O Grito!


Arcade Fire | Neon Bible
Abril 9, 2007, 8:38 pm
Arquivado em: Arcade Fire, Crítica-Música, Mandelli, Música

A BENÇÃO ALTERNATIVA
Nova bíblia musical do Arcade Fire leva a banda para caminhos sombrios e obscuros
por Mariana Mandelli

Quando a expectativa é demais o fã desconfia. O que justifica o assustador hype em cima do novo trabalho dos canadenses do Arcade Fire é justamente a solidez encantadora do primeiro álbum, Funeral (2004). É sempre difícil superar um grande feito, ainda mais nesse concorrido mercado musical pós-moderno em que vivemos, com dezenas de bandas boas pipocando a cada semana.

O sucesso de Funeral levou a banda, liderada por Win Butler, aos primeiros lugares das listas de melhores álbuns de 2004. O disco, peculiarmente impecável, tornou-se uma obra-prima indie consagrada no mundo inteiro, tornando o Arcade Fire um dos grupos mais queridinhos e amados do universo do rock alternativo – quem compareceu a uma das apresentações brasileiras da banda, no TIM Festival de 2005, sabe do frisson que a força musical e a presença de palco dos integrantes causam no público.

Todo esse clima de adoração messiânica em torno do Arcade Fire acabou gerando as mais diversas expectativas para o segundo trabalho – ainda mais depois que foi anunciado que a banda havia transformado uma igreja em seu estúdio de gravação, em Montreal, na busca por uma melhor acústica.

Eis que, após um período de quase três anos e tanto falatório especulativo, Neon Bible chega para acalmar os ânimos dos fãs devotos, que ansiavam sedentos pelo álbum. E é justamente neste ponto que a coisa se enrola: Neon Bible não vem para tranqüilizar ninguém. Muito – mas muito mesmo – pelo contrário: o clima espiritualmente denso do disco cria um espectro de essência lúgubre e melancólica no ouvinte. E isso não é uma crítica negativa. O novo álbum não é mais nem menos do mesmo – quem estava esperando algo muito parecido com a atmosfera de “Funeral” pode se assustar à primeira “ouvida”. A diferença é que Neon Bible é mais complexo e mais difícil de digerir de uma vez do que seu antecessor (afinal, convenhamos, foi bem difícil não se apaixonar logo de cara por Funeral).

Para os ouvintes desavisados, as canções da nova obra do Arcade Fire não parecem conter a mesma coesão que Funeral, álbum quase conceitual que soa como uma única música. Mas basta ouvir Neon Bible duas ou três vezes para absorver suas canções, deixando-se levar pela musicalidade carregada e desconsoladora que a banda propõe. Faixa após faixa, o que se percebe é uma evolução de sonoridade complexa que alterna tons de pessimismo e otimismo, consternação e empolgação. É interessante perceber esse grande paradoxo que acompanha a obra da banda: canções extremamente vivas que falam de morte, dor, perda, tristeza. Trabalhar essa antítese espiritual talvez seja o segredo do trabalho do Arcade Fire, que já conquistou David Bowie, David Byrne, Bono Vox e todos nós, pobres mortais, devotos da incrível fantasia musical.

ARCADE FIRE
Neon Bible

[Merge Records, 2007]

Neon Bible afirma a identidade sonora do Arcade Fire: além do universo explorado nas letras ser quase comum a Funeral, a instrumentalidade complexa e original que conquistou o mundo está presente nas onze canções do álbum. Coro de vozes tristes, órgão, violino, acordeon, guitarra, baixo, bateria, percussão, xilofone, piano, teclado, viola, violoncelo, harpa, sanfona, sintetizadores e mais outros elementos musicais, que tornam a obra dos canadenses tão especial, reforçam o jeito de culto ecumênico do disco.

As canções de “Neon Bible” destilam o infortúnio da existência humana, demonstrando as desventuras da alma condenada a viver presa dentro de si mesma. Essas reflexões parecem explicar também os caminhos que a humanidade percorre; trajetórias que levam a um destino soturno e fantasmagórico. Algumas faixas demonstram bem isso: “Black Mirror” abre o álbum soando taciturna, com um ar de trilha de filme de terror ou de alguma animação macabra de Tim Burton. Já “Keep the Car Running” é, precisamente, a que mais evoca a estética musical deliciosa e empolgante de Funeral. “Intervention”, com seu clima cristão, traz um órgão marcante. Já “No Cars Go”, “macaca velha” para quem é fã da banda, volta repaginada e ainda mais emocionante.

Enfim, “Neon Bible” funciona como uma espécie de missa póstuma para este mundo genocida em que vivemos. É um álbum imerso numa atmosfera taciturna e apocalíptica, carregando um sentimento perene de luto – assim como caminha a humanidade. Amém.

Nota: 9,0



O Apurado Parte Um

O APURADO [Parte Um]
Por Paulo Floro

Muita coisa aconteceu no furacão pop este ano. E para não perder o rumo, O GRITO faz agora um recall do que rolou até agora. Elaboramos uma lista de música que você PRECISA ouvir para entender o panorama rock-pop por enquanto. E continua…

BLUE AFTERNOON :: Angel
Formado por uma só pessoa, o bastante para ser completo, acredite, o Blue Afternoon é Guilherme Barella responsável pela loja Peligro e o zine 4 Hearts in A Can. Inspirado pelo folk inglês e ecos de Bob Dylan, o grupo é uma experiência impar da música brasileira. No fundo, uma visão particular de um grande artista sobre a música americana dos anos 50, 60. Lançado pelo selo Bizarre, o disco Foxploitation é uma grata surpresa que precisa ser descoberta.

BLOC PARTY :: Helicopter
Foi uma evolução grata e obvia. Primeiro veio o Franz Ferdinand, agora o Bloc Party, com seu starman Keke Okereke, a despontar no cenário new-rock atual. Não tão elegante quanto o Franz, o Bloc Party são os “essenciais” do momento. Misturando The Cure, Gang Of Four e com hits básicos com Banquet tirados do disco de estréia Silent Alarm, o Bloc Party são a representação máxima do cool hoje.

KILLERS :: Jenny Was A Friend Of Mine
Primeiros a despontar na re-invenção oitentista que aconteceu o rock este ano, os americanos do The Killers trouxeram uma fabrica de hits no excelente disco Hot Fuss. É incrível que toda essa euforia glam venha de Las Vegas, visto que o Killers bebe (e muito) de fontes brit com The Jam e New Order. Considerando a revelação do rock em 2004, a banda já se apresentou em megaeventos como o Coachela e Glastonbury como megastars. Seus clipes esborram referências de moda e estilo, como o vocalista Brandon Flowers fazendo às vezes de generation-icon. Escute também Mr. Brightside, Somebody Told Me e não fique por fora.

GORILLAZ :: Dare
Damon voltou ao estúdio como um desenho animado após um disco elogiado junto com a sua antiga banda, o Blur (Think Tank) para a continuação do projeto Gorillaz. Cada vez mais, o Gorillaz se desvencilha de comparações com seus artistas de carne e se firma como um projeto de sucesso, que mistura referências pop do cinema, música, tecnologia e quadrinhos. No segundo álbum Demon Days, a banda se aventura em temas disco como a faixa Dare e parcerias de luxo como Ike Turner. Tudo sem esquecer a mistureba quase squizo que fez o Gorillaz ser tão divertido: rock-hipho-groove, eletrônica e que o mais vier.

ARCADE FIRE :: Cold Wind
Tirado do ainda não lançado novo disco dos canadenses, esta entrou para a trilha do seriado Six Feet Under (A Sete Palmos). Imbatíveis no palco, perfeitos em estúdio, o octeto canadense é uma das melhores coisas que já aconteceu no rock nos últimos tempos. Com um som que beira o indescritível, usam de guitarras a sanfonas, além de vocal feminino. Como fazem um som muito diferente do que vinha sendo feito, muito críticos consideram que o Arcade Fire inaugurou a música pop da década 00.

DUNGEN :: Panda
Gustav Ejstes é sueco e multinstrumentista. Sua banda, o Dungen decidiu se desvencilhar das amarras pop e criar um som experimental, que mistura psicodélica com acid-jazz. Além disso, todas as músicas são cantadas em sua língua natal. Ta Det Lungnt foi aclamado como o Pet Sounds da geração Soulseek. A banda esteve no Brasil para uma apresentação no Festival No Ar e no Campari Festival.

THE KILLS :: The Good Ones
O rock está sempre a precisar de gritos e transgressões. Formado por VV e Hotel, a banda anglo-americana, The Kills traduz ao extremo o obvio do rock. O grupo usa guitarras e algumas bases pré-programadas. Além disso, nunca se viu uma performance ao vivo tão pesada e estonteante como o The Kills. Não ultimamente. O hit The Good Ones, tirado do disco No Wow, mostra o quanto o grupo é certeiro para o movimento: estilo, estética e atitude rock. O típico grupo que faz a festa de fotógrafos e hypados.

CANSEI DE SER SEXY :: Meeting Paris Hilton
O coletivo paulista Cansei de Ser Sexy, é a coisa mais moderna hoje na música brasileira. Como bonecas de luxo, as vocais poser-trash do grupo abusam da estética eletro-porno-punk, misturando eletroclash com new-wave. Sem disco lançado já tocaram no Tim Festival, são trilha de seriado norte-americano e tornaram o hype do ano aqui no Brasil. A banda começou, mesmo sem uma música ensaiada, no fotolog da vocalista Lovefoxx em 2004. Outros hits: “A-la-la” e “Hollywood”.

BABYSHAMBLES :: Fuck Forever
Depois de transformar sua antiga banda, o Libertines numa lenda como o Stone Roses, Pete Doherty, o charming man, ícone-mor do rock atual, idealização perfeita do que se espera de um dândi britânico, formou o Babyshambles, depois de ser “expulso” do seu excesso de… Tudo! Excesso para Doherty é o mínimo. Depois de roubar a própria banda quatro vezes para se afundar em crack, se isolar no Camboja para tratamento, ter brigas homéricas com sua namorada Kate Moss, ter apresentações proibidas no Reino Unido, ser capa da Vanity Fair, perder tudo em cocaína, Pete não precisava de muito para ser ícone, lenda, star.

THE BRAVERY :: Honest Mistake
Adentro a onda do retrô-rock. Com muito couro, o The Bravery se utiliza da velharia new-wave com clichês à medida. Imagine se pudéssemos reinventar o rock oitentista. Isso só não aconteceu com o The Bravery por que a banda conseguiu ser muito mais além disso. Muito mais do que uma simples banda de neo-new wave, o grupo é múltiplo, multimídia. O vocalista Sam Endicott, também é diretor, fotografo e produtor da banda.