
A NARRATIVA DE UM BÍCEPS
Mantendo o estilo Graphic Novel, “300″ não empolga e enche de angústia o espectador
por Fernando de Albuquerqe
Muitas cabeças rolam em 300, filme de Zack Snyder que chegou no último mês ao Brasil. Há sangue e flechas para todo lado, muita guerra e um rei completamente afeminado e místico. A transposição do quadrinho do festejado Frank Miller para o cinema, e que tem o brasileiríssimo Rodrigo Santoro no papel do vilão, o rei-deus Xerxes, estreou depois de ter atingido o topo da bilheteria americana. As filmagens foram realizadas em estúdio, em fundo azul, sobre o qual foram posteriormente colocados os cenários.
300, lançado em mais de 550 salas, em 160 cidades, nos conta a batalha de Termópilas, em que 300 soldados da elite de Esparta enfrentam o exército persa, muito mais numeroso. Reproduzindo truques de Gladiador, com direito a música melosa e triunfante, as duas horas de projeção não satisfaz o desejo do espectador que tem um discurso mais elaborado. Só o leigo pode sentir-se um pouco mais “informado” quando sai da sessão. Com exceção das seqüências de batalha, com ênfase no aspecto gráfico, coreografia estilizada e um uso admirável dos contrastes entre os vermelhos das vestes espartanas e o cinza dos uniformes persas, “300″ se arrasta, perdido em lições ideológicas de intenções completamente duvidosas.
O filme à todo tempo procura mostrar o triunfo da força contra a tirania e o misticismo persa. Mais parece um discurso inflamado de Auguste Comte, o mestre positivista dos últimos tempos. Os diálogos, se dissecados, estão mais para um manual fascista de métodos do que para uma narrativa fílmica, pois tenta, à todo tempo, reproduzir a filosofia colonialista do “choque de civilizações” entre o ocidente da razão e o oriente da bárbarie.
Entre uma cabeça decepada e mais alguns litros de jorro de sangue digital há discursos sobre o significado da liberdade, o real valor da morte e outras filosofices muito mais enganadoras do que funcionais. O único talento que é exibido no filme à torto e a direito são os músculos e barrigas tanquinho que dão um alívio geral no público feminino e no masculino também. Com toda certeza as academias e lojas de alimentos fitness, depois de 300, irão faturar mais um pouco.
A idéia que norteou o filme era a de repetir a bem sucedida adaptação de outra obra de Miller, Sin City, que Robert Rodriguez levou às telas nos idos 2005. Aquele filme misturou uma impressionante mistura gráfica dos quadrinhos com planos bem cinematográficos e elaborados. Mas Snyder fracassou na empreitada. A diferença mais marcante entre o filme e a HQ é a criação de uma subtrama protagonizada pela mulher do rei Leônidas (nos quadrinhos, a personagem está relegada a duas páginas e olhe lá). Outra mudança e bem notória é que a HQ não detalha cada músculo dos espartanos. O próprio rei Leônidas praticamente só aparece coberto por seu manto vermelho, já que o senhor de 50 anos dos quadrinhos não deve ter exatamente o corpo definido que o ator Gerard Butler, com 37, exibe ao encarnar o papel.
NOTA: 4,0
VOLVENDO CON ALMODÓVAR>
Volver é o novo Almodóvar, que com voltas e voltas, arruma sua galeria de signos.
por Rafaella Ordella
VOLVER Pedro Almodóvar
[Espanha, 2006]
“Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Esse petardo de Tolstói abre o livro Anna Karenina como uma sentença triste, porém absolutamente verdadeira que nos atinge de maneira irreversível. Ninguém escapa dessa premissa,seja uma família da aristocracia russa do século 19 ou uma família espanhola das últimas décadas.
Volver, a mais recente película de Pedro Almodóvar, é uma fábula moderna e lírica, bonita como poucas incursões nesse tema. Almodóvar pode estar mais sóbrio nas cores, mas sua exuberância está estampada ora nas atuações precisas (precisa talvez seja um termo racional demais…) ora pairando como na metáfora do vento que enlouquece, leva e traz as pessoas de volta ao vilarejo de origem. Sua mão está no roteiro, que serpenteia como muitas vidas fantásticas de pessoas reais (será que os outros continentes dividem conosco a intensidade dos sentimentos?). Está nas atuações à flor da pele, pungentes, cheirando à pimenta vermelha que Penélope Cruz usa pra alimentar um batalhão de gente.

Boca de se fuder: Almodóvar ainda é o melhor no retrato da inquietude feminina.
Sua marca registrada, criar a comoção da identificação, permeia uma narrativa brilhante, nada óbvia como sugerem aqueles que confundem estilo com repetição,pelo contrário. É um talento se reiventar em histórias similares e distintas ao mesmo tempo…Volver é único, ainda que remeta a obras anteriores. Poucos falaram de família desse jeito antes, tocando em temas recorrentes mas sugerindo uma abordagem tão afetuosa. As mulheres já receberam o carinho do diretor em forma de filme ao longo de sua obra, e o maior mérito desse trabalho é reafirmar a força do sexo feminino, nas relações entre si e nas sagas familiares.
Aqui, um ar de Garcia Márquez contemporâneo, a dar outra perspetiva do quão mágicas podem ser as trajetórias das pessoas. Nada há de terra-à-terra no universo de quem guarda segredos por décadas, quem vive à sombra do amor de quem ama, quem abre mão da própria vida para cuidar dos seus.
Carmen Maura reconciliou-se com seu habitat natural, na persona de uma matriarca nada previsível, ainda que doce e forte em momentos alternados. Superou em muito a avó firme e divertida de “Valentim”. Volver marca voltas ainda mais simbólicas, o resgate do passado daquele menino excêntrico que saiu da cidade de Mancha pro mundo e no entanto hoje retrata suas impressões de povoados folclóricos, místicos e pessoas extraordinárias que estão sob a pele de mães, filhas, avós, vizinhas. Sem que ninguém desconfie.
NOTA:: 10
MORTE AOS SANS CULOTTE
Maria Antonieta não empolga, mas reinventa imagem decadente da rainha decapitada e lança moda
por Fernando de Albuquerque
Grosso modo, filmes históricos trazem em si uma grande problemática: ou são épicos acadêmicos que precisam de faustosismo para render uma boa bilheteria ou então são representações cheias de efeitos especiais que impressionam pela falta de coerência. E dentro dessas duas opções Maria Antonieta, filme da festejada Sofia Coppola, deixa marcas na historiografia cinematográfica por conseguir representar, com o requinte necessário à personagem, e ao mesmo instante modificar a imagem derrotada da rainha francesa, ainda hoje caracterizada como símbolo de um regime decadente.
Maria Antonieta é um filme de pouca ação e muita contemplação. São seqüências plácidas onde os elementos cênicos e mesmo o vestuário se sobressai à própria composição cinematográfica. A jovem rainha francesa, que abandona a austera corte austríaca, tem nos vestidos, perfumes, sapatos e penteados seu próprio ponto de fuga. Mas divergindo das linhas bem marxistas traçadas pela história, Sofia Coppola trata a personagem como uma pessoa, não uma personagem que pertença à clicheria submissa do mainstream ou ao pseudo-indie-movie.
A Rainha traçada por Coppola é, no início, uma mulher dominada, controlada por outros, parecida com as irmãs de As Virgens Suicidas, filme que alçou a diretora ao estrelato. Na condição de princesa austríaca, Maria é prometida, ainda adolescente, ao delfim da França, Luís Augusto, futuro Luís 16, a fim de aproximar os dois países e formatar uma aliança. A imperatriz Maria Tereza, mãe de Maria Atonieta, tinha uma missão estritamente política para a filha. Ela funcionaria como espiã do governo austríaco dentro da corte de Versalhes. Fechada em si mesma, a personagem não cumpre com a função designada e vê nos gastos com futilidades a perfeita válvula de escape para ser notada, respeitada e fazer história. É nesse momento que ela se converte na mulher no estrangeiro, como Scarlett Johanson em Encontros e Desencontros, às voltas com signos indecifráveis. Nada ali é seu.
Maria Antonieta é um filme que recusa emoções baratas e o didatismo inútil. A rainha é cínica demais para ceder aos costumes da corte e superficial demais para ater-se a um revolucionarismo barato como era o francês. Sofia retoma sua tragetória em relação à alienação feminina sem precisar fazer demagogia com o pescoço da trágica rainha.
E o filme não é apenas um sucesso no que diz respeito ao trato com o enredo. O figurino já causa um impacto considerável sobre a moda dos próximos anos. Para conferir isso basta abrir as edições da Vogue em novembro e dezembro passados. Em uma das cenas mais comentadas, um par de all stars azul é flagrado entre os sapatos da rainha. Engana-se quem pensa que a idéia é somente reproduzir o contemporâneo. Pelo contrário, é traduzir, compreender e aproximar a partir do nosso olhar. Nada mais perfeito do que o tênis-ícone dos indies; nisso o Versalhes do século 18 se converte no aqui e agora.
Site Oficial: http://www.marieantoinette-movie.com/
Nota: 8,0
Arquivado em: Cinema, Crítica-Cinema, Fernando, Jonatan Dayton, Pequena Miss Sunshine, Valerie Faris
DOCE FELICIDADE DOS FEIOS
Filme com números abaixo dos padrões hollywoodianos encanta e faz piada com American Way of Life
Por Fernando de Albuquerque

Os acostumados ao product placement bem hollywoodianos, capitaneados por Sandra Bullocks e Lindsay Lohans da vida, ficam abismados ao saber que “Pequena Miss Sunshine” é uma produção genuinamente americana. Com orçamento bem abaixo dos padrões convencionais e dirigido pelo casal Jonathan Dayton e Valerie Faris o filme (para usar uma conceituação bem moderna) se insere na categoria de indie movie que desde os anos 80 vem se caracterizando como um catálogo de patologias. Evidenciando personagens deslocados, invariavelmente patéticos, traumatizados por seu entorno, com traços gritantes de suas “anormalidades”, Pequena Miss Sunshine é gargalhada garantida e também promete uma boa dose de lágrimas às almas mais sensíveis.
O longa narra a viagem de uma típica família de classe média envolta numa crise financeira sem tamanho, mas que tenta a todo custo manter-se de pé enquanto instituição. Seus membros são malucos inofensivos. Olive (a mini-atriz Abigail Breslin), caçula da família Hoover, é a personagem que desencadeia todos os fatos apresentados. Ela foi classificada e deseja concorrer ao concurso de beleza na Califórnia. A partir daí os personagens tem suas vidas apresentadas: o pai (Greg Kinnear), um fracassado escritor de auto-ajuda; a mãe (Toni Collette), uma dona-de-casa com subemprego; o avô (Alan Arkin), viciado em heroína e criador da apresentação da neta, que o adora; o tio (Steve Carell), que acaba de tentar suicídio porque seu namorado o deixou pelo expert número 1 em Proust no país, já que Carell é o número dois; e o irmão (Paul Dano), fã de Nietzsche, que decidiu parar de falar por um ano em homenagem ao filósofo alemão. Nada perto do american way of life.

Pois é para um concurso de miss mirim na Califórnia que todos vão, numa acolhedora Kombi amarelo gema que não passa marcha e faz os personagens literalmente correr atrás do que desejam. O automóvel se converte no personagem principal do filme que, quase à la Ettore Scola, procura enquadrar mais de um personagem na câmera. Como é tradição nos road movies, o grupo passará por transformações ao longo do percurso, superando barreiras psicológicas, atualizando elos afetivos gastos e aceitando a imperfeição da vida.
“Pequena Miss Sunshine” é completamente correto na sua gramática cinematográfica. A subversão da película se dá na história e não precisa de uma linguagem “inovadora”, ou mesmo tresloucada, para se fazer entender. Ele fere por completo qualquer complexo de superioridade e excelência do espectador mais arrogante.
E está repleto do que poderíamos chamar “pessoas completamente normais”.
Nem de perto o filme é redentor. Do começo ao fim o sentimento de perda (loser) perpassa a narrativa que acaba por cativar ao abordar temas pesados (adolescência problemática, fracasso profissional, homofobia, suicídio, desilusão amorosa e drogas) sem perder o senso de humor. Tudo graças a um elenco talentoso e bem dirigido, além de diálogos precisos.
Mas o filme acaba mal, deixando o espectador aliviado. Mesmo dando tudo errado para a família Hoover eles saem ganhando. A convivência forçada dá unidade à uma relação completamente desgastada e caída na frustração. Mas se Pequena Miss Sunshine não se agarrase a um fio de otimismo no final da história seria um filme especializado em mostrar a perversidade dos adultos em castrar a infância de seus filhos para realizar seus ideais de sucesso, fabricando uma geração de crianças plastificadas e pasteurizadas, tanto na beleza como nas atitudes para enfrentar seus conflitos.
PEQUENA MISS SUNSHINE
Jonatan Dayton e Valerie Faris
[EUA, 2007]
NOTA: 10
O Céu de Suely termina com uma estrada vazia, sem tragédia nem happy end tudo com o direito a nota dez
por Fernando de Albuquerque e Rafaella Soares
Hermila é uma personagem dividida entre laços afetivos. De um lado ela tem Iguatu como raiz, e do outro o desejo de ganhar o mundo. Uma mulher entre suas fontes e um céu sem limites. Essa tensão permanente entre o local e o global está presente no próprio ambiente, em cada plano do filme, bem como em sua trilha sonora. As primeiras imagens e sons sugerem essa dialética: numa textura de filme doméstico, vemos Hermila correndo e dançando feliz num descampado, enquanto se ouve em off seu relato de amor incondicional ao marido Mateus. Como fundo a canção “Everything I Own”, do Bread, em versão brasileiríssima. Uma espécie de clipe bem brega. Iguatu então se converte nisso: numa vontade incontrolável de estar associado a um mundo globalizado, mesmo que pelas portas dos fundos. E Karim vincula o filme a uma galáxia de Gutemberg remodelada e que relembra a máxima de McLuhan: “para ser global, fale apenas da sua aldeia”.
Voltando ao institucional: a jovem Hermila, acompanhada do seu filho pequeno, retorna ao grau zero de sua saudade: espera a volta do marido. E isso nos é contado de um lugar sertanejo mostrado em nuances ricas e planos bem modelados. Os detalhes enriquecem o todo, como, por exemplo, o uso do céu, a decoração típica de um motel barato, ou mesmo a imagem de uma geladeira aberta. As perspectivas financeiras lançadas pela protagonista que existem na pirataria de música e filmes logo dão lugar a uma idéia bancada pela própria Hermila: rifar o próprio corpo, juntando o dinheiro necessário para uma fuga que lembra a de uma prisão. Ela faz por onde.
Em Madame Satã, também de Aïnouz, a pressão social e mesmo racial estava estampada no corpo e na alma do protagonista. Com Suely essa tensão é o tema do deslocamento, do sonho de um lugar feliz, que se encarna no destino de Hermila. Da Lapa carioca dos anos 40 ao sertão cearense do século 21, do negro homossexual à sonhadora interiorana, os temas foram modificados, mas o cinema de Aïnouz continua sendo um jeito delicado, porém vigoroso, de dar a ver a interação entre o indivíduo e sua circunstância.
Curiosidade – O filme está bem longe do padrão Globo Filmes de cinema que, com raras exceções, vem embalando obras que parecem mais funcionais na tevê. O Céu de Suely surge como uma raridade no cenário, o que talvez explique a demora no seu lançamento nas salas pernambucanas. Ele chegou às telas cariocas e paulistas ainda em novembro, e só agora a província recifense decidiu abrigar a obra.
INQUIETO e INDIGESTO
Seu abandono é tão sofrido que ela enxerga numa rifa de si mesma a solução para sair daquele lugar. Mesmo com o amor de João, ela parte nessa jornada de se tornar a primeira mulher da cidade que vende “uma noite no paraíso”. Suas maiores desventuras começam aí. A idéia de prostituição é encarada com certo conformismo de sua parte, ao passo que gera momentos de tensão na sua casa.
A atriz que encarna Hermila, Hermila Guedes, dosa com muita habilidade a dor e a impulsividade da personagem, que arrisca tanto por achar que não tem nada a perder. O Céu de Suely é bonito por ser tão fiel aos elementos mundanos na narrativa. As cenas dela freqüentando uma boate de beira de estrada e dançando músicas tecno-bregas remetem bastante à Cidade Baixa.
O Céu de Suely não é indigesto apenas por ter cor, cheiro, diálogos diretos. Mas também por não é um filme asséptico. Oferece uma gama de sensações que acabam por criar empatia tamanha e fazer o espectador sair da sala desolado e solidarizado com essa mulher.
O CÉU DE SUELY
Karin Aïnouz
[Brasil, 2006]
NOTA :: 9,5
VOLVENDO CON ALMODÓVAR
Volver é o novo Almodóvar, que com voltas e voltas, arruma sua galeria de signos.
por Rafaella Ordella
VOLVER Pedro Almodóvar
[Espanha, 2006]
“Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Esse petardo de Tolstói abre o livro Anna Karenina como uma sentença triste, porém absolutamente verdadeira que nos atinge de maneira irreversível. Ninguém escapa dessa premissa,seja uma família da aristocracia russa do século 19 ou uma família espanhola das últimas décadas.
Volver, a mais recente película de Pedro Almodóvar, é uma fábula moderna e lírica, bonita como poucas incursões nesse tema. Almodóvar pode estar mais sóbrio nas cores, mas sua exuberância está estampada ora nas atuações precisas (precisa talvez seja um termo racional demais…) ora pairando como na metáfora do vento que enlouquece, leva e traz as pessoas de volta ao vilarejo de origem. Sua mão está no roteiro, que serpenteia como muitas vidas fantásticas de pessoas reais (será que os outros continentes dividem conosco a intensidade dos sentimentos?). Está nas atuações à flor da pele, pungentes, cheirando à pimenta vermelha que Penélope Cruz usa pra alimentar um batalhão de gente.

Boca de se fuder: Almodóvar ainda é o melhor no retrato da inquietude feminina.
Sua marca registrada, criar a comoção da identificação, permeia uma narrativa brilhante, nada óbvia como sugerem aqueles que confundem estilo com repetição,pelo contrário. É um talento se reiventar em histórias similares e distintas ao mesmo tempo…Volver é único, ainda que remeta a obras anteriores. Poucos falaram de família desse jeito antes, tocando em temas recorrentes mas sugerindo uma abordagem tão afetuosa. As mulheres já receberam o carinho do diretor em forma de filme ao longo de sua obra, e o maior mérito desse trabalho é reafirmar a força do sexo feminino, nas relações entre si e nas sagas familiares.
Aqui, um ar de Garcia Márquez contemporâneo, a dar outra perspetiva do quão mágicas podem ser as trajetórias das pessoas. Nada há de terra-à-terra no universo de quem guarda segredos por décadas, quem vive à sombra do amor de quem ama, quem abre mão da própria vida para cuidar dos seus.
Carmen Maura reconciliou-se com seu habitat natural, na persona de uma matriarca nada previsível, ainda que doce e forte em momentos alternados. Superou em muito a avó firme e divertida de “Valentim”. Volver marca voltas ainda mais simbólicas, o resgate do passado daquele menino excêntrico que saiu da cidade de Mancha pro mundo e no entanto hoje retrata suas impressões de povoados folclóricos, místicos e pessoas extraordinárias que estão sob a pele de mães, filhas, avós, vizinhas. Sem que ninguém desconfie.
NOTA:: 10

AS FERIDAS DE UMA ANTIGA CRISE
Em A Dama da Água tudo é gancho para apresentar ao público a forma como a narrativa está em xeque
por Fernando de Albuquerque
Os filmes do indiano Shymalan sempre precisam de um certo tempo para serem deglutidos. E isso fica mais notório em sua nova produção A Dama na Água, que teve rápida passagem pelo Recife nas sessões ditas de arte do Shopping Boa Vista. E que agora só resta esperar a tardia chegada em DVD.
Dois motivos básicos podem ser elencados para essa necessidade de tempo. Primeiro porque o cineasta rejeita qualquer tipo de interpretação mais cult de suas produções. E isso ele deixou bem claro depois da exibição de A Vila, quando uma penca de leigos viram no filme certa “alegoria social e política que desmonta o aparelho conceitual da sociedade”, vide as palavras de um crítico brasileiro muito pouco abnegado. Ledo Engano da crítica especializada.
Em segundo lugar porque o filme põe em crise algo que está cada vez mais difícil de esconder: a crise de ficção, a crise da magia contida na grande narrativa. E talvez disso advenha certa antipatia do público. Afinal criticas sociais bem baratas (do tipo de “Crash”, “Tiros em Columbine” e do antigo “Cidade de Deus”) costumam agradar mais que discurso sobre a linguagem.
Logo de cara mais uma dica: quem não assistiu A Vila desista de ver A Dama na Água. O segundo começa quando aquele termina, no exato momento em Ivy encontra com a guarda florestal e paira no ar uma surpresa recheada de “já não há como remediar”. O filme começa com esse pensamento nas primeiras imagens.
Partindo para o enredo: a história é bem no estilinho fairy-tale. Cleveland é um porteiro comum de um condomínio com vários moradores. Todos muito excêntricos (claro!) e que possuem características bem definidas: há o viciado em palavras cruzadas, o grupinho que se junta para “puxar” um, o homem que malha apenas um lado do corpo, etc. Mas tudo muda quando Story (e fica bem explícito a crítica ao enredo) chega pela piscina do condomínio que recebe o nome de “The Cove”.
Ela é uma narf que, assim como a introdução em animação do filme explica, é um ser das águas responsável por tentar ajudar o homem a seguir o caminho correto para a humanidade. Só que, nessa visita ao nosso mundo, alguma coisa dá errada e Story passa a ser perseguida pelos terríveis scrunts, lobos com poderosa camuflagem que tentam a todo custo comer narfs. Cabe ao nosso querido Cleveland ajudar a moça a voltar para sua terra natal. E nisso fica impossível fugir ao clichê de personagens de histórias de ninar que ganham uma roupagem bem pós-moderna. Afinal, nem tudo é ineditismo.
A Dama na Água, então, faz um retorno à raiz. Ou melhor, dois retornos: à utopia, que é combustível de toda fábula, e à oralidade, não só o primeiro modo empregado na transmissão das fábulas e dos mitos, como também a primeira etapa da vida a “fase oral”. Que remete à nossa participação inaugural no mundo. O cineasta afirma o poder de eternidade das ficções ancestrais, mas não deixa um só minuto de colocar a questão do “porquê” elas não funcionam mais da mesma forma”.
As pessoas “não ouvem mais”, diz o narrador da estória sobre o Mundo Azul contada no início do filme. Ela é ilustrada por desenhos feitos num estilo naïf que já dá a entender algumas das intenções do diretor. Essa forma primitiva de narração contida na fábula do Mundo Azul se opõe à deflação narrativa do filme em si e com isso Shyamalan atinge o ponto nevrálgico da dificuldade de ficção que se abate sobre o cinema.
Pois se há hoje o retorno fácil ao épico ou ao fantasioso propiciado pela renovação tecnológica, há também a tendência, igualmente forte, a investir nas superfícies e fazer a narrativa se perder nas curvas de uma infinita espiral do tempo. Ou mesmo ter na trama um pretexto para a exploração de certo efeito-cinema (seja na vertigem do puro movimento ou na embriaguez do livre escoamento de imagens).
A Dama da água acaba sendo um filme chato, que não agrada uma platéia fixada na história e entretida em surpresas dentro da história. O público quer susto, emoção e choro descondensado. Shymalan traz reflexões que não tem uma função social reconhecida. A revolução dele é através da estética. A do público deságua nas armas.
A DAMA DA ÁGUA
de M. Night Shyamalan
[EUA, 2006]
NOTA: 7,0
COMO O DIABO GOSTA
O Diabo Veste Prada é nota dez, mas se configura como filme para aquela tarde ociosa, com pipoca plenamente justificada
por Fernando de Albuquerque
O Diabo Veste Prada nasceu para ser exatamente o que é: um filminho bem sessão da tarde, uma sátira não muito cáustica e amena sobre indústria da moda, um subproduto mais acessível do fashionismo ”Prêt-à-Porter”. Criação do diretor David Frankel Altman, responsável pela série “Sex and the City”. E depois de clássicos do cinema, como “Blow Up – Depois Daquele Beijo”, de Michelangelo Antonioni, e “Quem É Você, Polly Magoo”, de William Klein (ambos falavam de formas diversas do mundo da moda) ficou muito difícil abordar o tema e parecer inovador.
O argumento é baseado no livro de Laura Weisberger (ex-assistente da poderosa Anna Wintour, editora da revista Vogue), e por isso é de se supor que contenha, muitas meias verdades sobre este império mundial de glamour comandado por criadores e infestado de criaturas sempre magras, com manequim abaixo do 40 e vestidas com a última blusinha da Dior. A protagonista Andy Sachs (Anne Hathaway) é a jovem otimista que procura emprego como jornalista em Nova York. Ela desconhece por completo as engrenagens desta feira das vaidades. É ingênua, lerda e mal vestida para os padrões da hight culture. Mesmo assim é contratada como sub-assistente de Miranda Priestly (a diva Mery Streep), fria, megera, ambiciosa, implacável editora da revista Runway.
É da atribulada convivência entre ambas que o roteiro se nutre. É o conflito entre tolerância zero e a determinação de aprender. Este embate já rendeu coisa melhor, em outros contextos, mas essa não é a proposta do filme. Ele quer ser raso e arrasar no fashionismo. Cumpre com maestria o seu papel.
Meryl Streep aparece mais uma vez oscarizável e de tão fiel chega, em alguns momentos, a desequilibrar a balança que conta com atores do quilate de Stanley Tucci fazendo um dos editores de moda. Ela é particularmente notável vivendo uma mulher competente, solitária e que sobrevive (quase que eternamente) rodeada por pessoas à beira de um ataque de nervos e do abismo do descarte imediato. Miranda, de mulher-diabo, transforma-se no decorrer da trama, em um modelo de perseverança e de resistência. E a moda, para o filme, resulta menos num alvo de ataques e mais num ambiente narrativo propício para ensinar às garotas lições de maquiavelismo. Frankel é um diretor mediano. Além de um pouco previsível do ponto de vista moral e cinematográfico. E isso fica muito claro a partir da pobre seqüência de Paris. Seria preciso um realizador mais perverso e irônico para extrair do livro a carga de rebeldia que ele possui.
O Diabo Veste Prada é de uma produção tão charmosa que consegue esconder um roteiro cheio de previsibilidade. Em alguns momentos o espectador percebe que não há as mãos do diretor, mas o próprio filme toma um rumo. Chegando a evitar a ”cinderelização” da garota assistente e a conversão da editora em bom caráter.
O DIABO VESTE PRADA
de David Frankel Altman
[EUA, 2006]
NOTA:: 8,0

O MAIOR HERÓI DA TERRA PROTAGONIZA DRAMA FASHION
por Calvin Curtis
SUPERMAN – O RETORNO
dir: Bryan Singer [EUA, 2006]
A manchete pode ser um tanto taxativa, mas é precisa poucos minutos para se constatar: Superman – O Retorno exagerou no drama. O filme é um dramalhão estrelado por um super-herói. Sim, temos cenas espetaculares, como a sequência em que o Superman salva um avião em queda livre e o pousa num campo de futebol, outra em que após uma luta contra Luthor leva ao espaço uma montanha de cristal e Kryptonita. Mas o mote do filme é a relação entre Lois Lane (Kate Bosworth) e o amor platônico que a jornalista nutre pelo homem de aço (estrelado pelo novato Brandon Routh). Depois de cinco anos longe da terra, quando partiu em busca de seu planeta natal, Krypton, o Superman retorna e encontra Lois Lane casada e com um filho de…. 5 anos! (Desculpem se estraguei alguma coisa). Ela irá receber um Pulitzer por uma matéria “Por que o mundo não precisa do Superman”. Após o seu retorno terá que lidar com seus sentimentos em relação ao heroi de capa e seu marido Richard White (James Marsdem, o Ciclope de X-Men, mais uma vez se dando mal em triângulos amorosos) Lex Luthor, interpretado por Kevin Spacey, também retornou e planeja destruir o mundo, matando bilhões de pessoas, um mundo que em sua mente insana, merece morrer por ser tão caro ao Superman. Spacey fez um ótimo trabalho como Luthor. Conseguiu mesclar o tom camp e irônico dos filmes de Richard Donner da década de 70 com um ser inescrupuloso e sádico dos quadrinhos. Tirando ele, todos os outros personagens coadjuvantes são dispensáveis e desinteressantes. O próprio Superman não se importa muito com Luthor, por que ele está mais preocupado em saber mais sobre os atuais sentimentos de Lois, chegando ao ponto de usar a visão de raios-x para bisbilhotar a vida da moça. É certo que a relação entre os dois jornalistas do Planeta Diário (Lois e Clark) sempre foi um elemento de muita importância na história do Superman, mas o diretor Brian Synger achou que deveria fazer desse elemento o cerne principal de seu longa. E houve muitos excessos. Tantos excessos que culminou em várias falhas na própria narrativa e cenas um tanto ingênuas e/ou melosas, como por exemplo o fato do Superman estar em coma e Lois ir até lá beija-lo e forçar o despertar do herói. Não bastasse esse take “Bela Adormecida”, na mesma cena vemos o uniforme do herói ao lado. Quando chegou ao hospital, os médicos rapidamente rasgaram a roupa para e o colocaram na mesa de cirurgia. Sim, a mesma roupa que suporta entradas na atmosfera, balas de metralhadora e altas temperaturas. Na cena em que Lois vai até o quarto do hospital, a roupa já está refeita e o Superman foge com ela. Novinha! Um dos filmes mais esperados deste novo século, o retorno do Superman inicia uma franquia que continua a série de tv Lois & Clark (no Brasil, As Novas Aventuras do Superman), onde o Superman e suas aventuras eram menos importantes do que a relação entre ele e Lois. Se pelo roteiro, talvez, Superman – O Retorno não tenha sido feliz, fazendo um dramalhão pop com cenas de ação, por outro reviveu o espetáculo que é o homem-de-aço. As cenas com o Superman em ação são magistrais e provam o quanto é possível, hoje em dia, tornar verossímel um homem voar. Brandom Routh também está perfeito
como Superman, do queixo quadrado ao penteado. Sua interpretação é tão bem executada que nos leva a entender o por que Lois, nem ninguém, ainda descobriu que Clark Kent, repórter do Planeta Diário é o Superman por debaixo daqueles óculos. Routh consegue modelar duas personas bem distintas, o que mostra um Superman que esconde sua real identidade e não um Clark que possui um alter-ego poderoso. As personalidades bem delimitadas do Superman e de Clark estava certamente no roteiro, mas construí-lo com tamanha eficácia foi uma façanha de Routh. O novo uniforme do Super é glam, uma mistura do estilo da Era de Prata e da mini-série Reino do Amanhã. Outra referência interessante é a homenagem que Synger faz ao longa original de 1974, conservando a música tema e a abertura em estilo retrô. Superman – O Retorno foi um projeto bem pensado, com vários elementos que retoma o personagem para o top das adaptações das hqs para o cinema. O diretor Bryan Singer deu o sangue e muito do mérito do filme é seu. Poderia ter se tornado um clássico inconteste, moderno e elegante, mas imprimiu no herói uma dramaticidade afetada, gratuita, ao explorar sem muito êxito a relação amorosa com Lois. Mas ainda assim, o seu retorno é um dos maiores espetáculos da Terra.
NOTA::6,5
VOCAÇÃO OU OBSESSÃO?
por Fernando de Albuquerque
VOCAÇÃO DO PODER Eduardo Escorel e José Joffily
[Brasil, 2005]
O que leva um cidadão comum, que dispõe de boa dose de popularidade, candidatar-se a um cargo público? Essa é uma das perguntas que Vocação do Poder, filme de Eduardo Escorel e José Joffily, faz, e responde com muita destreza. O documentário mostra o percurso de 6 candidatos ao cargo de vereador nas eleições de 2004 na cidade do Rio de Janeiro. O filme, que já foi exibido em festivais importantes do país como o “E Tudo Verdade” e na última “Mostra Internacional de Cinema de São Paulo”, só agora chega às telinhas recifenses e no circuito alternativo. Em um cinema não muito estruturado. Está sendo exibido, no Cine Teatro Apolo, com sessões de terça a quarta e nos finais de semana nos horário das16h, 18h e 20h.
A princípio muita normalidade, mas quando as primeiras imagens surgem na tela o espectador, que com toda certeza esperava um filme bem sisudo vê esta tese cair por terra. O documentário possui várias particularidades. A primeira delas está na escolha dos protagonistas. A equipe incluiu apenas aqueles que estavam se candidatando, pela primeira vez, a vereador do Rio e que, de preferência, fossem jovens. Para realizar a escolha foi disposto um formulário on-line, para que os interessados em participar do projeto respondessem 16 questões sobre sua orientação política, partidária e as condições da campanha; com isso foi possível escolher os candidatos que representassem diversas alternativas da conjuntura política da cidade. Foram 70 inscritos. E as gravações tiveram início nas convenções partidárias desaguando na comemoração de alguns e na decepção da derrota de outros, ao final das eleições. Tudo isso passando por uma apuração bastante aflita e a reação no dia seguinte.
A narrativa é bem linear, nada de muita experimentação. Pelo contrário há o retrato fiel de cada participante. De um lado está a Pastora Márcia Teixeira, com 45 anos; do outro um funqueiro cheio de gírias: o MC Geléia, com 27 anos. Noutra ponta do está Carlo Caiado, 24 anos, e uma campanha com mais pirotecnia que discurso; em outro extremo está André Luiz Filho, com apenas 21 anos, herdeiro político dos pais (ambos deputados estaduais), a seu favor um assistencialismo daqueles bem baratos. Ainda faltam Felipe Santa Cruz com um discurso altamente politizado, talvez o mais consciente de todos, e o “esforçado” Antônio Pedro de Mello, com 30 anos. Todos são diferentes espelhos da política nacional. Dá até para estabelecer algumas comparações.
Voltando ao institucional: o filme reproduz, entre uma tomada e outra, as dificuldades de campanha de cada candidato. Bem como as diferenças gritantes entre eles. Enquanto um se dedica ao corpo-a-corpo subindo os morros, outros se focavam nas comunidades em que seu nome já era conhecido de alguma forma. Noutro extremo um dos candidatos rezava com muito fervor e passeava em locais mais populares. Isso enquanto um fazia discursos bem analíticos e enriquecedores para platéias vazias. “Isso é o reflexo do descrédito na política nacional. Um auditório da Puc com menos de 20 alunos para debater sobre política”, disse Felipe Santa Cruz em um dos momentos de frustração. A cena se conclui com uma seqüência dele, abraçado à sua esposa, passando pelas famosas pilastras redondas, bem no estilinho da arquitetura dos anos 50, dos terraços da Puc do Rio.
Alguns problemas técnicos e de edição chegam a irritar o espectador. Um deles é a presença, em alguns momentos, do diretor em cena e mesmo a falta de enquadramento da câmera que deixa o microfone aparecer. Alguém pode até dizer que “a presença do diretor” demonstra uma questão estética. Mas não nesse filme. Quando uma obra se destina a abraçar questões de imagem possui propostas diferentes. Não se pode confundir desleixo com experimentação. E lá pelo meio da exibição vem a pergunta: onde está a pastora Márcia? São poucas as tomadas em que são exibidas a campanha da pastora. Mas tais desvios, digamos assim, não diminuem a atração causada pelo filme. Vale a pena ser visto não só pela indignação que causa, mas também pela boa dose de risadas proporcionada por cenas bem escatológicas.
NOTA:: 7,0
