
Destroyed Room: B-Sides and Rarities
[Geffen, 2006]
Há mais de 20 anos arranhando instrumentos e – por isso mesmo – conquistando o coração do mundo undergound, dessa vez o Sonic Youth levou suas famosas guitarras distorcidas às últimas conseqüências. “The Destroyed Room: B-Sides And Rarities”, lançado agora no Brasil, é uma série de – como diz o próprio nome do álbum – de raridades e lados-B da banda. O disco tem, obviamente, a essência do som do Sonic Youth: post-punk e o noise-rock de primeira. Mas, dessa vez, a dose de enigma, mistério, tensão e hipnose ultrapassa os limites do compreensível e do que é convencional, mesmo dentro da obra da banda – e olha que os conceitos de “compreensão” e “convenção”, no vocabulário youthiano, já são bem distorcidos e distantes do que consta no dicionário.
Fãs de hits como “Sugar Kane”, “100%”, “Drunken Butterfly”, “Incinerate” e o clássico “Teenage Riot”, canções mais pop da banda, fiquem longe dessa compilação. Mesmo quem adorou o último álbum inédito, Rather Ripped” (2006), deve ter coragem para se aventurar nessa viagem sônica ultra-experimental. “Destroyed Room” é climático e estranho, mas não deixa de ser criativo e, em certos momentos, excitante. “Razor Blade” transborda charme com os sussurros de Kim Gordon e a sensacional (e já conhecida) “The Diamond Sea” aparece numa versão de quase 26 minutos. “Kim’s Chords”, instrumental, é linda e “Blink” surge com um clima soturno. “Destroyed Room” é um amontoado de material pulsante e (relativamente) novo para deliciar os fãs assíduos de uma das bandas mais do indie rock. [Mariana Mandelli]
NOTA: 7,0

Album do Wilco prova que há muito mais beleza na tristeza e na simplicidade do que se imagina
Por Mariana Mandelli
WILCO
Sky Blue Sky
[Nonesuch Records, 2007]
Na letra de “Samba da Benção”, Vinícus de Moreaes e Baden Powell, glorificam os dias felizes como sendo a grande chave para uma vida harmônica e quase perfeita. Não parece ser o que pensa Jeff Tweedy, o homem à frente do Wilco, atualmente uma das bandas mais queridas do rock.
Sky Blue Sky, o tão esperado novo álbum, chega às lojas apenas no dia 15 de maio, mas já está, há algumas semanas, espalhando melancolia de melhor qualidade por aí e provocando discussões fervorosas dos fãs mais xiitas do Wilco. O sexto disco de estúdio e o primeiro inédito depois de um hiato de três anos aponta novos horizontes para banda. A sonoridade mudou? Sim. Decaiu? De maneira alguma. A resposta para isso pode ser resumida em duas palavras: maturidade e, sobretudo, originalidade. Pode-se arriscar (guardadas as devidas proporções) dizendo que Sky Blue Sky demonstra uma evolução sonorica no Wilco assim como o “4” na obra dos (saudosos?) Los Hermanos. Ambos migraram para uma musicalidade baseada numa tristeza sem fim – e é justamente nesse antro de lágrimas que reside a originalidade e a beleza dos dois álbuns.
Assim como os outros trabalhos do Wilco o novo Cd se baseia na miscelânea de gêneros que compõem a musicalidade da banda. Influências do indie rock, blues, country, pop, punk e de tudo mais que você imaginar. Mas dessa vez são generosas as doses de Neil Young, soft-rock setentista, folk, blues e soul, com um trabalho incrivelmente sofisticado de guitarras e teclados. Tudo criando texturas lindamente peculiares.
A nova formação do Wilco é tida como a melhor da história da banda. A criatividade dos membros, o guitarrista Nels Cline e o multi-instrumentista Pat Sansone, que fazem suas estréias em estúdio com Sky Blue Sky, é essencial nessa mudança de som presente no novo disco.
É claro que esse novo álbum muito mais fácil do que seus dois antecessores – o clássico Yankee Hotel Foxtrot (2002) e a lambança sônica e louca de A Ghost Is Born (2004). É uma volta às raízes – do country inclusive – com muito menos barulho e invenções musicais. Ele foge dos obscuros, mas incríveis e latejantes, experimentalismos psicodélicos costumeiros do Wilco. Por essa razão, provavelmente vai ser acusado de ser um disco cansativo, preguiçoso e que transborda tédio para todos os lados. Simplista, parado e monótono. Com certeza os fãs acostumados ao jeito experimental de se reiventar da banda vão se decepcionar. Mas menos é sempre mais. Evoluir dessa maneira, para uma banda que está sempre na mira dos fãs e da crítica, é um ato extremo de coragem do Wilco. Não ter medo de desapontar os fanáticos e de ser massacrado pela expectativa alheia demonstra personalidade e uma banda segura de si mesma.
São poucos, mas poucos mesmos, aqueles que têm o dom de cantar a melancolia cinzenta de um cotidiano mecânico sem banalizar a aflição humana. São raros os que exprimem, com tanta beleza e talento a angústia crônica de ser e estar num mundo impessoal e individualista. Sky Blue Sky coloca Jeff Tweedy no hall dos melhores poetas da história da música – quem é mais sentimental que ele? Além disso, o disco firma o Wilco como uma das melhores – e mais criativas – bandas em atividade, mesmo sendo sua obra mais triste. Afinal, o próprio Vinicius de Moraes também dizia, naquele mesmo “Samba da Benção”, que para se “fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”. Agora Tweedy concorda com ele.
Receita da majestade dos tristes
Sky Blue Sky é daqueles álbuns que fazem você se apaixonar por uma banda. É um disco para ser sentido, muito mais do que simplesmente ouvir. Seu foco está centrado nas composições e na poesia de Tweedy. A química existente entre as canções, que dá coesão à obra, é luminosa, fruto de um trabalho musicalmente limpo e puro.
A primeira canção é a lírica “Either Way”, uma balada linda e de sonoridade simples. “You Are My Face”, a segunda faixa, tem letra saudosista e um solo de guitarra delicioso. “Impossible Germany” talvez seja a melhor canção do disco. É imponente e instrumentalmente majestosa (atenção ao peso das guitarras), e vai evoluindo de maneira complexa a cada verso lamentado por Tweedy. É marcante para ser tocada nos shows. Sky Blue Sky, que dá nome ao álbum, “Please Be Patient With Me” e “Leave Me Like You Found Me” são doces e delicadas, e demonstram toda a capacidade folk do Wilco. São canções construídas de maneira intimista e introspectiva, e refletem a verdadeira alma do disco. “Side With The Seeds” lembra os melhores momentos de Yankee Hotel Foxtrot, enquanto “Shake It Off” tem um refrão pesado e bem mais rock. Já “Hate it Here” tem, nitida e deliciosamente, os dois pés no soul.
“Walken” é criativa nos pianos/teclados (Paul McCartney?) e tem o ar fresco do country da banda num trabalho genial de guitarras. “What Light” e “On And On And On” são duas das mais fortes de Sky Blue Sky, e encerram o álbum de maneira triunfante, demonstrando todo o potencial das melodias elaboradas do – até agora – melhor disco do ano. Sublime.
NOTA: 9,5

Arctic Monkeys supera a maldição do hype e a famosa praga do segundo CD em “Favourite Worst Nightmare”
Por Mariana Mandelli
ARCTIC MONKEYS
Favourite Worst Nightmare
[Domino, 2007]
Abram caminho, pois o Arctic Monkeys quer passar e tem muita pressa para conquistar o mundo. O ritmo acelerado e quase agressivo do indie rock criado pelo grupo de Sheffield, Inglaterra, está de volta no álbum Favourite Worst Nightmare. O quarteto britânico, formado em 2003, apesar da pouca idade já tem muita história para contar. A banda sacudiu o mundo da música com o estrondoso sucesso de suas canções e se tornou um fenômeno de troca e compartilhamento de arquivos no mundo virtual, além de ganhar notoriedade em sites como MySpace.
Whatever People Say I Am, That´s What I´m Not, primeiro lançamento do grupo depois de vários EPs e singles, veio no início de 2006 com influências de The Jam, The Clash e de toda a cena atual do indie rock – Strokes, Franz Ferdinand, Futureheads e os finados Libertines. O hype em cima do álbum foi absurdo, o que transformou a banda num dos maiores fenômenos do pop desde os Strokes em 2001. Com recordes de discos vendidos na estréia, a banda já em sua estréia carregava todas as pressões possíveis para um segundo disco, com o mesmo sucesso e a mesma audácia adolescente.
O que acontece no segundo trabalho do Arctic Monkeys supera as expectativas de todo o hype que existe em torno da banda. Favourite Worst Nightmare é criativo e frenético, como o primeiro. Musicalmente, a evolução da banda é nítida: as faixas são menos repetitivas do que as do primeiro CD – soam menos homogêneas e menos redundantes – e as letras estão cada vez melhores. A banda também não carrega a dose de inocência de garotos que ganharam guitarras de presente no natal. O álbum vem com uma certa pretensão comercial e até arrogância – haja vista o próprio título, que exprime a idéia de que a banda é um pesadelo terrível para uns, mas não deixa de ser a favorita do universo alternativo, e, assim, despertando o ódio, a inveja, o fanatismo e paixão alheia.
A banda tem seus méritos. As sacadas de guitarra, os riffs pegajosos e a bateria acentuada dão um ar de identidade para a música do Arctic Monkeys. Favourite Worst Nightmare não é uma obra-prima, não salva o rock e não é revolucionário. Pode não ser aquele álbum arrebatador e essencial que vai mudar sua vida, mas é delicioso de ouvir. É música para curtir e divertir. E também para ser levada a sério – afinal, o grupo quer mostrar a que veio.
Agora, com dois discos comercialmente sólidos, reconhecidos pelo público e por grande parte da crítica especializada, resta ao Arctic Monkeys escolher quais caminhos tomar de agora para frente. Se o sucesso vai ser efêmero, só depende dos rumos que esse conto de fadas do indie rock vai tomar. É esperar para ver. Well see you later, innovator!
Adolescentes agradecidos, confortáveis e fluorescentes
“Brianstorm” é uma aceleradíssima música que começa o CD parecendo que vai explodir a caixa de som a qualquer momento. Em meio ao ritmo frenético, Alex Turner já anuncia a que veio: “We’re grateful and so strangely comforted” (algo como “nós estamos agradecidos e tão estranhamente confortáveis”), parecendo agradecer a todos o reconhecimento e barulho que se faz em torno da sua banda. “Teddy Picker” é genial, uma das melhores do disco. Seu refrão grudento e seu riff simples e eficiente ficam na cabeça por dias. Já “D Is For Dangerous” é cantada em parceria: Turner e o baterista Matt Helders dividem os vocais. Na letra, um verso traz o título do álbum: “I think you should know you’re his favourite worst nightmare” (“eu acho que você deveria saber que você é o seu pesadelo favorito dele”). “Balaclava” tem um riff grudento que se aproveita das “paradinhas estratégicas”, uma das marcas do som do Arctic Monkeys. “Fluorescent Adolescent” é uma das músicas do ano por seu pop saudosista delicioso – a letra deixa transparecer que a maturidade dos integrantes vem chegando e a adolescência vai ficando para trás: “Remember when the boys were all electric?” (“Você se lembra de quando os garotos eram todos elétricos?”). “Only Ones Who Know” é uma baladinha romântica, que tenta mostrar que o Arctic Monkeys não serve só para fazer barulho. “Do Me A Favour” tem guitarras tristes que são mais do que a prova de que a banda tem forte influência do estilo do Strokes. Ela fica melhor ainda no final, com uma bateria destruidora que deixa qualquer um surdo. “This House Is a Circus”, “If You Were There, Beware” e “Old Yellow Bricks” são ótimas canções, marcantes e viciantes. Já “The Bad Thing” é excelente: a bateria frenética e os versos rápidos e ágeis de Turner dão um jeitão Libertines para a faixa. E, para encerrar, “505″ é romantiquinha e tem um ritmo ameno (pelo menos nos dois primeiros minutos e meio) para contar uma melancólica história de despedida de um casal, fechando de maneira triunfante um álbum alucinado, divertido e que faz o Arctic Monkeys ser aprovado no teste do segundo disco. Definitivamente.
NOTA: 8,5
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Questões para entender o Arctic Monkeys
Whatever People Say I Am, That´s What I´m Not (Crítica)
O disco não é novo, já que lançado em outubro de 2006, mas o sucesso só chegou agora, com o clipe do single “Cheer It On”, música que abre o álbum. Na verdade é mais um EP que contém apenas sete músicas. Além disso, a banda ganhou mais visibilidade com o lançamento (apenas digital), em março deste ano, de Smith, um EP de três músicas, e com a participação no primeiro dia do disputado Coachella, festival de música realizado na Califórnia (EUA).
O som dos canadenses do Tokyo Police Club é um indie rock com um pé no punk. Foram chamados pela revista Rolling Stone como os melhores do “neo-punk post-anti-rock” desde que o Pavement lançou seu Wowee Zowee (1995). As faixas de “A Lesson In Crime” constroem um jeito feliz-triste – do tipo que a gente encontra em músicas como “Someday”, dos Strokes. Aliás, a música do Tokyo Police Club guarda, ainda que vagamente, semelhanças com o barulhinho bom de “Is This It”(2001), o incrível álbum do quinteto nova-iorquino. E o vocal de Dave Monks tem um quê de Casablancas também – nada de plágio, os garotos canadenses são originais.
A “Lesson In Crime” tem apenas 17 minutos, mas que são preciosos e, principalmente, deliciosos. Dê atenção especial a “Citizens Of Tomorrow”, “If It Works” e “La Ferrassie”. Guitarrinhas, palmas, gritinhos e letras ágeis, do jeito que a gente gosta. [Mariana Mandelli]
Nota: 7,0
O emo-indie do Modest Mouse
Novo álbum dos “tiozões” do underground leva a banda para os tortuosos caminhos do pop
por Mariana Mandelli
We Were Dead Before The Ship Even Sank, nome do novo disco do Modest Mouse, apesar do título mórbido (seria algo como “estamos mortos antes mesmo do barco afundar”), não soa tão melancólico como seu antecessor Good News for People Who Love Bad News (2004). A levada menos alternativa das 14 canções parece convidar a banda para um passeio ao mundo do pop, mergulhando de cabeça no perigoso e ambíguo universo mainstream. Com We Were Dead…, o Modest Mouse migra de vez para o conhecimento público e deixa de ser favorito apenas dos amantes incondicionais do indie rock.
O processo de “popularização” da banda já se cristalizava desde o lançamento de Good News for People Who Love Bad News, um dos álbuns mais festejados de 2004, que catapultou o Modest Mouse para as rádios e para os sites de música alternativa do mundo todo. Embora fossem “tiozões” (a banda surgiu em 1993) perto dos novos conjuntos de rock independente de garotos mal saídos da adolescência (o Arctic Monkeys é o maior exemplo dessa cena), Isaac Brock (vocal e guittarra), Eric Judy (baixo) e Jeremiah Green (bateria) conquistaram os garotos e garotas de calça apertada e All Star nos pés, transformarando-se em sensação do mundinho independente.
Uma prova de que o Modest Mouse alcançou o topo da escada para a fama foi o primeiro lugar alcançado pelo novo disco quando foi lançado, no fim de março. Outro indicativo de que os tempos de rock independente ficaram para trás é a presença de canções da banda na trilha sonora da segunda temporada do seriado “The L Word”, focado em personagens lésbicas e – por isso mesmo – popular nos índices de audiência de diversos países.
O Modest Mouse foi formado há quase 15 anos no estado de Washington, nos Estados Unidos. Com seis discos de canções inéditas no currículo, a banda é reconhecida por misturar indie rock com emo (não o “emocore” de Good Charlotte, My Chemical Romance e olhos pintados; pense em Fugazi, por favor), fazendo um som barulhento que contradiz as composições melancólicas e solitárias de Isaac Brock. As letras denunciam a preocupação de Brock com as emoções reprimidas, os medos cotidianos e a obsessão pela morte. A sonoridade da banda é baseada em influências diversas, como Built to Spill, 31Knots, Mercury Rev e Pixies.
A cada álbum, o Modest Mouse foi se transformando musicalmente, abandonando o som mais sujo e pesado do início da carreira, que marca discos como Lonesome Crowded West (1997), por exemplo.
Veterana de uma época em que o mundo via nascer o grunge e acusada de ser embalada por uma onda pop, o Modest Mouse soa sim como um modelo convencional de rock alternativo. Afinal, tem coisa mais indie do que propor que os fãs ajudem a fazer seus próprios clipes (caso do novo hit “We’ve Got Everything”), como é oferecido no site oficial da banda?
MODEST MOUSE
We Were Dead Before The Ship Even Sank
[Epic/ Sony, 2007]
Cada faixa de We Were Dead… tem estilo próprio, mas sem perder a identidade da banda. O álbum não tem experimentações nem inovações musicais: é um álbum intenso e energético, mas básico. Nem a ajuda de Johnny Marr, o lendário e criativo guitarrista dos Smiths, na produção, transformou o disco em um álbum incrível.
As letras sombrias que marcam o estilo do Modest Mouse, fazendo reflexões sobre o comportamento humano, estão presentes. As canções são, apesar da tristeza temática, divertidas. “Dashboard” começa como uma música dos escoceses do Franz Ferdinand. “Florida” é contagiante de tal maneira que dá vontade de fazer coro junto a James Mercer, do The Shins, que faz o backing vocal – ele aparece também em “Missed the Boat” e “We’ve Got Everything (essa, com o ritmo marcado e o jeitão dançante do Arctic Monkeys, já dá sinais da candidatura a hit). “Education” tem uma levada country por cima dos versos consternados de Isaac Brock. “Little Motel” é uma baladinha introspectiva que fala sobre a espera eterna pela satisfação e segurança própria. Apesar de ser das canções mais amenas do álbum, não dispensa as guitarras marcantes. Já o vocal profético de “Spitting Venom” remete, inicialmente, a Johnny Cash, para depois desembocar no indie rock na sua melhor e mais pura forma.
“People As Places As People”, nome genial para uma letra nostálgica, traz uma batida que revela uma tristeza solitária. E “Invisible” fecha com um som elétrico e pulsante por meio do vocal desesperado de Isaac Brock. Entretanto, nem tudo é só flores: há os momentos de chatice do álbum, em que as músicas parecem não acrescentar absolutamente nada. “Fire It Up” e “Parting of the Sensory”, por exemplo, são canções cansadas que beiram à mesmice e ao tédio.
Nota: 8,0
THE FIELD
From Here We Go To Sublime
[Kompakt, 2007]
From Here We Go To Sublime é o primeiro álbum do The Field, projeto de música eletrônica de Axel Willner, focado no minimal techno. O produtor inova também o ambient techno, promovendo, por meio de batidas simples, um álbum conceitual em que o conjunto de faixas constrói um universo cósmico e tecnológico, sem precisar apelar para recursos complexos ou para qualquer tipo de instrumento – ouça “A Paw In My Face” e “Good Things End” e comprove. Cada uma delas tem um ambiente próprio, recriando sentimentos mesmo sem uma palavra cantada ou um arranjo no meio.
Os críticos do mundo todo estão reverenciando o álbum de Willner por conseguir fazer uma revolução pela simplicidade (afinal, menos é mais). Como um todo, o disco triunfa por ser um retrato audiovisual perfeito dessa era pós-moderna em que “barulhos” – mas só os barulhos bons, claro – compõem uma (boa) música com jeito de ringtone. From Here We Go To Sublime é daqueles álbuns que te faz viajar pelas batidas em uma espécie de groove eletrônico, sintetizado a partir de ritmos tensos puramente eletrônicos, sem necessidade de uma guitarra ou um baixo, incitando uma infindável discussão: afinal, o que é música? [Mariana Mandelli]
Nota: 9,0
LOW
Drums and Guns
[Sub Pop, 2007]
O Low retorna com seu indie rock depois de dois anos do lançamento de The Great Destroyer. Drums and Guns foi inspirado na guerra do Iraque e, por essa razão, é melancolicamente etéreo e dramático. O clima do álbum é cinzento e noturno, em contraponto com a leveza alegre e fresca do álbum anterior. Algumas faixas demonstram simbolicamente a atmosfera sombria do álbum: “Dragonfly” é intensamente frágil e poética, enquanto “Sandinista” soa como uma marcha fúnebre.
As distorções nas guitarras e os vocais taciturnos do casal Alan Sparhawk e Mimi Parker dão um tom tristemente épico para as canções do novo trabalho. Eles cantam como se lamentassem a existência de tragédias sociais, políticas e mesmo pessoais. Aliás, a dicotomia vocal ainda é o maior trunfo do Low: as vozes masculina e feminina, ao se misturarem aos instrumentos, criam um mundo intimista e onírico, característico do som sadcore da banda. Drums and Guns reúne lirismo e desgraça no mesmo ritmo, e consegue soar industrial e artesanal ao mesmo tempo – tão paradoxal quando as catástrofes dessa humanidade espiritualmente frágil de que fazemos parte. [Mariana Mandelli]
Nota: 9,0

Não antes de uma dose: Amy diz que não é lésbica. Pelo menos não antes da primeira lapada.
GARRAFAS E CORAÇÕES PARTIDOS
Amy Winehouse usa voz de mulherão e bagagem amorosa para lançar um dos melhores discos de 2007
por Rafaella Soares
AMY WINEHOUSE
Back To Black
[Virgin, 2007]
[Recomendado]
A música pop ainda tem espaço para uma dama chorando suas desventuras amorosas? Bem, espaço pode ser forjado, seja no surgimento de mídias muito bem sacadas para divulgação (caso do MySpace, sempre ele!) ou na aposta acertadíssima de uma major,vez ou outra. O nome é Amy Winehouse. E o “dama” é em gratidão pelo som poderoso que ela trás com sua voz puro Motown, já que de certinha ela não tem nada. Foi a Virgin que assinou com a mais negra, no sentido original do termo, das branquelas cantoras de soul. Com apenas 23 e no seu segundo trabalho, Back to Black, Amy poderia apenas emular as divas do passado ou seguir o filão de Joss Stone e companhia, sendo bem sucedida. Porém, a autenticidade das suas letras imprime mais valor às músicas. Os temas vão desde alcoolismo aos percalços amorosos dessa inglesa, que se mete em confusão pra em seguida se redimir bravamente com alguns dos versos mais inspirados dos últimos tempos, como no hit “Rehab”, em que ela ironiza sua inaptidão para dar os 12 passos. A cantora já tinha lançado Frank em 2003, um disco bem mais pop com características fortes de jazz, que apesar de ser indicado ao Brit Awards como melhor álbum solo feminino estranhamente não estourou.
Amy tem influências musicais na família, e sua primeira experiência foi montar uma banda de rap aos 10 anos, chamado Sweet’n'Sour (da qual foi expulsa por não se dedicar e ter colocado um piercing no nariz). A rebelde garota judia ganhou sua primeira guitarra aos treze anos e aos dezesseis teve sua demo descoberta pelo cantor Tyler James, assinando em seguida com a Universal. Em “My Tears Dry on Their Own” e “Wake Up Alone” ela enumera as tristezas de quem vive um frustrado relacionamento aberto. Nessa última: “Tà tudo certo/ Me ocupo durante o dia/ Compromissada com o amor/ Não preciso/ Me preocupar onde ele está/ Cansei de chorar/ Ultimamente quando me pego assim/ Eu viro o jogo/ Fico de pé/ Limpo a casa/ Pelo menos não estou bebendo“. São estrofes que dão o tom das composições que poderiam muito bem ter saído de um álbum de Aretha Franklin nos anos 1960. Em “He Can Only Hold Her”, a mulher sexualmente livre confessa que “O homem com quem ela quer estar / Agora, como ele pode ter seu coração / Quando ele lhe foi roubado”.
Vítima constante dos tablóides ingleses ávidos por personalidades que vivem no limite, Amy viu sua vida ser devastada a partir do aparecimento de uma anorexia, que a fez perder peso consideravelmente. Aos que especulavam ser isso uma reação à cobrança pela imagem, ela respondeu que não obedece à esses apelos externos, e sim à sua criança interior.
Seu barraco com Bono Vox nos bastidores de um programa de auditório já é tão lendário quanto suas fotos e aparições públicas, trôpega ou vomitando no palco. Isso te lembra alguém? Em entrevista recente a revista Elle, um jornalista percebeu em seus braços arranhões e cortes, o que alimentou rumores sobre uma queda que ela teria levado no meio da rua, em Nova York.
Nos seus planos está a trilha sonora do próximo filme 007, além de um dueto com Sir Mick Jagger no Festival da Ilha Wight. Mesmo recebendo mais atenção pelos excessos etílicos do que por seus dotes musicais, Amy não passará rápido com uma manchete de tablóide, é o que fica depois de escutá-la demoradamente.
NOTA: 10
A BENÇÃO ALTERNATIVA
Nova bíblia musical do Arcade Fire leva a banda para caminhos sombrios e obscuros
por Mariana Mandelli
Quando a expectativa é demais o fã desconfia. O que justifica o assustador hype em cima do novo trabalho dos canadenses do Arcade Fire é justamente a solidez encantadora do primeiro álbum, Funeral (2004). É sempre difícil superar um grande feito, ainda mais nesse concorrido mercado musical pós-moderno em que vivemos, com dezenas de bandas boas pipocando a cada semana.
O sucesso de Funeral levou a banda, liderada por Win Butler, aos primeiros lugares das listas de melhores álbuns de 2004. O disco, peculiarmente impecável, tornou-se uma obra-prima indie consagrada no mundo inteiro, tornando o Arcade Fire um dos grupos mais queridinhos e amados do universo do rock alternativo – quem compareceu a uma das apresentações brasileiras da banda, no TIM Festival de 2005, sabe do frisson que a força musical e a presença de palco dos integrantes causam no público.
Todo esse clima de adoração messiânica em torno do Arcade Fire acabou gerando as mais diversas expectativas para o segundo trabalho – ainda mais depois que foi anunciado que a banda havia transformado uma igreja em seu estúdio de gravação, em Montreal, na busca por uma melhor acústica.
Eis que, após um período de quase três anos e tanto falatório especulativo, Neon Bible chega para acalmar os ânimos dos fãs devotos, que ansiavam sedentos pelo álbum. E é justamente neste ponto que a coisa se enrola: Neon Bible não vem para tranqüilizar ninguém. Muito – mas muito mesmo – pelo contrário: o clima espiritualmente denso do disco cria um espectro de essência lúgubre e melancólica no ouvinte. E isso não é uma crítica negativa. O novo álbum não é mais nem menos do mesmo – quem estava esperando algo muito parecido com a atmosfera de “Funeral” pode se assustar à primeira “ouvida”. A diferença é que Neon Bible é mais complexo e mais difícil de digerir de uma vez do que seu antecessor (afinal, convenhamos, foi bem difícil não se apaixonar logo de cara por Funeral).
Para os ouvintes desavisados, as canções da nova obra do Arcade Fire não parecem conter a mesma coesão que Funeral, álbum quase conceitual que soa como uma única música. Mas basta ouvir Neon Bible duas ou três vezes para absorver suas canções, deixando-se levar pela musicalidade carregada e desconsoladora que a banda propõe. Faixa após faixa, o que se percebe é uma evolução de sonoridade complexa que alterna tons de pessimismo e otimismo, consternação e empolgação. É interessante perceber esse grande paradoxo que acompanha a obra da banda: canções extremamente vivas que falam de morte, dor, perda, tristeza. Trabalhar essa antítese espiritual talvez seja o segredo do trabalho do Arcade Fire, que já conquistou David Bowie, David Byrne, Bono Vox e todos nós, pobres mortais, devotos da incrível fantasia musical.
ARCADE FIRE
Neon Bible
[Merge Records, 2007]
Neon Bible afirma a identidade sonora do Arcade Fire: além do universo explorado nas letras ser quase comum a Funeral, a instrumentalidade complexa e original que conquistou o mundo está presente nas onze canções do álbum. Coro de vozes tristes, órgão, violino, acordeon, guitarra, baixo, bateria, percussão, xilofone, piano, teclado, viola, violoncelo, harpa, sanfona, sintetizadores e mais outros elementos musicais, que tornam a obra dos canadenses tão especial, reforçam o jeito de culto ecumênico do disco.
As canções de “Neon Bible” destilam o infortúnio da existência humana, demonstrando as desventuras da alma condenada a viver presa dentro de si mesma. Essas reflexões parecem explicar também os caminhos que a humanidade percorre; trajetórias que levam a um destino soturno e fantasmagórico. Algumas faixas demonstram bem isso: “Black Mirror” abre o álbum soando taciturna, com um ar de trilha de filme de terror ou de alguma animação macabra de Tim Burton.
Já “Keep the Car Running” é, precisamente, a que mais evoca a estética musical deliciosa e empolgante de Funeral. “Intervention”, com seu clima cristão, traz um órgão marcante. Já “No Cars Go”, “macaca velha” para quem é fã da banda, volta repaginada e ainda mais emocionante.
Enfim, “Neon Bible” funciona como uma espécie de missa póstuma para este mundo genocida em que vivemos. É um álbum imerso numa atmosfera taciturna e apocalíptica, carregando um sentimento perene de luto – assim como caminha a humanidade. Amém.
Nota: 9,0
KINGS OF LEON
Because of the Times
[RCA,2007]
A família caipira mais querida do universo indie está de volta: “Because of The Times”, terceiro disco do Kings Of Leon, traz uma banda mais madura e segura de si, distanciando-se do pop presente em canções como “California Waiting”, do álbum “Youth & Young Manhood” (2003), e “King of the Rodeo”, do “Aha Shake Heartbreak” (2005), hits dos trabalhos anteriores da banda. Mesmo ainda preso às raízes – country rock alternativo –, o grupo demonstra mais confiança ao mixar seu garage rock com letras mais melancólicas, o que confere ao novo álbum uma musicalidade mais pesada – e até mesmo um aspecto grunge.
Caleb Followill continua se lamentando e intercalando gritinhos nos versos cantados com sua voz naturalmente chorosa, o que deixa mais interessante o conjunto de texturas musicais do novo disco. O tom vibrante e excitado de “Because of The Times” fica evidente em faixas como primeira e longa (mais de sete minutos) “Knocked Up”, a agitada e escandalosa “Charmer” e a intensa e introspectiva “McFearless”. O aspecto caipira, característico do Kings Of Leon, marca presença em faixas como “Black Thumbnail”. [Mariana Mandeli]
NOTA: 8,0