu endereço no MySpace. O endereço serve para divulgar o blog, além de aumentar o contato com os leitores e artistas. No nosso MySpace, temos links para várias matérias, resenhas e entrevistas que fizemos em três anos de postagens. Ainda temos vídeos e várias coisas legais que o MySpace proporciona. No blog do My Space, nós editores colocaremos as novidades que rolam no Grito!, além de bastidores das reportagens, como entrevistas e coberturas. Cogitamos algumas promoções legais pra nossos leitores num futuro próximo. Podem chegar no nosso espaço, é de todos.
Para acessar o Myspace do Grito! entre pelo endereço: myspace.com/ogritomedia
Arquivado em: 1º Torféu Alfaitaria de Fanzines, Floro, Matéria, Quadrinhos
ELEGIA AO INDIE
O grupo Alfaiataria, responsável pelo site Pop Balões, promove prêmio para mostrar o talento dos independentes
por Paulo Floro
Houve um tempo em que fanzines eram sinônimos de publicações de baixa qualidade, relegadas à um amadorismo que por vezes beirava o risível. No atual mercado, novos quadrinhistas buscam revelar seus trabalhos em produções independentes. Para incentivar cada vez mais a produção desse tipo de material, a Alfaiataria está lançando a primeira edição do seu Troféu de Fanzines. A proposta é, além de ser um incentivo para os vencedores em si, ajudar a divulgar os fanzines que estão sendo produzidos e, acima de tudo, tratá-los com o respeito que merecem.
Ao contrário dos outros prêmios que recebem votações, o Troféu Alfaiataria formará uma banca de especialistas que irão analisar os fanzines e avaliá-los como um material profissional. O prêmio está sendo divulgado no site Pop Balões.
As categorias serão: Desenhista; Roteirista; Editor (análise das atribuições pertinentes ao editor); História (análise de história indivualmente); Fanzine de Quadrinhos (análise da revista como um todo); Fanzine sobre Quadrinhos; Revista Independente.
Fanzine é a melhor forma do quadrinhista se mostrar. Com este prêmio todos os fanzines terão seus trabalhos resenhados e as críticas serão publicadas no Universo HQ. Zé Oliboni, um dos responsáveis pelo prêmio acredita da importância da crítica no desenvolvimento desses artistas. “Conversando com o Jozz (desenhista e pesquisador) e com o pessoal da Quadrinhópole eu percebi a importância da crítica para o crescimento deles, a importâcia de alguém pegar e falar: Olha isso é legal, mas você tem que melhorar essa página, esse desenho está um merda, essa
história não acabou direito. E é isso que a gente quer fazer, divulgar, conhecer e enviar críticas de uma banca muito especializada para os participantes, para que eles cresçam.”
Além do troféu e do certificado, o principal prêmio será mesmo ter o trabalho mostrado e divulgado, além da visibilidade que cada artista recebe. O trabalho será divulgado no Pop Balões, além dos participantes receberem emails breves com críticas sobre o trabalho.
A categoria Revista Independente existe por ser considerada pela organização como uma evolução do Fanzine. Ainda teremos uma premiação paralela, feita por votação de leitores para quadrinhos publicados na internet.
MERCADO
Com tantos bons profissionais de quadrinhos escondidos por vários fanzines, como o Brasil pode ter uma produção tão pequena de títulos nacionais publicados por aqui?
É uma deficiência do mercado enxergar esses profissionais? “O mercado não é cego, mas usa tapadeira e óculos escuro. Não basta ser bom, não basta fazer fanzines, você tem que lutar, tem que divulgar o seu zine, espalhar
para todo o lado a notícia de que você trabalha.”, afirma Zé Oliboni na conversa por email com O Grito!. Recentemente, várias publicações independentes e fanzines chamaram a atenção da crítica, como Homem-Grilo, de Cadu Simões, Chuva Contra o Vento, de Felipe Cunha e o rodrigo Alonso e Napalm Comics!, de Pablo Casado. “Eu levava isso para o Diego (Figueira, do coletivo Alfaitaria) e a gente ficava espantado com a qualidade do material.”, afirma Oliboni.
Fanzine não dá lucro, mas dá resultado. Com o prêmio Alfaiataria, os organizadores querem deixar claro que fanzine é antes de tudo a melhor maneira de aprender, de conseguir espaço. “O fanzine é uma escola, um estágio. O cara faz zines, divulga e vai ter um retorno, demora, mas se ele trabalhou direitinho vem.” E Oliboni ainda dá um recado para os fanzineiros. “Você tem que pegar seu material e levar de editora em editora, contato em contato. Se ninguém publicou, mas você viu que pessoas gostaram, se esforça, rala, consegue um patrocínio e faz uma Revista independente e começa tudo de novo divulgando e conversando com pessoas.”
A importância de um troféu para fanzines é mostrar ao mercado que muita coisa boa anda acontecendo. Com a expansão do número de títulos e a diversidade que temos hoje em bancas e livrarias, é provável que um prêmio como esse, aumente a longo prazo, as chances de algum trabalho nacional, saído de um fanzine, seja publicado. “O mercado é difícil e o mercado raramente vai enxergar a não ser que você esfregue na cara dele. É triste, mas é verdade. Os ganhadores de um Troféu como o nosso vão ter uma grande exposição entre o meio dos quadrinhos, vamos fazer de tudo para que os nomes deles sejam ouvidos nos quatro cantos, contudo o Troféu é mais para o cara ter um retorno, saber que ele é realmente bom e que ele vai ter que lutar pra caralho, mas que vale a pena fazer isso porque ele é bom.”
FIQUE LIGADO
Poderão se inscrever Fanzines e Revistas independentes publicadas de 01 de Janeiro de 2005 a 31 de Dezembro de 2006, a inscrição é gratuita, bastando que se envie a Ficha de inscrição e 3 vias do Fanzine para Caixa Postal 12986 CEP 04010-970.
As inscrições se encerram no dia 30 de Março de 2007 e a entrega do Troféu será no dia 22 de Junho na Quanta Academia de Artes.
A 1° Troféu Alfaiataria de Fanzines é dedicado à memória de Joacy Jamys, o eterno fanzineiro e amigo que faleceu no final de 2006. Maiores informações, ficha de inscrição e regulamento completo no site Pop Balões e na página do troféu, dúvidas pelo e-mail: alfaiataria@gmail.com e popabaloes@popbaloes.com
Imaginário espacial e tecnológico foi uma das principais tendências da semana de moda carioca
por Fernando de Albuquerque
Mas uma coisa é certa: as roupas encurtaram e nada de discrição. O corpo está mais amostra e com mais vibrações. Não houve imposição de tons. Pelo contrário, um mix completo sem deixar as cores da paleta de lado. Os ditames caíram por terra e em tempos de Hugo Chaves nada melhor que democratizar ao cúmulo. Alguns desfiles foram transmitidos na íntegra e outros tem arquivamento marcado no YouTube. A passagem de La Bündchen foi notada por uivos da platéia e o olhar atento de Sérgio Cabral, Governador do Estado. Koolture, Adpac, Renata Veras e Felipe Eiras desfilaram uma inspiração quase coletiva em Darth Vader e os soldados do império galático.
O Fashion Rio, porém seguiu as tendências européias que buscam uma Nova Aristocracia com ideais calcados no futuro de formas e tecnologias. E para confirmar essa tese, bastou ver os desfiles de Balenciaga e Chalayan na última temporada. O círculo editorial da Vogue intitulou esse conceito de novo futurismo em retro-futurismo. Tudo com referências no imaginário espacial e tecnológico do passado. Até o modelito do homem na lua virou hype da estação.
E tudo foi cópia dos modelos europeus. A Sommer foi o exemplo mais claro já que a grife, sempre marcada por um tom acinzentado e sóbrio, buscou referências em um museu de ícones espaciais do passado e da ficção científica. Huxley ficaria passado. O filme de George Lucas também serviu de inspiração à Virzi e a Walter Rodrigues. Este, aliás, associou o retro-futurismo a roupas étnicas, criando uma desinteressante miscigenação de formas. Nossos compatriotas sempre com uma visão “semana de 22” nas composições.
Se é para abordar o futuro, é certo que o elemento esportivo tende a ser uma das chaves da moda nos próximos anos. As tecnologias e formas das roupas feitas para esportes entram cada vez mais para o vocabulário, numa adaptação de “sport luxury”, nas coleções da Redley, Reserva e Mara Mac. Entre a linha esportiva, influências militares ressurgem fortes em mantôs e pelerines, que completam os uniformes das desbravadoras contemporâneas – estejam elas interessadas nas novas tecnologias terrenas ou nos segredos ocultos no espaço. Pode tirar sua calça militar do fundo do guarda-roupa!
Arquivado em: Beirut, Final Fantasy, Floro, Matéria, Música, Radio Citizen, Wagner, Wolf Eyes
Projetos interessantes e experimentais arejam o rock e passam longe de guitarras e batidas. Talvez seja a hora de deixar aquele pop de lado só um pouquinho.
por Paulo Floro
A música dita difícil de bandas como Beirut, Final Fantasy, Radio Citizen e Wolf Eyes escondem um lirismo e talvez, uma genialidade que não se digere fácil. Longe das guitarras fáceis, esses grupos não lotam as lojas de discos de pedidos nem passeiam pelas paradas da Billboard, mas levam a música para lugares improváveis e inusitados.

Com uma sonoridade que resgata sons ciganos, abusa dos instrumentos como trompete, clarinete, acordeão, congas, tamborins para criar a atmosfera perfeita do leste europeu. É como se estivéssemos nos Balcãs, gerando em cima de uma mesa cheia de narguee-las. Multi-instrumentista, tem apenas 19 anos e já é considerado um gênio dos independentes, como Beck o fora no início dos anos 1990. A diferença esta na ousadia de referências. “Postcards From Italy” é melancólica, mas “Scenic World” não tem piedade, com seu sopro alegre e triste. Um disco genial nas formas e nos detalhes.
O nome foi tirado do famoso video-game de mesmo nome, que Pallet diz nunca ter tido paciência de tocar. Sua música explora as nuançes da música erudita, burilada por anos de estudo de piano e partitura. Este ano lançou seu segundo disco, He Pools Cloud, onde coloca à disposição do rock, elementos que nunca fariam parte em nenhuma banda de um garoto canadense. “This Lamb Sells Condons”, falando de ereções e conjuração de feitiços mostra que o som do Final Fantasy é incoerente. Ao responder sobre o disco, com temas aparentemente medievos (vilas, cavaleiros), Pallet responde: “é um ciclo de oito canções sobre as oito escolas de magia de dungeons e drangons”. Por unir a erudição com anarquia adolescente, é que chamamos Final Fantasy de gênio.
De Berlin, tem como cabeça Niko Schabel, que dispoe de talentosos parceiros para compor uma das bandas mais interessantes para quem gosta de fazer os ouvidos pesquisarem novos ambientes. Deste ano o excelente álbum Berlin Serengeti, conta com a vocalista Bajka, que canta em vários idiomas, com sua voz sofisticada. Sofisticação é o que não falta neste disco. É como estar em um hotel de luxo mas ao mesmo tempo estar em uma festa numa aldeia africana. Só mesmo viajando com o som que Schabel propõe pra descobrir.
A procura por essas bandas que ousam inovar num panorama rockeiro hedonista, fazem do prazer dos ouvintes um artigo raro, de luxo.
BEIRUT Gulag Orkestar
[Ba Da Bing!, 2006]
NOTA:: 9,0
FINAL FANTASY He Poos Cloud
[Tomlab, 2006]
NOTA:: 7,5
RADIO CITIZEN Berlin Serengeti
[Ubiquity, 2006]
NOTA:: 7,5
O MAIS RADICAL DE TODOS, WOLF EYES É UMA DOR NO JUÍZO
por Wagner Beethoven

Human Animal é a junção perfeita da inteligência humana com os instintos mais selvagens de animais. Uma trilha sonora da agonia e muita genialidade. Com um pouco mais de meia hora, o disco consegue se tornar inaudível em alguns momentos, mas aqui experimentar não é só apenas uma forma de quebrar as estruturas do pop e sim de fazer arte. “A Million Years” começa como um dia chuvoso de inverno e termina no inferno, “Lakes of Roaches” segue com chiados e barulhinhos que escutados no fone de ouvidos não é possível ter uma reação fria diante dela, “Rationed Riot”, a mais longa do disco consegue ser chata de tão parada. As sonoridades se misturam em “Human Animal” e fica impossível escutá-la em volume máximo, é de doer os tímpanos, nunca vi nada igual. “Rusted mange” é a outra metade do disco cantada e como não poderia ser diferente, com um vocal gritado e digno de industrial da melhor qualidade. Junto com “Rusted Mange”, “The Driller” segue a mesma linha, mas agora como uma perseguição ao obscuro e, a oitava e ultima música “Noise is Not Music” é um recado aos fãs raivosos de Kim Gordon e para a própria banda.
Human Animal é um trabalho pesado, grosso e nada vanguarda, quebra a natureza pop da musica, nada parecido com o que se vem tendo como salvação da música.
NOTA:: 7,5
EU SOU A DOENÇA
Os quadrinhos de Suehiro Maruo foram feitos para dar um nó em tudo. Até no estômago
por Paulo Floro
Maruo tinha quinze anos quando foi expulso da escola. Dizem que praticava pequenos furtos e alguns afirmam que tinha passagens pela polícia. Em Tóquio, tentou fazer aquilo em que achava que era bom: desenhar. Aos 17 anos enviou sua primeira história para a revista Shonem Jump, que entre outras coisas já publicou Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball. Com forte conteúdo erótico e muita violência, a curta narrativa de sexo e sangue foi rejeitada. A alternativa de Maruo foi publicar seus desenhos em revistas de putaria mesmo. Mas apenas pessoas com sérios problemas se masturbariam com as propostas doentias e escatológicas de Suehiro e ele foi mais uma vez dispensado. Demorou muito tempo para o público descobrir o autor com um dos mais importantes renovadores do manga japonês, e que seu lugar não era na grande mídia nem nas revistas pornôs, e sim na vanguarda dos quadrinhos de arte.
Nascido em 1956, Suehiro Maruo é um dos mais inventivos autores de quadrinhos japoneses (mangaka, ou gekika para autores adultos). Atualmente, suas pinturas e artes originais são disputadas em leilões e sua obra é objeto de culto, sobretudo na Europa. Aos 24 anos, lançou de fato sua primeira obra, mas sua bibliografia ainda é rara fora do japão. Mas cada vez mais, encontramos suas crias, sobretudo na Alemanha e Estados Unidos. No Brasil, a Conrad já publicou três livros, sem se preocupar com a ordem cronológica, O Vampiro que Ri, Ero-Guro e Paraíso. Conhecido como Marques de Sade das hq´s, a obra de Maruo se baseia na exploração do grotesco. Em sua obra, a patologia encontra o prazer, e aquilo que causa mais medo é também o que traz o maior desejo.
OLHAR FORTE
É preciso ter estômago e nervos fortes para se adentrar na obra de Suehiro Maruo. Em suas páginas encontramos Sade, Lautreamont, Crumb, Marx, Burroughs, Vaneigem, Hakin Bey, Sieber, Pasolini, Bataille e Buñel. Todos eles, como Maruo convivem bem com aquilo que nos incomoda. E é essa a intenção. Nada é fácil, tudo é doente. O cerne da obra deste mangaka, certamente é a pornografia e os tabus sexuais, usados aqui como forma de provocação política. Outra é o extremo realismo; não há lugar para olhos grandes, cabelos coloridos e magia nas histórias. O que podemos ver também é um surrealismo que se confunde com as desconcertantes cenas de estupro, coprofilia, violência, o que levou jornalistas europeus a criarem o termo “suehirismo”. Estaria a percepção de Maruo difusa ou ele apenas vê o que o mundo nos esconde? Ero-Guro, seu livro mais conhecido, é na verdade uma das promissoras correntes artísticas dos quadrinhos japoneses, que visam analisar o mundo através do prisma da imoralidade. Assim como as pessoas saíam do cinema ao ver o olho cortado de Buñuel ou fechavam o livro incomodados com a frieza sexual de Sade ou se sentiam péssimas ao dormir quando liam os Cantos de Maldoror de Lautreamont, poucos com os nervos de aço terão estômago suficiente para encarar a aventura estética dos livros de Maruo. A filosofia de que o prazer e o horror estão bastante próximos é baseado no pensamento do francês Georges Bataille. E o horror é o combustível da obra de Suehiro Maruo. Seu estilo ainda é mais controverso ao utilizar um traço bastante simples que se assemelha à Ozamu Tezuka, grande desenhista de mangas inofensivos como A Princesa e o Cavaleiro. Também abusa dos detalhes, sem ser rebuscado, e utiliza o subjetivo nos quadros, ao mostrar a pureza sendo devastada por pênis totalmente pretos, em contraste com a pele branca e frágil das japonesas.
EM ALGUM LUGAR OBSCURO – AS OBRAS
O primeiro lançado pela Conrad, O Vampiro Que Ri conta a história do vampiro Kônosuki Môri, em seus primeiros dias de almadiçoado. Uma velha conhecida como “A Corcunda” narra sua vida até o dia em que se tornou uma vampira. A cena que Môri recebe o sangue da velha como alimento é o ponto alto do livro. Nesta obra, Maruo se utiliza do conhecido visual das colegiais japonesas, tão utilizados em shojos para meninas, para mostrar uma sociedade que esconde uma brutalidade imoral tamanha. Garotas do colégio se prostituem para velhos pervertidos, dois garotos espancam um mendigo, enquanto outro coleciona artigos de jornais com seus crimes.
O segundo livro, lançado no fim de 2005, Ero-Guro é a expressão máxima da obra deste autor. Basicamente se trata de nove histórias com o que há de mais perverso no pensamento humano. O que dizer de um autor que inventa um personagem chamado de Garoto da Latrina, que tendo sido abandonado pela mãe dentro de uma latrina coletiva, cresceu neste ambiente e vive a praticar atos sádicos enquanto as pessoas estão fazendo necessidades fisiológicas. “O Grande Masturador”, baseado num quadro de Salvador Dalí, é o máximo que o surrealismo pode atingir no tema grotesco. Outras formas de perversão tomam o livro, como incesto, estupro, violência, sexo com velhas, coprofilia (sexo com fezes). Aparentemente gratuitas, estas imagens tem como intuito aguçar a emoção estética do leitor. É neste livro que Maruo exercita sua predileção pelo período histórico do pós-guerra, na última e maior história “A Cidade que Sucumbe”, onde um anão, ex-ator de filmes pornôs, pratica canibalismo e tenta assediar uma jovem mãe a casar com ele. Nunca os quadrinhos foram tão desconcertantes. Um clássico absoluto.
Pra completar a biblioteca lançada no Brasil, este ano a Conrad colocou nas livrarias Paraíso, o Sorriso do Vampiro. Apesar de não ter o mesmo impacto que Ero-Guro, trata-se da continuação de O Vampiro que Ri, com praticamente os mesmos personagens. A visão da juventude para Suehiro Maruo continua perversa, e ele continua a explorar a idéia do vampirismo como fuga da normalidade, já que na teoria, todo vampiro pode se entregar aos desejos mais sórdidos sem culpa.
O desafio de ler Suehiro Maruo vai além da simples curiosidade pela esquisitice, reforça um senso estético que o mercado de quadrinhos (sobretudo no Brasil) passou a levar em conta ao apostar em títulos e autores que diversificam a Arte Sequencial. Maruo é o mestre num dos movimentos artísticos mais corajosos a surgir no Japão. Nunca foi fácil entender os mais sórdidos temores da natureza humana. E Suehiro Maruo tem a resposta.
Site oficial: http://www.maruojigoku.com/
Outras imagens produzidas por Suehiro Maru: 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15.
ESTRANHOS AMORES À MODA TUPINIQUIM
Com Incuráveis, pseudo-cinemão brasileiro quer ser cult e não fatura o público
por Fernando de Albuquerque
Quem não gosta, de vez em quando, de uma comédia romântica? Acompanhada de uma pipoca e um refrigerante bem engordativo o programa começa a soar irresistível. Mas quando se fala nesse gênero cinematográfico a primeira coisa que vem a mente é a forma como americanos fazem comédias românticas. Sempre repletas de muito açúcar e trilha sonora bem pop. Mas o braço devemos torcer: a narrativa sempre envolve o mais bruto dos humanos.
Talvez por falta de prática, desinteresse ou simplesmente teimosia, o cinema brasileiro nunca soube fazer filmes românticos capazes de seguir as regras do manual ianque. Até as produções nacionais com grandes ambições comerciais tratam o gênero de forma desengonçada, sem intimidade com os mais batidos lugares-comuns. O lado menos convencional do tema, porém, sempre bateu forte no coração dos cineastas do país. De Arnaldo Jabor a Domingos de Oliveira, não são poucos os que filmaram casais às voltas com o lado mais corriqueiro ou obscuro dos relacionamentos amorosos. Para tanto basta dar uma olhada na última safra de produções, principalmente patrocinada pela Globo Filmes.
O ineditismo no circuito comercial faz de Incuráveis, do carioca Gustavo Acioli, o maior destaque entre todas as produções nacionais. Exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro do ano passado e disponível no e-mule (só para aqueles que conseguem fuçar a máquina), o filme venceu o prêmio de melhor ator (Fernando Eiras, que contracena com Dira Paes e agora faz um personagem gay em Páginas da Vida) e intrigou a platéia com um roteiro circular sobre um casal que, em um quarto barato, se envolve em um jogo misterioso de sedução.

Da esquerda para a direita: Gustavo Acioly, Fernando Eiras, Luiz Guimarães de Castro (editor) e André Weller (diretor de arte) na 9ª Mostra de Cinema de Tiradentes Minas Gerais
A inspiração teatral, da peça A dama da Lapa, de Marcelo Pedreira, é notada de forma explícita na tela. “Este é um filme de sentimento, que aposta nos atores”. Usar diálogos realistas seria banalizar o texto original. Preferimos apostar que os atores soubessem como aproveitar esses diálogos não-coloquiais”, disse o diretor em uma entrevista concedida do Correio Braziliense na época.
Com ação confinada em um único espaço, Incuráveis pertence a uma linha de cinema brasileiro que remete a duas outras produções reconhecidas, mas pouco exibidas: Um copo de cólera, de Aluízio Abranches, Filme de amor, de Júlio Bressane, e Eu sei que vou te amar, de Arnaldo Jabor. O filme de Acioli dialoga muito com o de Jabor. E, com Um copo de cólera, tem a semelhança de não abandonar a origem – no caso do filme de Aluízio, literária. Ainda há outras produções que merecem certo destaque como Amores, que marcou o retorno elogiado de Domingos Oliveira nos anos 1990, e O primeiro dia, de Walter Salles e Daniela Thomas.

Dira Paes e Fernando Eiras, os protagonistas do filme de Gustavo Acioli
Com estréia no Rio de Janeiro e em São Paulo programada para 10 de novembro e sem previsão de chegar às telinhas nordestinas (como sempre ocorre com filmes bons), “Incuráveis” enfrentará o gargalo da distribuição comercial em um ano especialmente difícil para o cinema brasileiro. Acioli vê no filme potencial para ir além do circuito alternativo de salas, mas reconhece que os mecanismos de produção brasileiros dificultam a performance de produções à margem dos multiplexes e sem amparo de empresas de divulgação como a Globo Filmes que domina a cena nacional. “É um sistema auto-condenatório. Há pouco dinheiro para publicidade, e esses filmes pequenos já nascem para um circuito determinado de antemão. Não dá para concorrer com a máquina de filmes norte-americanos. O problema é quando a mídia diz que a falta de público tem a ver com a má qualidade dos filmes”, observa o diretor em entrevista por e-mail. O filme será lançado com apenas cinco cópias. “Mas confio que, apesar de todas as dificuldades, o filme terá uma boa propaganda informal. Estamos distribuindo filipetas”, avisa. Faça-se uma campanha a favor de uma atípica love story e viva o pseudo-cinemão nacional.
