O Grito!


The Who | Endless Wire
Abril 7, 2007, 8:55 pm
Arquivado em: Crítica-Música, JP, Música, The Who


Uma bela oportunidade de ficar calado, o Who neste novo disco fez uma caca vergonhosa.

SANTA SURDEZ, PETE!
Por João Paulo Vasconcelos

The Who
Endless Wire

[Republic/Universal, 2006]

Se formos desprezar a vacina que alguns críticos insistem em aplicar aos artistas e aos grupos veteranos – a vacina que ignora jargões como “a banda ‘X’ não precisa provar mais nada a ninguém” e garantem frases do tipo “um disco fraco dos vovôs valem mais que os novos álbuns das bandas da atualidade elevados à potência de ‘n’ – boa parte dos reis que existem no mundo ficam nus. E é difícil não esconder a frustração quando se houve aquela banda que preferiu ficar velha (no mau sentido) antes de morrer, contrariando o pacto firmado faz pouco mais de quarenta anos. Depois de alcançar todo o seu ápice criativo no duplo Quadrophenia [1973], ficou óbvio o quão seria difícil para o Who fazer um outro disco de marca máxima, que pudesse competir com os antecessores. Vieram em seguida os álbuns mais fracos do grupo nos anos 70, The Who by numbers [1976] e Who are you? [1978], a morte do baterista Keith Moon, a agravação da dependência química de Pete Townshend, dois trabalhos nos anos 80 que acabaram no limbo (Face dances e It’s hard), o falecimento do baixista e virtuose John Entwistle… O novo trabalho veio não a aprofundar o buraco, mas a mostrar que a banda – ou o que sobrou dela, para ser mais justo com seu nome curto, mas de impacto – ainda está lá.

O EP que precedeu o lançamento de Endless wire, Wire & glass (uma mini-ópera que Townshend elaborou), deixou um parecer enganoso – que o Who estaria vindo com um trabalho com cheio de punch. São o inverso dos arrastados singles inéditos da coletânea Them and now, de 2004 (as faixas “Old red wine” e “Real good looking boy”). As seis faixas elencadas do EP aparecem em Endless wire. Precisa-se de frieza para analisar tal disco: é o primeiro CD de inéditas do Who desde 1982. Townshend e Roger Daltrey (que, gracias, ainda consegue cantar bem, mesmo que dê uma ou outra escorregada) já passaram dos sessenta. Não poderia se esperar muita coisa, mas… Faz sentido o lançamento de um novo disco do Who, assim comos os pulos (demasiadamente idiotas) de Pete, em pleno 2006? Por que não dormir a saber do reconhecimento que os fãs e os bons amantes do rock têm de sua obra em décadas passadas?

Na tentativa (desesperada, quem sabe) de querer firmar um novo clássico, surge a primeira faixa. “Fragments” (e sua versão encurtada, a “Fragments of fragments”) já remete a “Baba O’Riley” pelos teclados na abertura, a estabelecer um link cuja distância são exatos 35 anos. Soa desnecessária, pois falta-lhe a capacidade de emocionar o ouvinte, como o tema de abertura do álbum Who’s next, de 1971. Nada de extraordinário desta até a nona faixa, tempo que se perde em rocks exaustos (“Mike Post Theme”, “It’s not enough”) e baladas feitas sem cuidado (“In the ether”, cantada com um sacarsmo dispensável e melodia com aspecto de rascunho – é, de fato, uma faixa não passada a limpo) ou com a função de tapa-buracos, como os momentos solitários de Townshend. “Good speaks of Marty Robbins”, com ele na dobradinha voz/violão, tem a sua beleza. Talvez a única canção que se sobressai nessa primeira metade de CD, junta do hard-folk “Black Widow’s eyes”.

E a ópera-rock se inicia na décima faixa. São essas músicas, de estruturas semelhante às de vinhetas (a maioria delas dura pouco mais de um minuto – exceção feita à “Mirror door”, com quatro minutos e catorze segundos) que salvam o disco de uma grande ruína. A já citada “Mirror door” é paixão declarada à arte que os dois se dedicaram. Acompanha a mensagem da letra uma série de citações a nomes que, mesmo com a distância que seus gêneros propiciam, estão juntos em outro plano: Curtis Mayfield, Elvis Presley, Wolfang Amadeus Mozart…
Um encontro sob os apalusos da platéia, cortesia de samplers. “Sound round”, “Pick up the peace” (a melhor das canções curtas), a faixa-título, “We got a hit” e o blues estradeiro “They made my dreams come true” fecham o bloco conceitual. Um encerramento da forma mais amena para um disco que nasceu sem brilho. Resta esperar que a passagem da banda pelo Brasil no próximo ano seja digna.

NOTA:: 4,0



The Who | Endless Wire
Novembro 14, 2006, 10:38 pm
Arquivado em: Crítica-Música, JP, Música, The Who

SANTA SURDEZ, PETE!
Por João Paulo Vasconcelos


Uma bela oportunidade de ficar calado, o Who neste novo disco fez uma caca vergonhosa.

The Who
Endless Wire
[Republic/Universal, 2006]

Se formos desprezar a vacina que alguns críticos insistem em aplicar aos artistas e aos grupos veteranos – a vacina que ignora jargões como “a banda ‘X’ não precisa provar mais nada a ninguém” e garantem frases do tipo “um disco fraco dos vovôs valem mais que os novos álbuns das bandas da atualidade elevados à potência de ‘n’ – boa parte dos reis que existem no mundo ficam nus. E é difícil não esconder a frustração quando se houve aquela banda que preferiu ficar velha (no mau sentido) antes de morrer, contrariando o pacto firmado faz pouco mais de quarenta anos. Depois de alcançar todo o seu ápice criativo no duplo Quadrophenia [1973], ficou óbvio o quão seria difícil para o Who fazer um outro disco de marca máxima, que pudesse competir com os antecessores. Vieram em seguida os álbuns mais fracos do grupo nos anos 70, The Who by numbers [1976] e Who are you? [1978], a morte do baterista Keith Moon, a agravação da dependência química de Pete Townshend, dois trabalhos nos anos 80 que acabaram no limbo (Face dances e It’s hard), o falecimento do baixista e virtuose John Entwistle… O novo trabalho veio não a aprofundar o buraco, mas a mostrar que a banda – ou o que sobrou dela, para ser mais justo com seu nome curto, mas de impacto – ainda está lá.

O EP que precedeu o lançamento de Endless wire, Wire & glass (uma mini-ópera que Townshend elaborou), deixou um parecer enganoso – que o Who estaria vindo com um trabalho com cheio de punch. São o inverso dos arrastados singles inéditos da coletânea Them and now, de 2004 (as faixas “Old red wine” e “Real good looking boy”). As seis faixas elencadas do EP aparecem em Endless wire. Precisa-se de frieza para analisar tal disco: é o primeiro CD de inéditas do Who desde 1982. Townshend e Roger Daltrey (que, gracias, ainda consegue cantar bem, mesmo que dê uma ou outra escorregada) já passaram dos sessenta. Não poderia se esperar muita coisa, mas… Faz sentido o lançamento de um novo disco do Who, assim comos os pulos (demasiadamente idiotas) de Pete, em pleno 2006? Por que não dormir a saber do reconhecimento que os fãs e os bons amantes do rock têm de sua obra em décadas passadas?

Na tentativa (desesperada, quem sabe) de querer firmar um novo clássico, surge a primeira faixa. “Fragments” (e sua versão encurtada, a “Fragments of fragments”) já remete a “Baba O’Riley” pelos teclados na abertura, a estabelecer um link cuja distância são exatos 35 anos. Soa desnecessária, pois falta-lhe a capacidade de emocionar o ouvinte, como o tema de abertura do álbum Who’s next, de 1971. Nada de extraordinário desta até a nona faixa, tempo que se perde em rocks exaustos (“Mike Post Theme”, “It’s not enough”) e baladas feitas sem cuidado (“In the ether”, cantada com um sacarsmo dispensável e melodia com aspecto de rascunho – é, de fato, uma faixa não passada a limpo) ou com a função de tapa-buracos, como os momentos solitários de Townshend. “Good speaks of Marty Robbins”, com ele na dobradinha voz/violão, tem a sua beleza. Talvez a única canção que se sobressai nessa primeira metade de CD, junta do hard-folk “Black Widow’s eyes”.

E a ópera-rock se inicia na décima faixa. São essas músicas, de estruturas semelhante às de vinhetas (a maioria delas dura pouco mais de um minuto – exceção feita à “Mirror door”, com quatro minutos e catorze segundos) que salvam o disco de uma grande ruína. A já citada “Mirror door” é paixão declarada à arte que os dois se dedicaram. Acompanha a mensagem da letra uma série de citações a nomes que, mesmo com a distância que seus gêneros propiciam, estão juntos em outro plano: Curtis Mayfield, Elvis Presley, Wolfang Amadeus Mozart…
Um encontro sob os apalusos da platéia, cortesia de samplers. “Sound round”, “Pick up the peace” (a melhor das canções curtas), a faixa-título, “We got a hit” e o blues estradeiro “They made my dreams come true” fecham o bloco conceitual. Um encerramento da forma mais amena para um disco que nasceu sem brilho. Resta esperar que a passagem da banda pelo Brasil no próximo ano seja digna.

NOTA:: 4,0



The Killers | Sam´s Town
Outubro 3, 2006, 12:21 am
Arquivado em: Crítica-Música, JP, Música, The Killers

OS MESSIAS DO INDIE ROCK?
Por João Paulo Vasconcelos

THE KILLERS
Sam’s Town
[Island, 2006]

Maldito seja o teste do segundo disco. O procedimento, que meio que andou sumido na década passada (só me lembro de um caso concreto até o momento: o dos Stone Roses), regressou com pompa para este início de terceiro milênio. Faz todo sentido – não há algo tão “anos 80″ que pôr o tal assunto em dia, e justamente quando boa parte do rock retrocedeu vinte anos. É a hora de se determinar se um grupo, ou vai ser reconhecido apenas como um Bananarama de sua época, ou é um aspirante, com um pouco de certeza, a The Cure. Bem, até o momento, já se viram triunfos, garantidos pelos Strokes (Room on fire – ainda que seja o “menos melhor” de seus três álbuns), Kasabian (Empire) e Franz Ferdinand (You Could Have it So Much Better), entre outros, e derrotas, em casos como o do Vines (Winning days – e a banda mostrou sinais de recuperação com Vision valley) e dos Libertines (The Libertines). Pior; há quem morra logo no primeiro álbum (leia-se: Babyshambles, Kaiser Chiefs, Bravery, Death Cab For Cutie…), só para a acentuação da qualidade duvidosa de alguns conjuntos.

Mal caiu na rede o segundo trabalho do Killers, e reclamações de várias naturezas pipocaram: “cadê a beleza (sic) de ‘Smile Like You Mean It’ e de ‘Change Your(sic) Mind ‘? (não estranhe: em tempos de internet, muito normal que o nível de escrita beire a aberração)”, “não tem nada animado como ‘Somebody Told Me’?”… Saudades brabas de Hot Fuss, a gênese discográfica deles, não é? É inegável que o álbum de 2004 têm sido uma das grandes surpresas de dois anos atrás. É que Sam’s Town, é um CD até “difícil” – experimente comparar ele com Hot Fuss para ver qual é o mais radiofônico dos álbuns. “Where you were young” (a primeira canção de trabalho, que bebeu na fonte de Bruce Springsteen e revelou duas boas b-sides, o funk-pós-punk “Where the White Boys Dance” e a garageira “All The Pretty Face” – que figuraria bem até num disco dos Mummies) e talvez “Bones” (muito provavelmente o próximo single), que fica entre o Queen e o U2, são divulgáveis – mas sem o poder autocolante que uma “Somebody Told Me” (se bem que a faixa-título possui certa força pra isso) ou a magnitude de uma “Mr. Brightside” proporcionava. Bem, falta de sucessos não significaria precisamente um trabalho de baixa qualidade: a banda passa no teste com este segundo (no espírito de uns 40 minutos do segundo tempo) trabalho que, embora se assemelhe ao seu antecessor, é claramente mais maduro.

Quem simplesmente se fascinou pelos timbres datados dos sintetizadores, chupins sobre o Roxy Music e o Duran Duran, ou o momento “rock de arena” de “All These Things That I’ve Done” – tudo no primeiro álbum – vale o atento dos ouvidos. No primeiro caso, temos “Bling (Confessions Of A King)” e “Read My Mind”, esta última, de fato, colocando medo de início, se revelando uma triste, fria e escura… canção emotiva (não, senhores, não é o emocore!). Boas para execução em estádios, quando Brandon Flowers sentir um Bono Vox dentro dele. Visto que o Queen teve citação no parágrafo anterior, a influência vai de encontro com “My list”, “Why Do I Keep Counting” (é bem possível que as viúvas do hard-rock farofento dos anos 80 – e porquê não, os fãs do Darkness – acharão sua cara-metade nesta música) e num momento mais soft, “Exitlude”, que irão garantir culhão para quem for se aprofundar em momentos mais operísticos ou dramáticos (bregas não, por favor) da obra. O ar sessentista prossegue com “Uncle Johnny”, munida com um rifle… Ops, riff bem sacado de David Keuning.

No final das contas, a canção “estilo Oasis”, “I’m Talking To You”, nem saiu do papel – se tens curiosidade mórbida, reze para que esta caia como um futuro b-side do CD. Esperaria a resposta de Liam Gallagher, um claro provocador do hype… E, caso dependesse só de sua capa – com uma miss de corpo bem torneado – Sam’s Town ganharia bem de Hot Fuss. Não é superior, mas, para quem tem o privilégio de aceitar o crescimento em música, vai tolerar ao menos metade do trabalho. Mais importante do que precisar chutar emo até a morte do mesmo.

Nota: 7,5