O Grito!


300 | Zack Snyder
Abril 9, 2007, 8:40 pm
Arquivado em: 300, Cinema, Crítica-Cinema, Fernando, Zack Snyder


A NARRATIVA DE UM BÍCEPS
Mantendo o estilo Graphic Novel, “300″ não empolga e enche de angústia o espectador
por Fernando de Albuquerqe

Muitas cabeças rolam em 300, filme de Zack Snyder que chegou no último mês ao Brasil. Há sangue e flechas para todo lado, muita guerra e um rei completamente afeminado e místico. A transposição do quadrinho do festejado Frank Miller para o cinema, e que tem o brasileiríssimo Rodrigo Santoro no papel do vilão, o rei-deus Xerxes, estreou depois de ter atingido o topo da bilheteria americana. As filmagens foram realizadas em estúdio, em fundo azul, sobre o qual foram posteriormente colocados os cenários.

300, lançado em mais de 550 salas, em 160 cidades, nos conta a batalha de Termópilas, em que 300 soldados da elite de Esparta enfrentam o exército persa, muito mais numeroso. Reproduzindo truques de Gladiador, com direito a música melosa e triunfante, as duas horas de projeção não satisfaz o desejo do espectador que tem um discurso mais elaborado. Só o leigo pode sentir-se um pouco mais “informado” quando sai da sessão. Com exceção das seqüências de batalha, com ênfase no aspecto gráfico, coreografia estilizada e um uso admirável dos contrastes entre os vermelhos das vestes espartanas e o cinza dos uniformes persas, “300″ se arrasta, perdido em lições ideológicas de intenções completamente duvidosas.

O filme à todo tempo procura mostrar o triunfo da força contra a tirania e o misticismo persa. Mais parece um discurso inflamado de Auguste Comte, o mestre positivista dos últimos tempos. Os diálogos, se dissecados, estão mais para um manual fascista de métodos do que para uma narrativa fílmica, pois tenta, à todo tempo, reproduzir a filosofia colonialista do “choque de civilizações” entre o ocidente da razão e o oriente da bárbarie.

Entre uma cabeça decepada e mais alguns litros de jorro de sangue digital há discursos sobre o significado da liberdade, o real valor da morte e outras filosofices muito mais enganadoras do que funcionais. O único talento que é exibido no filme à torto e a direito são os músculos e barrigas tanquinho que dão um alívio geral no público feminino e no masculino também. Com toda certeza as academias e lojas de alimentos fitness, depois de 300, irão faturar mais um pouco.

A idéia que norteou o filme era a de repetir a bem sucedida adaptação de outra obra de Miller, Sin City, que Robert Rodriguez levou às telas nos idos 2005. Aquele filme misturou uma impressionante mistura gráfica dos quadrinhos com planos bem cinematográficos e elaborados. Mas Snyder fracassou na empreitada. A diferença mais marcante entre o filme e a HQ é a criação de uma subtrama protagonizada pela mulher do rei Leônidas (nos quadrinhos, a personagem está relegada a duas páginas e olhe lá). Outra mudança e bem notória é que a HQ não detalha cada músculo dos espartanos. O próprio rei Leônidas praticamente só aparece coberto por seu manto vermelho, já que o senhor de 50 anos dos quadrinhos não deve ter exatamente o corpo definido que o ator Gerard Butler, com 37, exibe ao encarnar o papel.

NOTA: 4,0



Volver | Pedro Almodóvar
Abril 7, 2007, 8:54 pm
Arquivado em: Cinema, Crítica-Cinema, Pedro Almodóvar, Rafaella

VOLVENDO CON ALMODÓVAR>
Volver é o novo Almodóvar, que com voltas e voltas, arruma sua galeria de signos.
por Rafaella Ordella

VOLVER Pedro Almodóvar
[Espanha, 2006]

“Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Esse petardo de Tolstói abre o livro Anna Karenina como uma sentença triste, porém absolutamente verdadeira que nos atinge de maneira irreversível. Ninguém escapa dessa premissa,seja uma família da aristocracia russa do século 19 ou uma família espanhola das últimas décadas.

Volver, a mais recente película de Pedro Almodóvar, é uma fábula moderna e lírica, bonita como poucas incursões nesse tema. Almodóvar pode estar mais sóbrio nas cores, mas sua exuberância está estampada ora nas atuações precisas (precisa talvez seja um termo racional demais…) ora pairando como na metáfora do vento que enlouquece, leva e traz as pessoas de volta ao vilarejo de origem. Sua mão está no roteiro, que serpenteia como muitas vidas fantásticas de pessoas reais (será que os outros continentes dividem conosco a intensidade dos sentimentos?). Está nas atuações à flor da pele, pungentes, cheirando à pimenta vermelha que Penélope Cruz usa pra alimentar um batalhão de gente.


Boca de se fuder: Almodóvar ainda é o melhor no retrato da inquietude feminina.

Sua marca registrada, criar a comoção da identificação, permeia uma narrativa brilhante, nada óbvia como sugerem aqueles que confundem estilo com repetição,pelo contrário. É um talento se reiventar em histórias similares e distintas ao mesmo tempo…Volver é único, ainda que remeta a obras anteriores. Poucos falaram de família desse jeito antes, tocando em temas recorrentes mas sugerindo uma abordagem tão afetuosa. As mulheres já receberam o carinho do diretor em forma de filme ao longo de sua obra, e o maior mérito desse trabalho é reafirmar a força do sexo feminino, nas relações entre si e nas sagas familiares.

Aqui, um ar de Garcia Márquez contemporâneo, a dar outra perspetiva do quão mágicas podem ser as trajetórias das pessoas. Nada há de terra-à-terra no universo de quem guarda segredos por décadas, quem vive à sombra do amor de quem ama, quem abre mão da própria vida para cuidar dos seus.

Carmen Maura reconciliou-se com seu habitat natural, na persona de uma matriarca nada previsível, ainda que doce e forte em momentos alternados. Superou em muito a avó firme e divertida de “Valentim”. Volver marca voltas ainda mais simbólicas, o resgate do passado daquele menino excêntrico que saiu da cidade de Mancha pro mundo e no entanto hoje retrata suas impressões de povoados folclóricos, místicos e pessoas extraordinárias que estão sob a pele de mães, filhas, avós, vizinhas. Sem que ninguém desconfie.

NOTA:: 10



Maria Antonieta | Sofia Coppola
Março 21, 2007, 6:18 am
Arquivado em: Cinema, Crítica-Cinema, Fernando, Sofia Coppola

MORTE AOS SANS CULOTTE
Maria Antonieta não empolga, mas reinventa imagem decadente da rainha decapitada e lança moda
por Fernando de Albuquerque

Grosso modo, filmes históricos trazem em si uma grande problemática: ou são épicos acadêmicos que precisam de faustosismo para render uma boa bilheteria ou então são representações cheias de efeitos especiais que impressionam pela falta de coerência. E dentro dessas duas opções Maria Antonieta, filme da festejada Sofia Coppola, deixa marcas na historiografia cinematográfica por conseguir representar, com o requinte necessário à personagem, e ao mesmo instante modificar a imagem derrotada da rainha francesa, ainda hoje caracterizada como símbolo de um regime decadente.

Maria Antonieta é um filme de pouca ação e muita contemplação. São seqüências plácidas onde os elementos cênicos e mesmo o vestuário se sobressai à própria composição cinematográfica. A jovem rainha francesa, que abandona a austera corte austríaca, tem nos vestidos, perfumes, sapatos e penteados seu próprio ponto de fuga. Mas divergindo das linhas bem marxistas traçadas pela história, Sofia Coppola trata a personagem como uma pessoa, não uma personagem que pertença à clicheria submissa do mainstream ou ao pseudo-indie-movie.

A Rainha traçada por Coppola é, no início, uma mulher dominada, controlada por outros, parecida com as irmãs de As Virgens Suicidas, filme que alçou a diretora ao estrelato. Na condição de princesa austríaca, Maria é prometida, ainda adolescente, ao delfim da França, Luís Augusto, futuro Luís 16, a fim de aproximar os dois países e formatar uma aliança. A imperatriz Maria Tereza, mãe de Maria Atonieta, tinha uma missão estritamente política para a filha. Ela funcionaria como espiã do governo austríaco dentro da corte de Versalhes. Fechada em si mesma, a personagem não cumpre com a função designada e vê nos gastos com futilidades a perfeita válvula de escape para ser notada, respeitada e fazer história. É nesse momento que ela se converte na mulher no estrangeiro, como Scarlett Johanson em Encontros e Desencontros, às voltas com signos indecifráveis. Nada ali é seu.

Maria Antonieta é um filme que recusa emoções baratas e o didatismo inútil. A rainha é cínica demais para ceder aos costumes da corte e superficial demais para ater-se a um revolucionarismo barato como era o francês. Sofia retoma sua tragetória em relação à alienação feminina sem precisar fazer demagogia com o pescoço da trágica rainha.

E o filme não é apenas um sucesso no que diz respeito ao trato com o enredo. O figurino já causa um impacto considerável sobre a moda dos próximos anos. Para conferir isso basta abrir as edições da Vogue em novembro e dezembro passados. Em uma das cenas mais comentadas, um par de all stars azul é flagrado entre os sapatos da rainha. Engana-se quem pensa que a idéia é somente reproduzir o contemporâneo. Pelo contrário, é traduzir, compreender e aproximar a partir do nosso olhar. Nada mais perfeito do que o tênis-ícone dos indies; nisso o Versalhes do século 18 se converte no aqui e agora.

Site Oficial: http://www.marieantoinette-movie.com/

Nota: 8,0



Pequena Miss Sunshine |
Fevereiro 27, 2007, 7:46 am
Arquivado em: Cinema, Crítica-Cinema, Fernando, Jonatan Dayton, Pequena Miss Sunshine, Valerie Faris

DOCE FELICIDADE DOS FEIOS
Filme com números abaixo dos padrões hollywoodianos encanta e faz piada com American Way of Life
Por Fernando de Albuquerque

Os acostumados ao product placement bem hollywoodianos, capitaneados por Sandra Bullocks e Lindsay Lohans da vida, ficam abismados ao saber que “Pequena Miss Sunshine” é uma produção genuinamente americana. Com orçamento bem abaixo dos padrões convencionais e dirigido pelo casal Jonathan Dayton e Valerie Faris o filme (para usar uma conceituação bem moderna) se insere na categoria de indie movie que desde os anos 80 vem se caracterizando como um catálogo de patologias. Evidenciando personagens deslocados, invariavelmente patéticos, traumatizados por seu entorno, com traços gritantes de suas “anormalidades”, Pequena Miss Sunshine é gargalhada garantida e também promete uma boa dose de lágrimas às almas mais sensíveis.

O longa narra a viagem de uma típica família de classe média envolta numa crise financeira sem tamanho, mas que tenta a todo custo manter-se de pé enquanto instituição. Seus membros são malucos inofensivos. Olive (a mini-atriz Abigail Breslin), caçula da família Hoover, é a personagem que desencadeia todos os fatos apresentados. Ela foi classificada e deseja concorrer ao concurso de beleza na Califórnia. A partir daí os personagens tem suas vidas apresentadas: o pai (Greg Kinnear), um fracassado escritor de auto-ajuda; a mãe (Toni Collette), uma dona-de-casa com subemprego; o avô (Alan Arkin), viciado em heroína e criador da apresentação da neta, que o adora; o tio (Steve Carell), que acaba de tentar suicídio porque seu namorado o deixou pelo expert número 1 em Proust no país, já que Carell é o número dois; e o irmão (Paul Dano), fã de Nietzsche, que decidiu parar de falar por um ano em homenagem ao filósofo alemão. Nada perto do american way of life.

Pois é para um concurso de miss mirim na Califórnia que todos vão, numa acolhedora Kombi amarelo gema que não passa marcha e faz os personagens literalmente correr atrás do que desejam. O automóvel se converte no personagem principal do filme que, quase à la Ettore Scola, procura enquadrar mais de um personagem na câmera. Como é tradição nos road movies, o grupo passará por transformações ao longo do percurso, superando barreiras psicológicas, atualizando elos afetivos gastos e aceitando a imperfeição da vida.

“Pequena Miss Sunshine” é completamente correto na sua gramática cinematográfica. A subversão da película se dá na história e não precisa de uma linguagem “inovadora”, ou mesmo tresloucada, para se fazer entender. Ele fere por completo qualquer complexo de superioridade e excelência do espectador mais arrogante. E está repleto do que poderíamos chamar “pessoas completamente normais”.

Nem de perto o filme é redentor. Do começo ao fim o sentimento de perda (loser) perpassa a narrativa que acaba por cativar ao abordar temas pesados (adolescência problemática, fracasso profissional, homofobia, suicídio, desilusão amorosa e drogas) sem perder o senso de humor. Tudo graças a um elenco talentoso e bem dirigido, além de diálogos precisos.

Mas o filme acaba mal, deixando o espectador aliviado. Mesmo dando tudo errado para a família Hoover eles saem ganhando. A convivência forçada dá unidade à uma relação completamente desgastada e caída na frustração. Mas se Pequena Miss Sunshine não se agarrase a um fio de otimismo no final da história seria um filme especializado em mostrar a perversidade dos adultos em castrar a infância de seus filhos para realizar seus ideais de sucesso, fabricando uma geração de crianças plastificadas e pasteurizadas, tanto na beleza como nas atitudes para enfrentar seus conflitos.

PEQUENA MISS SUNSHINE
Jonatan Dayton e Valerie Faris
[EUA, 2007]
NOTA: 10



O Céu de Suely | Karim Aïnouz
Janeiro 29, 2007, 8:24 am
Arquivado em: Cinema, Crítica-Cinema, Fernando, Karim Aïnouz, Rafaella
LIVRE, MAS NÃO FELIZ
O Céu de Suely termina com uma estrada vazia, sem tragédia nem happy end tudo com o direito a nota dez
por Fernando de Albuquerque e Rafaella Soares

Depois de dois anos se virando na cidade de São Paulo, ao lado do marido, ambos fugidos de um tórrido interior cearense, Hermila (sim, o nome da personagem é o mesmo da atriz), volta à sua cidade natal, Iguatu, com a felicidade e deslumbramento estampados no rosto e um filho pequeno debaixo do braço. A principio já se instala na frente das telas um clichê que faz o espectador retorcer-se na poltrona. Ledo engano. O Céu de Suely, filme de Karim Aïnouz, dá um salto qualitativo e surpreende sem pudor e nem desprendimento quem o assiste. O filme retrata de modo preciso e muito sutil, e sem discursos explicativos, a torta pós-modernidade brasileira.

Hermila é uma personagem dividida entre laços afetivos. De um lado ela tem Iguatu como raiz, e do outro o desejo de ganhar o mundo. Uma mulher entre suas fontes e um céu sem limites. Essa tensão permanente entre o local e o global está presente no próprio ambiente, em cada plano do filme, bem como em sua trilha sonora. As primeiras imagens e sons sugerem essa dialética: numa textura de filme doméstico, vemos Hermila correndo e dançando feliz num descampado, enquanto se ouve em off seu relato de amor incondicional ao marido Mateus. Como fundo a canção “Everything I Own”, do Bread, em versão brasileiríssima. Uma espécie de clipe bem brega. Iguatu então se converte nisso: numa vontade incontrolável de estar associado a um mundo globalizado, mesmo que pelas portas dos fundos. E Karim vincula o filme a uma galáxia de Gutemberg remodelada e que relembra a máxima de McLuhan: “para ser global, fale apenas da sua aldeia”.

Voltando ao institucional: a jovem Hermila, acompanhada do seu filho pequeno, retorna ao grau zero de sua saudade: espera a volta do marido. E isso nos é contado de um lugar sertanejo mostrado em nuances ricas e planos bem modelados. Os detalhes enriquecem o todo, como, por exemplo, o uso do céu, a decoração típica de um motel barato, ou mesmo a imagem de uma geladeira aberta. As perspectivas financeiras lançadas pela protagonista que existem na pirataria de música e filmes logo dão lugar a uma idéia bancada pela própria Hermila: rifar o próprio corpo, juntando o dinheiro necessário para uma fuga que lembra a de uma prisão. Ela faz por onde.

As atitudes da personagem Hermila são fortes e tem reflexo em todos os personagens, da tia sapatão às amigas da avó. Mas o caso mais interessante é o de João (interpretado pelo ator João Miguel, de Cinema, Aspirinas e Urubus) um amor antigo que tenta cuidar dela, entendê-la e conduzir a vida de Hermila a um cotidiano estafante e bem previsível.O Céu de Suely por várias vezes é impessoal, frio e distante. O espectador vê com poucas elucubrações, mas muita emoção, os acontecimentos na vida de Hermila. A história dela é curta e ganha tônus com a exposição de pequenos detalhes, com a preocupação com o colorido. Uma sábia escolha que prima por uma narrativa calcada nas miudezas da vida de uma mulher que tenta, desesperadamente, suprir os anseios de sua alma e ser feliz. Piegas, mas funcional.

Em Madame Satã, também de Aïnouz, a pressão social e mesmo racial estava estampada no corpo e na alma do protagonista. Com Suely essa tensão é o tema do deslocamento, do sonho de um lugar feliz, que se encarna no destino de Hermila. Da Lapa carioca dos anos 40 ao sertão cearense do século 21, do negro homossexual à sonhadora interiorana, os temas foram modificados, mas o cinema de Aïnouz continua sendo um jeito delicado, porém vigoroso, de dar a ver a interação entre o indivíduo e sua circunstância.
Curiosidade – O filme está bem longe do padrão Globo Filmes de cinema que, com raras exceções, vem embalando obras que parecem mais funcionais na tevê. O Céu de Suely surge como uma raridade no cenário, o que talvez explique a demora no seu lançamento nas salas pernambucanas. Ele chegou às telas cariocas e paulistas ainda em novembro, e só agora a província recifense decidiu abrigar a obra.

INQUIETO e INDIGESTO

O cenário árido do nordeste freqüentemente duela com histórias oníricas, lúdicas, a sugerir que o que temos de quente sobre as cabeças temos de poetas. Ao contrário de Cinema, Aspirinas e Urubus, que segue essa estética, ou do road movie-caba-da-peste-urbanóide Árido Movie, O Céu de Suely dá um certo nó na garganta, daqueles que só os personagens mais sofridos do cinema provocam. Hermila não passa fome, mas quase. Hermila não tem uma penca de filhos, mas tem um bebê. O pai da criança promete voltar de São Paulo e não dá mais notícias. Isso, somado à frustração de voltar pra cidade natal sem ter melhorado de vida e esperar ansiosamente a volta do marido, torna-a uma Macabéa moderna. Nem mais ingênua nem menos. Entre idas insistentes à rodoviária e momentos de tédio em que cheira acetona, Hermila percebe sua situação limítrofe, dentro de uma cidade onde as pessoas estão sempre de passagem e ela está permanecendo.

Seu abandono é tão sofrido que ela enxerga numa rifa de si mesma a solução para sair daquele lugar. Mesmo com o amor de João, ela parte nessa jornada de se tornar a primeira mulher da cidade que vende “uma noite no paraíso”. Suas maiores desventuras começam aí. A idéia de prostituição é encarada com certo conformismo de sua parte, ao passo que gera momentos de tensão na sua casa. A atriz que encarna Hermila, Hermila Guedes, dosa com muita habilidade a dor e a impulsividade da personagem, que arrisca tanto por achar que não tem nada a perder. O Céu de Suely é bonito por ser tão fiel aos elementos mundanos na narrativa. As cenas dela freqüentando uma boate de beira de estrada e dançando músicas tecno-bregas remetem bastante à Cidade Baixa.

O Céu de Suely não é indigesto apenas por ter cor, cheiro, diálogos diretos. Mas também por não é um filme asséptico. Oferece uma gama de sensações que acabam por criar empatia tamanha e fazer o espectador sair da sala desolado e solidarizado com essa mulher.

O CÉU DE SUELY
Karin Aïnouz
[Brasil, 2006]

NOTA :: 9,5



Volver | Pedro Almodóvar
Novembro 14, 2006, 10:38 pm
Arquivado em: Cinema, Crítica-Cinema, Pedro Almodóvar, Rafaella

VOLVENDO CON ALMODÓVAR
Volver é o novo Almodóvar, que com voltas e voltas, arruma sua galeria de signos.
por Rafaella Ordella

VOLVER Pedro Almodóvar
[Espanha, 2006]

“Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Esse petardo de Tolstói abre o livro Anna Karenina como uma sentença triste, porém absolutamente verdadeira que nos atinge de maneira irreversível. Ninguém escapa dessa premissa,seja uma família da aristocracia russa do século 19 ou uma família espanhola das últimas décadas.

Volver, a mais recente película de Pedro Almodóvar, é uma fábula moderna e lírica, bonita como poucas incursões nesse tema. Almodóvar pode estar mais sóbrio nas cores, mas sua exuberância está estampada ora nas atuações precisas (precisa talvez seja um termo racional demais…) ora pairando como na metáfora do vento que enlouquece, leva e traz as pessoas de volta ao vilarejo de origem. Sua mão está no roteiro, que serpenteia como muitas vidas fantásticas de pessoas reais (será que os outros continentes dividem conosco a intensidade dos sentimentos?). Está nas atuações à flor da pele, pungentes, cheirando à pimenta vermelha que Penélope Cruz usa pra alimentar um batalhão de gente.


Boca de se fuder: Almodóvar ainda é o melhor no retrato da inquietude feminina.

Sua marca registrada, criar a comoção da identificação, permeia uma narrativa brilhante, nada óbvia como sugerem aqueles que confundem estilo com repetição,pelo contrário. É um talento se reiventar em histórias similares e distintas ao mesmo tempo…Volver é único, ainda que remeta a obras anteriores. Poucos falaram de família desse jeito antes, tocando em temas recorrentes mas sugerindo uma abordagem tão afetuosa. As mulheres já receberam o carinho do diretor em forma de filme ao longo de sua obra, e o maior mérito desse trabalho é reafirmar a força do sexo feminino, nas relações entre si e nas sagas familiares.

Aqui, um ar de Garcia Márquez contemporâneo, a dar outra perspetiva do quão mágicas podem ser as trajetórias das pessoas. Nada há de terra-à-terra no universo de quem guarda segredos por décadas, quem vive à sombra do amor de quem ama, quem abre mão da própria vida para cuidar dos seus.

Carmen Maura reconciliou-se com seu habitat natural, na persona de uma matriarca nada previsível, ainda que doce e forte em momentos alternados. Superou em muito a avó firme e divertida de “Valentim”. Volver marca voltas ainda mais simbólicas, o resgate do passado daquele menino excêntrico que saiu da cidade de Mancha pro mundo e no entanto hoje retrata suas impressões de povoados folclóricos, místicos e pessoas extraordinárias que estão sob a pele de mães, filhas, avós, vizinhas. Sem que ninguém desconfie.

NOTA:: 10



A Dama da Água | M. Night Shyamalan
Outubro 25, 2006, 10:12 pm
Arquivado em: Cinema, Crítica-Cinema, Fernando, Shyamalan

AS FERIDAS DE UMA ANTIGA CRISE
Em A Dama da Água tudo é gancho para apresentar ao público a forma como a narrativa está em xeque
por Fernando de Albuquerque

Os filmes do indiano Shymalan sempre precisam de um certo tempo para serem deglutidos. E isso fica mais notório em sua nova produção A Dama na Água, que teve rápida passagem pelo Recife nas sessões ditas de arte do Shopping Boa Vista. E que agora só resta esperar a tardia chegada em DVD.

Dois motivos básicos podem ser elencados para essa necessidade de tempo. Primeiro porque o cineasta rejeita qualquer tipo de interpretação mais cult de suas produções. E isso ele deixou bem claro depois da exibição de A Vila, quando uma penca de leigos viram no filme certa “alegoria social e política que desmonta o aparelho conceitual da sociedade”, vide as palavras de um crítico brasileiro muito pouco abnegado. Ledo Engano da crítica especializada.

Em segundo lugar porque o filme põe em crise algo que está cada vez mais difícil de esconder: a crise de ficção, a crise da magia contida na grande narrativa. E talvez disso advenha certa antipatia do público. Afinal criticas sociais bem baratas (do tipo de “Crash”, “Tiros em Columbine” e do antigo “Cidade de Deus”) costumam agradar mais que discurso sobre a linguagem.

Logo de cara mais uma dica: quem não assistiu A Vila desista de ver A Dama na Água. O segundo começa quando aquele termina, no exato momento em Ivy encontra com a guarda florestal e paira no ar uma surpresa recheada de “já não há como remediar”. O filme começa com esse pensamento nas primeiras imagens.

Partindo para o enredo: a história é bem no estilinho fairy-tale. Cleveland é um porteiro comum de um condomínio com vários moradores. Todos muito excêntricos (claro!) e que possuem características bem definidas: há o viciado em palavras cruzadas, o grupinho que se junta para “puxar” um, o homem que malha apenas um lado do corpo, etc. Mas tudo muda quando Story (e fica bem explícito a crítica ao enredo) chega pela piscina do condomínio que recebe o nome de “The Cove”.

Ela é uma narf que, assim como a introdução em animação do filme explica, é um ser das águas responsável por tentar ajudar o homem a seguir o caminho correto para a humanidade. Só que, nessa visita ao nosso mundo, alguma coisa dá errada e Story passa a ser perseguida pelos terríveis scrunts, lobos com poderosa camuflagem que tentam a todo custo comer narfs. Cabe ao nosso querido Cleveland ajudar a moça a voltar para sua terra natal. E nisso fica impossível fugir ao clichê de personagens de histórias de ninar que ganham uma roupagem bem pós-moderna. Afinal, nem tudo é ineditismo.

A Dama na Água, então, faz um retorno à raiz. Ou melhor, dois retornos: à utopia, que é combustível de toda fábula, e à oralidade, não só o primeiro modo empregado na transmissão das fábulas e dos mitos, como também a primeira etapa da vida a “fase oral”. Que remete à nossa participação inaugural no mundo. O cineasta afirma o poder de eternidade das ficções ancestrais, mas não deixa um só minuto de colocar a questão do “porquê” elas não funcionam mais da mesma forma”.

As pessoas “não ouvem mais”, diz o narrador da estória sobre o Mundo Azul contada no início do filme. Ela é ilustrada por desenhos feitos num estilo naïf que já dá a entender algumas das intenções do diretor. Essa forma primitiva de narração contida na fábula do Mundo Azul se opõe à deflação narrativa do filme em si e com isso Shyamalan atinge o ponto nevrálgico da dificuldade de ficção que se abate sobre o cinema. Pois se há hoje o retorno fácil ao épico ou ao fantasioso propiciado pela renovação tecnológica, há também a tendência, igualmente forte, a investir nas superfícies e fazer a narrativa se perder nas curvas de uma infinita espiral do tempo. Ou mesmo ter na trama um pretexto para a exploração de certo efeito-cinema (seja na vertigem do puro movimento ou na embriaguez do livre escoamento de imagens).

A Dama da água acaba sendo um filme chato, que não agrada uma platéia fixada na história e entretida em surpresas dentro da história. O público quer susto, emoção e choro descondensado. Shymalan traz reflexões que não tem uma função social reconhecida. A revolução dele é através da estética. A do público deságua nas armas.

A DAMA DA ÁGUA
de M. Night Shyamalan
[EUA, 2006]

NOTA: 7,0



O Diabo Veste Prada | David Frankel Altman
Outubro 25, 2006, 10:12 pm
Arquivado em: Cinema, Crítica-Cinema, David Frankel Altman, Fernando

COMO O DIABO GOSTA
O Diabo Veste Prada é nota dez, mas se configura como filme para aquela tarde ociosa, com pipoca plenamente justificada
por Fernando de Albuquerque

O Diabo Veste Prada nasceu para ser exatamente o que é: um filminho bem sessão da tarde, uma sátira não muito cáustica e amena sobre indústria da moda, um subproduto mais acessível do fashionismo ”Prêt-à-Porter”. Criação do diretor David Frankel Altman, responsável pela série “Sex and the City”. E depois de clássicos do cinema, como “Blow Up – Depois Daquele Beijo”, de Michelangelo Antonioni, e “Quem É Você, Polly Magoo”, de William Klein (ambos falavam de formas diversas do mundo da moda) ficou muito difícil abordar o tema e parecer inovador.

O argumento é baseado no livro de Laura Weisberger (ex-assistente da poderosa Anna Wintour, editora da revista Vogue), e por isso é de se supor que contenha, muitas meias verdades sobre este império mundial de glamour comandado por criadores e infestado de criaturas sempre magras, com manequim abaixo do 40 e vestidas com a última blusinha da Dior. A protagonista Andy Sachs (Anne Hathaway) é a jovem otimista que procura emprego como jornalista em Nova York. Ela desconhece por completo as engrenagens desta feira das vaidades. É ingênua, lerda e mal vestida para os padrões da hight culture. Mesmo assim é contratada como sub-assistente de Miranda Priestly (a diva Mery Streep), fria, megera, ambiciosa, implacável editora da revista Runway.

É da atribulada convivência entre ambas que o roteiro se nutre. É o conflito entre tolerância zero e a determinação de aprender. Este embate já rendeu coisa melhor, em outros contextos, mas essa não é a proposta do filme. Ele quer ser raso e arrasar no fashionismo. Cumpre com maestria o seu papel.

Meryl Streep aparece mais uma vez oscarizável e de tão fiel chega, em alguns momentos, a desequilibrar a balança que conta com atores do quilate de Stanley Tucci fazendo um dos editores de moda. Ela é particularmente notável vivendo uma mulher competente, solitária e que sobrevive (quase que eternamente) rodeada por pessoas à beira de um ataque de nervos e do abismo do descarte imediato. Miranda, de mulher-diabo, transforma-se no decorrer da trama, em um modelo de perseverança e de resistência. E a moda, para o filme, resulta menos num alvo de ataques e mais num ambiente narrativo propício para ensinar às garotas lições de maquiavelismo. Frankel é um diretor mediano. Além de um pouco previsível do ponto de vista moral e cinematográfico. E isso fica muito claro a partir da pobre seqüência de Paris. Seria preciso um realizador mais perverso e irônico para extrair do livro a carga de rebeldia que ele possui.

O Diabo Veste Prada é de uma produção tão charmosa que consegue esconder um roteiro cheio de previsibilidade. Em alguns momentos o espectador percebe que não há as mãos do diretor, mas o próprio filme toma um rumo. Chegando a evitar a ”cinderelização” da garota assistente e a conversão da editora em bom caráter.

O DIABO VESTE PRADA
de David Frankel Altman
[EUA, 2006]

NOTA:: 8,0



Incuráveis
Outubro 6, 2006, 11:22 pm
Arquivado em: Cinema, Fernando, Incuráveis, Matéria

ESTRANHOS AMORES À MODA TUPINIQUIM
Com Incuráveis, pseudo-cinemão brasileiro quer ser cult e não fatura o público
por Fernando de Albuquerque

Quem não gosta, de vez em quando, de uma comédia romântica? Acompanhada de uma pipoca e um refrigerante bem engordativo o programa começa a soar irresistível. Mas quando se fala nesse gênero cinematográfico a primeira coisa que vem a mente é a forma como americanos fazem comédias românticas. Sempre repletas de muito açúcar e trilha sonora bem pop. Mas o braço devemos torcer: a narrativa sempre envolve o mais bruto dos humanos.

Talvez por falta de prática, desinteresse ou simplesmente teimosia, o cinema brasileiro nunca soube fazer filmes românticos capazes de seguir as regras do manual ianque. Até as produções nacionais com grandes ambições comerciais tratam o gênero de forma desengonçada, sem intimidade com os mais batidos lugares-comuns. O lado menos convencional do tema, porém, sempre bateu forte no coração dos cineastas do país. De Arnaldo Jabor a Domingos de Oliveira, não são poucos os que filmaram casais às voltas com o lado mais corriqueiro ou obscuro dos relacionamentos amorosos. Para tanto basta dar uma olhada na última safra de produções, principalmente patrocinada pela Globo Filmes.

O ineditismo no circuito comercial faz de Incuráveis, do carioca Gustavo Acioli, o maior destaque entre todas as produções nacionais. Exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro do ano passado e disponível no e-mule (só para aqueles que conseguem fuçar a máquina), o filme venceu o prêmio de melhor ator (Fernando Eiras, que contracena com Dira Paes e agora faz um personagem gay em Páginas da Vida) e intrigou a platéia com um roteiro circular sobre um casal que, em um quarto barato, se envolve em um jogo misterioso de sedução.


Da esquerda para a direita: Gustavo Acioly, Fernando Eiras, Luiz Guimarães de Castro (editor) e André Weller (diretor de arte) na 9ª Mostra de Cinema de Tiradentes Minas Gerais

A inspiração teatral, da peça A dama da Lapa, de Marcelo Pedreira, é notada de forma explícita na tela. “Este é um filme de sentimento, que aposta nos atores”. Usar diálogos realistas seria banalizar o texto original. Preferimos apostar que os atores soubessem como aproveitar esses diálogos não-coloquiais”, disse o diretor em uma entrevista concedida do Correio Braziliense na época.

Com ação confinada em um único espaço, Incuráveis pertence a uma linha de cinema brasileiro que remete a duas outras produções reconhecidas, mas pouco exibidas: Um copo de cólera, de Aluízio Abranches, Filme de amor, de Júlio Bressane, e Eu sei que vou te amar, de Arnaldo Jabor. O filme de Acioli dialoga muito com o de Jabor. E, com Um copo de cólera, tem a semelhança de não abandonar a origem – no caso do filme de Aluízio, literária. Ainda há outras produções que merecem certo destaque como Amores, que marcou o retorno elogiado de Domingos Oliveira nos anos 1990, e O primeiro dia, de Walter Salles e Daniela Thomas.


Dira Paes e Fernando Eiras, os protagonistas do filme de Gustavo Acioli

Com estréia no Rio de Janeiro e em São Paulo programada para 10 de novembro e sem previsão de chegar às telinhas nordestinas (como sempre ocorre com filmes bons), “Incuráveis” enfrentará o gargalo da distribuição comercial em um ano especialmente difícil para o cinema brasileiro. Acioli vê no filme potencial para ir além do circuito alternativo de salas, mas reconhece que os mecanismos de produção brasileiros dificultam a performance de produções à margem dos multiplexes e sem amparo de empresas de divulgação como a Globo Filmes que domina a cena nacional. “É um sistema auto-condenatório. Há pouco dinheiro para publicidade, e esses filmes pequenos já nascem para um circuito determinado de antemão. Não dá para concorrer com a máquina de filmes norte-americanos. O problema é quando a mídia diz que a falta de público tem a ver com a má qualidade dos filmes”, observa o diretor em entrevista por e-mail. O filme será lançado com apenas cinco cópias. “Mas confio que, apesar de todas as dificuldades, o filme terá uma boa propaganda informal. Estamos distribuindo filipetas”, avisa. Faça-se uma campanha a favor de uma atípica love story e viva o pseudo-cinemão nacional.

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Superman, O Retorno | Brian Synger
Julho 16, 2006, 2:08 pm
Arquivado em: Cinema, Crítica-Cinema, Floro, Superman


O MAIOR HERÓI DA TERRA PROTAGONIZA DRAMA FASHION
por Calvin Curtis

SUPERMAN – O RETORNO
dir: Bryan Singer [EUA, 2006]
A manchete pode ser um tanto taxativa, mas é precisa poucos minutos para se constatar: Superman – O Retorno exagerou no drama. O filme é um dramalhão estrelado por um super-herói. Sim, temos cenas espetaculares, como a sequência em que o Superman salva um avião em queda livre e o pousa num campo de futebol, outra em que após uma luta contra Luthor leva ao espaço uma montanha de cristal e Kryptonita. Mas o mote do filme é a relação entre Lois Lane (Kate Bosworth) e o amor platônico que a jornalista nutre pelo homem de aço (estrelado pelo novato Brandon Routh). Depois de cinco anos longe da terra, quando partiu em busca de seu planeta natal, Krypton, o Superman retorna e encontra Lois Lane casada e com um filho de…. 5 anos! (Desculpem se estraguei alguma coisa). Ela irá receber um Pulitzer por uma matéria “Por que o mundo não precisa do Superman”. Após o seu retorno terá que lidar com seus sentimentos em relação ao heroi de capa e seu marido Richard White (James Marsdem, o Ciclope de X-Men, mais uma vez se dando mal em triângulos amorosos) Lex Luthor, interpretado por Kevin Spacey, também retornou e planeja destruir o mundo, matando bilhões de pessoas, um mundo que em sua mente insana, merece morrer por ser tão caro ao Superman. Spacey fez um ótimo trabalho como Luthor. Conseguiu mesclar o tom camp e irônico dos filmes de Richard Donner da década de 70 com um ser inescrupuloso e sádico dos quadrinhos. Tirando ele, todos os outros personagens coadjuvantes são dispensáveis e desinteressantes. O próprio Superman não se importa muito com Luthor, por que ele está mais preocupado em saber mais sobre os atuais sentimentos de Lois, chegando ao ponto de usar a visão de raios-x para bisbilhotar a vida da moça. É certo que a relação entre os dois jornalistas do Planeta Diário (Lois e Clark) sempre foi um elemento de muita importância na história do Superman, mas o diretor Brian Synger achou que deveria fazer desse elemento o cerne principal de seu longa. E houve muitos excessos. Tantos excessos que culminou em várias falhas na própria narrativa e cenas um tanto ingênuas e/ou melosas, como por exemplo o fato do Superman estar em coma e Lois ir até lá beija-lo e forçar o despertar do herói. Não bastasse esse take “Bela Adormecida”, na mesma cena vemos o uniforme do herói ao lado. Quando chegou ao hospital, os médicos rapidamente rasgaram a roupa para e o colocaram na mesa de cirurgia. Sim, a mesma roupa que suporta entradas na atmosfera, balas de metralhadora e altas temperaturas. Na cena em que Lois vai até o quarto do hospital, a roupa já está refeita e o Superman foge com ela. Novinha! Um dos filmes mais esperados deste novo século, o retorno do Superman inicia uma franquia que continua a série de tv Lois & Clark (no Brasil, As Novas Aventuras do Superman), onde o Superman e suas aventuras eram menos importantes do que a relação entre ele e Lois. Se pelo roteiro, talvez, Superman – O Retorno não tenha sido feliz, fazendo um dramalhão pop com cenas de ação, por outro reviveu o espetáculo que é o homem-de-aço. As cenas com o Superman em ação são magistrais e provam o quanto é possível, hoje em dia, tornar verossímel um homem voar. Brandom Routh também está perfeito
como Superman, do queixo quadrado ao penteado. Sua interpretação é tão bem executada que nos leva a entender o por que Lois, nem ninguém, ainda descobriu que Clark Kent, repórter do Planeta Diário é o Superman por debaixo daqueles óculos. Routh consegue modelar duas personas bem distintas, o que mostra um Superman que esconde sua real identidade e não um Clark que possui um alter-ego poderoso. As personalidades bem delimitadas do Superman e de Clark estava certamente no roteiro, mas construí-lo com tamanha eficácia foi uma façanha de Routh. O novo uniforme do Super é glam, uma mistura do estilo da Era de Prata e da mini-série Reino do Amanhã. Outra referência interessante é a homenagem que Synger faz ao longa original de 1974, conservando a música tema e a abertura em estilo retrô. Superman – O Retorno foi um projeto bem pensado, com vários elementos que retoma o personagem para o top das adaptações das hqs para o cinema. O diretor Bryan Singer deu o sangue e muito do mérito do filme é seu. Poderia ter se tornado um clássico inconteste, moderno e elegante, mas imprimiu no herói uma dramaticidade afetada, gratuita, ao explorar sem muito êxito a relação amorosa com Lois. Mas ainda assim, o seu retorno é um dos maiores espetáculos da Terra.
NOTA::6,5