TRADIÇÃO E MESMIÇE
Vargas Llosa lança novo romance onde recorre a temas batidos e finais felizes pouco salgados. Sempre fugindo ao estilo caliente e latino.
por Fernando de Albuquerque
MÁRIO VARGAS LLHOSA
Travessuras da Menina Má
[Alfaguara, 302 páginas, R$ 49 reais]
Com o título Travessuras de Menina Má, o premiado peruano Mário Vargas Llosa, traz ao público um romance que toca na principal ferida das relações amorosas: a opressão de uma das partes sobre a outra. Coisa bem comum e que pode ser encontrada em qualquer esquina – isso facilita a identificação do leitor. Ele revela o velho jogo de sedução em que uma mulher exercendo o papel da dominatrix, controla totalmente um homem, faz dele gato e sapato, oferece e negocia favores, conquista e a derrota, como se o outro fosse inimigo a ser destroçado.
O romance, que conta com tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, é protagonizado por Ricardito, um jovem de 15 anos que tem por objeto de desejo Lily, uma “chilenita” que baila com sensualidade e age com desenvoltura nas festinhas da turma do bairro limenho de Miraflores, nos efervescentes anos 1950. Nada melhor poderia nutrir a imaginativa cabeça de um menino em plena puberdade. Num lance de humilhação pública, descobrimos que a moça não é chilena e que a história dela esconde grandes mentiras. Ela some.
Anos depois, Ricardito realiza o sonho de morar em Paris, vivendo com modéstia como tradutor e intérprete. Reencontra a menina, travestida de revolucionária a caminho de Cuba, onde pretende receber treinamento de guerrilha. Ele lhe declara que continua apaixonado e quase consegue alguma coisa, novamente ela se vai. Clichê maior não poderia existir. Afinal, é um sonho da classe média latina pousar as mãos no capital de seus antigos colonos em busca de conforto e reconhecimento.
Com o passar dos anos, o rapaz torna a encontrá-la nas situações mais diversas: protegida por um líder cubano, casada com um francês, esposa de um rico inglês, escravizada por um japonês pervertido. À medida que o tempo passa, eles se tornam amantes fugazes, Lily sempre dando e tomando, nunca lhe retribuindo a paixão cega que ele nutre por ela. Afinal quem não já passou por isso nos dias de hoje. O sexo relâmpago é uma via de mão dupla desses sentimentos.
Enquanto narra suas desventuras, Ricardito atravessa sua história pela vida política do Peru. Embora o discurso do narrador seja renegar o atraso e os descaminhos de um país marcado por ditaduras e guerrilhas, ele não se furta a acompanhar a ascensão e queda de uma geração de idealistas que tenta construir uma alternativa revolucionária em meio a desacertos de toda sorte. O romance seria estupendamente bom se não fosse a velha tentativa latina de tomar partido.
O tempo passa, Ricardito não consegue alcançar o coração da menina má, vai envelhecendo e perdendo os amigos que preenchem um pouco do grande vazio que se torna sua vida. Ela muda. Ensaia uma aproximação e torna a humilhá-lo. Ele viaja, estuda, assiste a filmes e peças, conhece pessoas e retorna ao ponto do desejo parado na mulher misteriosa, cujo nome desconhece. A passividade é o sobrenome que o cerca.
Vargas Llosa nunca temeu cometer maldades. Suas obras sempre tiveram personagens capazes de cometer as piores atrocidades em nome do instinto ou do poder. “Travessuras da menina má” segue essa linha. Não que a personagem não se justifique, pela pobreza e desditas sofridas na infância. Da segunda metade do livro em diante, à medida que conhecemos suas motivações, as coisas se atenuam. Ela sofre revezes e, carente de ajuda, até se casa com Ricardito, topando uma vida pequeno-burguesa insossa e acomodada. Mas não será fiel a si própria se não aprontar de novo.
E o que propõe, então, o escritor? Com toda a onipotência de que só os autores desfrutam, Vargas Llosa pune exemplarmente nossa anti-heroína, fechando o romance com uma singela, quase cínica, fé no amor. Sim, talvez o amor seja lindo. Desde que renuncie à opressão. Enfim: muito clichê recheado de premiações ostensórias.
NOTA:: 6,5
MUITAS PERGUNTAS, POUCAS RESPOSTAS E MESMICE LITERÁRIA.por Fernando de Albuquerque
Uma pequena passagem do evangelho segundo Mateus, e que aparece com a mesma virulência em Lucas e Marcos, foi a mola mestra para despertar, no já tarimbado escritor gaúcho Moacyr Scliar a idéia de escrever um novo romance. Ele, com 69 anos de idade, possui 70 títulos publicados e ocupa cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2003. “Os Vendilhões do Tempo” (Companhia das Letras, 304 páginas) é o título do livro que até certo ponto concentra e aprimora algumas das linhas centrais de sua ficção. A revisão de temas bíblicos, por exemplo, já apareceu antes no romance “A Mulher que Escreveu a Bíblia” e no belo conto “As Pragas”.
Neste livro o escritor parte do episódio de São Mateus para desenvolver três narrativas, em tempos completamente diversos. Sempre pontuadas por muito humor (particularidade nos textos do autor), as histórias colocam o leitor a par da intrincada relação entre religião e comércio, religião e ideologia. Que, segundo Scliar, são contradições bem presentes nos dias de hoje. E se ele não avisasse ninguém saberia, não é?
Logo de cara o primeiro episódio reconta a diatribe de Jesus contra os mercadores sob a perspectiva de uma de suas vítimas. O personagem nem ganha um nome: é chamado apenas de “o vendilhão”. Um agricultor falido, ele se muda para Jerusalém em busca de uma nova oportunidade de vida para sua família. E a encontra, vendendo animais e trocando moedas no Templo, até ser perturbado pela irrupção de um líder religioso que poucos dias depois morreria na cruz. Na sua reconstituição da Jerusalém antiga, Scliar está sempre de olho no mundo contemporâneo – quando era agricultor, o vendilhão se imaginava uma vítima do que hoje chamaríamos de globalização: ressentia-se da livre concorrência com o trigo barato importado do Egito. E aí fica bem claro a tentativa de discutir, mesmo que seja sob o ícone de idéias bem clichês, questões contemporâneas que já foram esmiuçadas em demasia. Afinal os ignorantes bradam que tudo é culpa da globalização. E não tem nada mais démodé que pensar com cabeça de socialista utópico referendando os ideais de nacionalismo.
Já no segundo episódio, o tema é reeditado no Brasil do século XVII. O viés aqui é o do estranhamento cultural: um jesuíta que não entende guarani se vê diante de um velho índio que oferece toscas imagens religiosas em frente à igreja. Séculos depois, o pequeno povoado indígena se transforma em uma florescente cidade do interior, a fictícia São Nicolau do Oeste. É lá, em 1996, que tem lugar o último episódio, narrado em primeira pessoa por um jornalista que trabalha como assessor de imprensa da prefeitura. O vendilhão ressurge em um esquete teatral que os personagens centrais montaram na adolescência, num colégio católico. A condição judaica, assunto fundamental da obra de Scliar, aparece aqui como uma sombra sutil. A idéia que um dos garotos faz do vendilhão é a do estereótipo anti-semita: dedos em garra, nariz adunco, olhos que brilham quando avistam dinheiro. E agora sim a história ganha cores mais interessantes e dá até para antever um final mais trágico.
À luz dos fatos mais recentes, a caracterização que Scliar faz do partido de esquerda que toma a prefeitura de São Nicolau do Oeste (um grupo de gente idealista, um tanto ridícula em seu dogmatismo, mas no fundo um pouco honesta) soa muito ingênua. De qualquer forma, a intenção do autor pode até não ser a de comentar a política do momento, mas infelizmente é o que acaba fazendo. Os “Vendilhões do Templo” mira mais longe: é uma crítica às condenações que os fundamentalismos de todos os naipes erguem contra o dinheiro. Puro ardor de socialista ressentido. O comércio aparece no livro como um empreendimento inovador, libertário – uma das grandes aventuras humanas. Não por acaso, um dos heróis do romance será um simples camelô.
Voltando a questões técnicas: o trabalho de pesquisa é algo bem latente neste título composto por descrições minuciosas da Jerusalém dos tempos de Cristo e das missões jesuíticas no Sul do país, panos de fundo da primeira e segunda parte do livro. A terceira história, interligada às outras duas, se passa nos dias de hoje e tem como mote o choque de conflitos de poder, representado pela ideologia de esquerda, e a religião.
Médico por formação, especializado em saúde pública, Scliar, que tem entre os mestres da literatura o conterrâneo Érico Veríssimo e o tcheco Franz Kafka. Desde cedo aprendeu a conciliar as duas atividades para sobreviver. Antes de “Os vendilhões do Templo”, o escritor teve seu romance do ano passado, Na noite do ventre, o diamante (Objetiva), classificado em terceiro lugar entre os finalistas ao Prêmio Jabuti (da Câmara Brasileira do Livro) deste ano, na categoria romance.
OS VENDILHÕES DO TEMPLO Moacyr Scliar
[Companhia das Letras, 304 pgs, R$ 43]