Olivia Under The Moon
[Montalban Hotel ,2006]

Os californianos do Pistolita fincaram o pé na adolescência. E está sendo duro sair. Para muitos uma das revelações do rock norte-americano, esta banda de Portland, está interessada num som que lembra muito o punk-rock ensolarado do fim dos anos 1990.
Eles não fariam feio num festival que tivesse Simple Plan, My Chemical Romance, Green Day, Blink 182, mas ao invés disso é vendido como umas das bandas indies mais legais deste ano. Vai entender… Mais do que discutir estratérgias mercadológicas ou o falso gosto alternativo, Pistolita mostra uma série de canções bem produzidas e interessantes no seu disco de estréia. “Age” lembra um bando de garotos tentando imitar o At The Drive-In. “Metronome” é o máximo da experimentação que as Pistolititas podem chegar. Acertam mesmo quando vão no básico “Big Shot” e “Papercut”. Por que essas coisas legais não tocam no Disk MTV? [Paulo Floro]
NOTA:: 7,0
THE THERMALS
The Body The Blood The Machine
[Sub Pop, 2006]
Hype, hype, hype, hype. Parece que este é o ano da gravadora sub pop.
Depois de causar comoção com o CSS, agora tenta fazer o mesmo alvoroço com o The Thermals. E nem precisa. A banda é uma explosão. Mesmo tendo sido formado em 2002 em Portland, Oregon, o The Thermals só esse ano conseguiu um contrato com uma das gravadoras mais cool dos Estados Unidos e esta decidiu vestir de hype o grupo. E o mais importante, eles conseguiram fazer sucesso no cenário alternativo dos EUA vendendo discos, sim, aquele velho formato feito de plástico e redondo. Apesar de não haver nada no som do Thermals que legitime uma exposição dessas, a banda até manda algumas faixas legais, no seu som que mistura resquícios de punk-rock com R.E.M., como “An Ear For baby” e “Pillar The Salt” que merece ser hit em festas rockeiras. [Paulo Floro]
NOTA:: 7,0
THE BLOOD BROTHERS
Young Machetes
[V2, 2006]
O chamado art-punk parece ter sido colocado à prova novamente com o Blood Brothers. Mas Young Machetes parece não querer dialogar com nada.
Se trata de músicas pesadas, furiosas, por isso talvez o termo art-punk, art-rock, experimental noise e afins não faça muito sentido. Originais de Eastside, nos arredores de Seattle, conseguiram que o Fugazi, Guy Piccioto produzisse o disco. Este é o registro mais pesado de 2006. E um discos mais legais também. “You´re The Dream, Unicorn” é a mais nervosa, com vocais gritando sobre uma guitarra aceleradíssima. Até quando acalma, o disco não perdoa; “Spit Shine Your Black Clouds” é o registro do fim da calmaria que começa a tomar conta de Seattle mais uma vez. [Paulo Floro]
NOTA:: 8,0
EU SOU A DOENÇA
Os quadrinhos de Suehiro Maruo foram feitos para dar um nó em tudo. Até no estômago
por Paulo Floro
Maruo tinha quinze anos quando foi expulso da escola. Dizem que praticava pequenos furtos e alguns afirmam que tinha passagens pela polícia. Em Tóquio, tentou fazer aquilo em que achava que era bom: desenhar. Aos 17 anos enviou sua primeira história para a revista Shonem Jump, que entre outras coisas já publicou Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball. Com forte conteúdo erótico e muita violência, a curta narrativa de sexo e sangue foi rejeitada. A alternativa de Maruo foi publicar seus desenhos em revistas de putaria mesmo. Mas apenas pessoas com sérios problemas se masturbariam com as propostas doentias e escatológicas de Suehiro e ele foi mais uma vez dispensado. Demorou muito tempo para o público descobrir o autor com um dos mais importantes renovadores do manga japonês, e que seu lugar não era na grande mídia nem nas revistas pornôs, e sim na vanguarda dos quadrinhos de arte.
Nascido em 1956, Suehiro Maruo é um dos mais inventivos autores de quadrinhos japoneses (mangaka, ou gekika para autores adultos). Atualmente, suas pinturas e artes originais são disputadas em leilões e sua obra é objeto de culto, sobretudo na Europa. Aos 24 anos, lançou de fato sua primeira obra, mas sua bibliografia ainda é rara fora do japão. Mas cada vez mais, encontramos suas crias, sobretudo na Alemanha e Estados Unidos. No Brasil, a Conrad já publicou três livros, sem se preocupar com a ordem cronológica, O Vampiro que Ri, Ero-Guro e Paraíso. Conhecido como Marques de Sade das hq´s, a obra de Maruo se baseia na exploração do grotesco. Em sua obra, a patologia encontra o prazer, e aquilo que causa mais medo é também o que traz o maior desejo.
OLHAR FORTE
É preciso ter estômago e nervos fortes para se adentrar na obra de Suehiro Maruo. Em suas páginas encontramos Sade, Lautreamont, Crumb, Marx, Burroughs, Vaneigem, Hakin Bey, Sieber, Pasolini, Bataille e Buñel. Todos eles, como Maruo convivem bem com aquilo que nos incomoda. E é essa a intenção. Nada é fácil, tudo é doente. O cerne da obra deste mangaka, certamente é a pornografia e os tabus sexuais, usados aqui como forma de provocação política. Outra é o extremo realismo; não há lugar para olhos grandes, cabelos coloridos e magia nas histórias. O que podemos ver também é um surrealismo que se confunde com as desconcertantes cenas de estupro, coprofilia, violência, o que levou jornalistas europeus a criarem o termo “suehirismo”. Estaria a percepção de Maruo difusa ou ele apenas vê o que o mundo nos esconde? Ero-Guro, seu livro mais conhecido, é na verdade uma das promissoras correntes artísticas dos quadrinhos japoneses, que visam analisar o mundo através do prisma da imoralidade. Assim como as pessoas saíam do cinema ao ver o olho cortado de Buñuel ou fechavam o livro incomodados com a frieza sexual de Sade ou se sentiam péssimas ao dormir quando liam os Cantos de Maldoror de Lautreamont, poucos com os nervos de aço terão estômago suficiente para encarar a aventura estética dos livros de Maruo. A filosofia de que o prazer e o horror estão bastante próximos é baseado no pensamento do francês Georges Bataille. E o horror é o combustível da obra de Suehiro Maruo. Seu estilo ainda é mais controverso ao utilizar um traço bastante simples que se assemelha à Ozamu Tezuka, grande desenhista de mangas inofensivos como A Princesa e o Cavaleiro. Também abusa dos detalhes, sem ser rebuscado, e utiliza o subjetivo nos quadros, ao mostrar a pureza sendo devastada por pênis totalmente pretos, em contraste com a pele branca e frágil das japonesas.
EM ALGUM LUGAR OBSCURO – AS OBRAS
O primeiro lançado pela Conrad, O Vampiro Que Ri conta a história do vampiro Kônosuki Môri, em seus primeiros dias de almadiçoado. Uma velha conhecida como “A Corcunda” narra sua vida até o dia em que se tornou uma vampira. A cena que Môri recebe o sangue da velha como alimento é o ponto alto do livro. Nesta obra, Maruo se utiliza do conhecido visual das colegiais japonesas, tão utilizados em shojos para meninas, para mostrar uma sociedade que esconde uma brutalidade imoral tamanha. Garotas do colégio se prostituem para velhos pervertidos, dois garotos espancam um mendigo, enquanto outro coleciona artigos de jornais com seus crimes.
O segundo livro, lançado no fim de 2005, Ero-Guro é a expressão máxima da obra deste autor. Basicamente se trata de nove histórias com o que há de mais perverso no pensamento humano. O que dizer de um autor que inventa um personagem chamado de Garoto da Latrina, que tendo sido abandonado pela mãe dentro de uma latrina coletiva, cresceu neste ambiente e vive a praticar atos sádicos enquanto as pessoas estão fazendo necessidades fisiológicas. “O Grande Masturador”, baseado num quadro de Salvador Dalí, é o máximo que o surrealismo pode atingir no tema grotesco. Outras formas de perversão tomam o livro, como incesto, estupro, violência, sexo com velhas, coprofilia (sexo com fezes). Aparentemente gratuitas, estas imagens tem como intuito aguçar a emoção estética do leitor. É neste livro que Maruo exercita sua predileção pelo período histórico do pós-guerra, na última e maior história “A Cidade que Sucumbe”, onde um anão, ex-ator de filmes pornôs, pratica canibalismo e tenta assediar uma jovem mãe a casar com ele. Nunca os quadrinhos foram tão desconcertantes. Um clássico absoluto.
Pra completar a biblioteca lançada no Brasil, este ano a Conrad colocou nas livrarias Paraíso, o Sorriso do Vampiro. Apesar de não ter o mesmo impacto que Ero-Guro, trata-se da continuação de O Vampiro que Ri, com praticamente os mesmos personagens. A visão da juventude para Suehiro Maruo continua perversa, e ele continua a explorar a idéia do vampirismo como fuga da normalidade, já que na teoria, todo vampiro pode se entregar aos desejos mais sórdidos sem culpa.
O desafio de ler Suehiro Maruo vai além da simples curiosidade pela esquisitice, reforça um senso estético que o mercado de quadrinhos (sobretudo no Brasil) passou a levar em conta ao apostar em títulos e autores que diversificam a Arte Sequencial. Maruo é o mestre num dos movimentos artísticos mais corajosos a surgir no Japão. Nunca foi fácil entender os mais sórdidos temores da natureza humana. E Suehiro Maruo tem a resposta.
Site oficial: http://www.maruojigoku.com/
Outras imagens produzidas por Suehiro Maru: 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15.
This Harness Can´t Ride Anything
[Suicide Squeeze, 2006]
Uma voz embolada, um guitarra tímida descolando um solo, efeitos discretos. Sim, esta é mais uma banda de indie-pop. Formada em Chicago em 2001, o Chin Up Chin Up (os nomes estão cada vez mais absurdos), já excursionaram com o Broken Social Scene e parecem que irão deslanchar para o primeiro time das bandas indies americanas.
Sim, parece. Mas enquanto isso não acontece, curtamos o som, perdido entre Pixies e Snow Patrol. Este disco aparentemente é irrepreensível. Todas as suas faixas são fofas ao ponto de entreter qualquer fã menos exigente de rock. Se eu pudesse citar uma única característica do disco, é que eles não são chatos em nenhum momento. Enquanto eles precisam rezar para descolarem algum comercial para serem trilhas, podemos curtir as inofensivas “I Need A Friend With A Boat” e “Mansioned”. Se escolher apenas uma para guardar na memória, fique com “Landlocked Lifeguards”. Aconselho anotar o nome do disco num papel para não esquecer. [Paulo Floro]
NOTA:: 7,5
THE THERMALS
The Body The Blood The Machine
[Sub Pop, 2006]
Hype, hype, hype, hype. Parece que este é o ano da gravadora sub pop.
Depois de causar comoção com o CSS, agora tenta fazer o mesmo alvoroço com o The Thermals. E nem precisa. A banda é uma explosão. Mesmo tendo sido formado em 2002 em Portland, Oregon, o The Thermals só esse ano conseguiu um contrato com uma das gravadoras mais cool dos Estados Unidos e esta decidiu vestir de hype o grupo. E o mais importante, eles conseguiram fazer sucesso no cenário alternativo dos EUA vendendo discos, sim, aquele velho formato feito de plástico e redondo. Apesar de não haver nada no som do Thermals que legitime uma exposição dessas, a banda até manda algumas faixas legais, no seu som que mistura resquícios de punk-rock com R.E.M., como “An Ear For baby” e “Pillar The Salt” que merece ser hit em festas rockeiras. [Paulo Floro]
NOTA:: 7,0
LONG BLONDES
Someone To Drive Your Home
[Rough Trade, 2006]
Lançado este mês na Inglaterra e ainda inédito nos Estados Unidos, o Long Blondes revive o glam e o rock dançante ganha mais um reforço. O espírito punk com sua verve mais gay parece retornar com tudo. Talvez por isso vemos com tanta frequência as cores berrantes voltando à tona. Formado em Sheffield, tem as cabeças voltadas para a era glam do rock, como New York Dolls, Blondie, Slade, além de Buzzcocks e Ramones. O Long Blondes pegou o mundo desprevenido. Seu disco é pensado para divertir do início ao fim, leva esta retomada da new-wave ao seu patamar mais criativo e original até agora. A vocalista Kate Jackson abusa nas produções e tem pinta suficiente para trocar figurinhas com Karen O..
Ela é hit entre as meninas descoladas do Reino Unido, que imitam seu penteado, suas roupas. “Giddy Stratospheres”, o grande hit, mostra que não precisamos de uma nova Chrisie Hynde mas Kate é o que temos e estamos com sorte. Este é fácil um dos melhores discos do ano, e recorro a este clichê pelo fato de cada faixa de Someonde To Drive You Home ser única, agregar vários referências de uns 35 anos de rockenróu. Poderia citar todas as faixas do disco e contar os inúmeros detalhes que fazem deste disco uma grande obra. “Only Lovers Left Alive”, “Heaven Help The New Girl”, “You Could Have Both”. Escrever resenhas de obras em que o termo cool se esgota é muito difícil. [Paulo Floro]
NOTA:: 9,0
VOLVENDO CON ALMODÓVAR
Volver é o novo Almodóvar, que com voltas e voltas, arruma sua galeria de signos.
por Rafaella Ordella
VOLVER Pedro Almodóvar
[Espanha, 2006]
“Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Esse petardo de Tolstói abre o livro Anna Karenina como uma sentença triste, porém absolutamente verdadeira que nos atinge de maneira irreversível. Ninguém escapa dessa premissa,seja uma família da aristocracia russa do século 19 ou uma família espanhola das últimas décadas.
Volver, a mais recente película de Pedro Almodóvar, é uma fábula moderna e lírica, bonita como poucas incursões nesse tema. Almodóvar pode estar mais sóbrio nas cores, mas sua exuberância está estampada ora nas atuações precisas (precisa talvez seja um termo racional demais…) ora pairando como na metáfora do vento que enlouquece, leva e traz as pessoas de volta ao vilarejo de origem. Sua mão está no roteiro, que serpenteia como muitas vidas fantásticas de pessoas reais (será que os outros continentes dividem conosco a intensidade dos sentimentos?). Está nas atuações à flor da pele, pungentes, cheirando à pimenta vermelha que Penélope Cruz usa pra alimentar um batalhão de gente.

Boca de se fuder: Almodóvar ainda é o melhor no retrato da inquietude feminina.
Sua marca registrada, criar a comoção da identificação, permeia uma narrativa brilhante, nada óbvia como sugerem aqueles que confundem estilo com repetição,pelo contrário. É um talento se reiventar em histórias similares e distintas ao mesmo tempo…Volver é único, ainda que remeta a obras anteriores. Poucos falaram de família desse jeito antes, tocando em temas recorrentes mas sugerindo uma abordagem tão afetuosa. As mulheres já receberam o carinho do diretor em forma de filme ao longo de sua obra, e o maior mérito desse trabalho é reafirmar a força do sexo feminino, nas relações entre si e nas sagas familiares.
Aqui, um ar de Garcia Márquez contemporâneo, a dar outra perspetiva do quão mágicas podem ser as trajetórias das pessoas. Nada há de terra-à-terra no universo de quem guarda segredos por décadas, quem vive à sombra do amor de quem ama, quem abre mão da própria vida para cuidar dos seus.
Carmen Maura reconciliou-se com seu habitat natural, na persona de uma matriarca nada previsível, ainda que doce e forte em momentos alternados. Superou em muito a avó firme e divertida de “Valentim”. Volver marca voltas ainda mais simbólicas, o resgate do passado daquele menino excêntrico que saiu da cidade de Mancha pro mundo e no entanto hoje retrata suas impressões de povoados folclóricos, místicos e pessoas extraordinárias que estão sob a pele de mães, filhas, avós, vizinhas. Sem que ninguém desconfie.
NOTA:: 10
SANTA SURDEZ, PETE!
Por João Paulo Vasconcelos

Uma bela oportunidade de ficar calado, o Who neste novo disco fez uma caca vergonhosa.
The Who
Endless Wire
[Republic/Universal, 2006]
Se formos desprezar a vacina que alguns críticos insistem em aplicar aos artistas e aos grupos veteranos – a vacina que ignora jargões como “a banda ‘X’ não precisa provar mais nada a ninguém” e garantem frases do tipo “um disco fraco dos vovôs valem mais que os novos álbuns das bandas da atualidade elevados à potência de ‘n’ – boa parte dos reis que existem no mundo ficam nus. E é difícil não esconder a frustração quando se houve aquela banda que preferiu ficar velha (no mau sentido) antes de morrer, contrariando o pacto firmado faz pouco mais de quarenta anos. Depois de alcançar todo o seu ápice criativo no duplo Quadrophenia [1973], ficou óbvio o quão seria difícil para o Who fazer um outro disco de marca máxima, que pudesse competir com os antecessores. Vieram em seguida os álbuns mais fracos do grupo nos anos 70, The Who by numbers [1976] e Who are you? [1978], a morte do baterista Keith Moon, a agravação da dependência química de Pete Townshend, dois trabalhos nos anos 80 que acabaram no limbo (Face dances e It’s hard), o falecimento do baixista e virtuose John Entwistle… O novo trabalho veio não a aprofundar o buraco, mas a mostrar que a banda – ou o que sobrou dela, para ser mais justo com seu nome curto, mas de impacto – ainda está lá.
O EP que precedeu o lançamento de Endless wire, Wire & glass (uma mini-ópera que Townshend elaborou), deixou um parecer enganoso – que o Who estaria vindo com um trabalho com cheio de punch. São o inverso dos arrastados singles inéditos da coletânea Them and now, de 2004 (as faixas “Old red wine” e “Real good looking boy”). As seis faixas elencadas do EP aparecem em Endless wire. Precisa-se de frieza para analisar tal disco: é o primeiro CD de inéditas do Who desde 1982. Townshend e Roger Daltrey (que, gracias, ainda consegue cantar bem, mesmo que dê uma ou outra escorregada) já passaram dos sessenta. Não poderia se esperar muita coisa, mas… Faz sentido o lançamento de um novo disco do Who, assim comos os pulos (demasiadamente idiotas) de Pete, em pleno 2006? Por que não dormir a saber do reconhecimento que os fãs e os bons amantes do rock têm de sua obra em décadas passadas?
Na tentativa (desesperada, quem sabe) de querer firmar um novo clássico, surge a primeira faixa. “Fragments” (e sua versão encurtada, a “Fragments of fragments”) já remete a “Baba O’Riley” pelos teclados na abertura, a estabelecer um link cuja distância são exatos 35 anos. Soa desnecessária, pois falta-lhe a capacidade de emocionar o ouvinte, como o tema de abertura do álbum Who’s next, de 1971. Nada de extraordinário desta até a nona faixa, tempo que se perde em rocks exaustos (“Mike Post Theme”, “It’s not enough”) e baladas feitas sem cuidado (“In the ether”, cantada com um sacarsmo dispensável e melodia com aspecto de rascunho – é, de fato, uma faixa não passada a limpo) ou com a função de tapa-buracos, como os momentos solitários de Townshend. “Good speaks of Marty Robbins”, com ele na dobradinha voz/violão, tem a sua beleza. Talvez a única canção que se sobressai nessa primeira metade de CD, junta do hard-folk “Black Widow’s eyes”.
E a ópera-rock se inicia na décima faixa. São essas músicas, de estruturas semelhante às de vinhetas (a maioria delas dura pouco mais de um minuto – exceção feita à “Mirror door”, com quatro minutos e catorze segundos) que salvam o disco de uma grande ruína. A já citada “Mirror door” é paixão declarada à arte que os dois se dedicaram. Acompanha a mensagem da letra uma série de citações a nomes que, mesmo com a distância que seus gêneros propiciam, estão juntos em outro plano: Curtis Mayfield, Elvis Presley, Wolfang Amadeus Mozart…
Um encontro sob os apalusos da platéia, cortesia de samplers. “Sound round”, “Pick up the peace” (a melhor das canções curtas), a faixa-título, “We got a hit” e o blues estradeiro “They made my dreams come true” fecham o bloco conceitual. Um encerramento da forma mais amena para um disco que nasceu sem brilho. Resta esperar que a passagem da banda pelo Brasil no próximo ano seja digna.
NOTA:: 4,0
TURN INTO
COBERTURA TIM FESTIVAL 2006
O Grito foi conferir o maior festival de música do país.
por Paulo Floro
TOM BRASIL – SÃO PAULO – SP
29.10.2006
Muitos espaços vazios na edição paulistana do maior festival de música pop do país. O TIM FESTIVAL 2006 em São Paulo não teve um público tão grande quanto o do ano passado e mesmo com Karen O e Daft Punk no cast, fez uma edição meio morna. Rostos blasé, all-stars, finzinho de tarde, ih, quase me esqueço que este era um dos eventos indies mais falados.
REINO DA ALEGRIA
O Mombojó fez um show ok, mas no início, muita gente não se empolgou a nem mesmo levantar-se do chão para curtir o show dos pernambucanos. Com sua aposta off-mangue cada vez mais adentrando em novas paragens musicais (como o dub e o samba), o grupo fez bonito em seus 40 minutos, sendo que seus shows carecem de uma renovação. O ponto alto foi o final, e isso não é sarcasmo gratuito, pois foi esse o momento de maior interação com o público, que cantava, feliz da vida, o refrão de “Deixe-se Acreditar”, o hit do grupo.

A melhor banda de nova-iorque agradou até os nipônicos da grande metrópole.
Em seguida o TV ON THE RADIO, trouxe seu rock experimental para um público ainda apático. Negões de vocal afinado e guitarras pontiagudas, logo mostraram que se tratavam da maior banda de nova-iorque no momento. A banda arrasou com um show explosivo, meio catártico, que animou até mesmo quem não tinha ouvido uma única música do grupo. O TVOTR se pautou por faixas do excelente Return to the Cook Mountain lançado esse ano. “Province”, “Wolf Like Me” foram de arrepiar. À certa altura, o vocalista Tunde Adebimpe suado, gritando no megafone, lembrava que o show de sua banda é uma experiência que supera os sentidos normais. Pra completar o desbunde sonoro e espetacular, começou de uma hora pra outra, uma batucada, uma guitarrada e o que mais surgisse, que até o roadie, de camiseta cinza agarrou um instrumento e se jogou no som, que terminou o show de maneira quase-apoteótica. O cronômetro da organização do festival não permitia nem mesmo um bis. Pena, faltou cantar “Hours”, mas tudo bem.
Tentei desesperadamente achar um fã do THIEVERY CORPORATION, mas não obtive sucesso. Mas este é um festival de classe, e não há nada mais cult que essa dupla norte-americana que adora um sub-desenvolvimento. Ao fundo do palco, com pick-ups, comandavam uma festa de vocalistas brasileiras que gritavam: “isto aqui ta bom pra caralho”. Que fino. Muito suingue, bossa-eletrônico, o show parecia que estava enrolando, mas estavam mandando muito bem. O problema era a platéia com cara de “a Karen vai entrar quando?”. Fora isso o Thievery Corporation teve um pequeno atraso que fez o público chiar
Com o YEAH YEAH YEAHS prestes a começar, me meto quase na frente do palco. Cheiro de cannabis, água mineral servida num copo (disseram que mudou o patrocinador de última hora), fila interminável no banheiro dos homens (!) e a pista lotada. Karen entrou rodopiando. Ela é a Chrissie Hynde moderna e caótica. Ela é a Patti Smith demente. Com um sex-appeal bizarro, Karen transborda sexo, mas daquele tipo gonzo e pouco convencional. Todo trejeito seu era ovacionado pela platéia. Karen coloca uma capa, Karen coloca um pano no rosto, Karen se joga no chão, bate com o microfone na bateria, pula com um boneco jogado pela platéia, grita, faz careta, tudo é motivo para milhares de flashes e histerismo. Ela sabe do poder da sua imagem, ela parece posar para as fotos. Com um maiô e pernas laminadas brilhantes, Karen movimentou todo mundo e ocupou o palco inteiro, com seu espírito quase vomitando por cima das pessoas. De tão esfuziante, o show pareceu rápido. O YYY tocou basicamente músicas do disco Show Your Bones, deste ano e ainda hits anteriores como “Date With The Night”. Pararam um pouco para Karen gritar SAO PAULO!! e falar com a platéia. “This is the song about love” e coloca o microfone no coração. Não conheço uma empatia maior com uma platéia como foi visto neste rápido show do Yeah Yeah Yeahs. De fato, o ponto alto do show foi “Turn Into”, a balada que é o atual single de trabalho do grupo, mas “Gold Lion” com uma tensa introdução também foi espetacular. O guitarrista Nick Zinner ainda atravessou o palco de ponta a ponta para tirar fotos. Aquilo precisava mesmo ficar guardado. Assim como entrou Karen e o resto da banda sumiram ainda com bastante gás. Por fim, o baterista Brian Chase, sozinho agradeceu a platéia. De nada. Y-Control é isso aí. Yeah!
OFF THE EGO

Digital Love? A dupla mostrou que ele são tão humanos que fizeram o melhor espetáculo da noite.
Os franceses do Daft Punk remixaram o criativo conceito inventado pelo Kraftwerk trinta anos atrás, de uma maneira mais kitsch e óbvia. A máquina que sente, o andróide. O show do grupo foi espetacular no conceito, na estrutura, no som. Como robôs, estavam distantes e inacessíveis, mas assim como a tecnologia, eram parte das massas e sua música, a trilha sonora deste tempo onde tudo se revela cada vez mais rápido. O jogo de luz combinava com o repertório dos três discos do grupo francês, que abriram com “Robot Rock”, do último disco, Human After All. Thomas Bangalter e Guy Manuel-de-Homem Christo fizeram um show também curto, porém de uma catarse surpreendente. Eram a principal atração da noite. Uma enorme pirâmide quase adentrava o palco, no alto, dois robôs com capacetes espelhados comandavam um dos maiores espetáculos do planeta. Várias projeções se uniram ao som num efeito fabuloso, com uma parafernália tecnológica de som e luzes, que lembrava um pouco o Pink Floyd das arenas, so que menos cafona. De tão confiantes no que faziam, o Daft Punk desconstruiu o próprio repertório, com várias músicas sobrepostas. Podemos dizer, por exemplo, que “Around The World” tocou durante todo o set list. Com pouco mais de uma hora, o Daft Punk deixava o planeta mais uma vez. Finalizaram com “Human After All” com várias imagens de pessoas de diferentes etnias. O toque humano veio enfim. Animada, a platéia, que esperara um atraso de uma hora, ainda esperou uns 15 a 20 minutos na esperança que a cortina se abrisse novamente e o Daft Punk tocasse mais uma. Talvez “Digital Love”, era o palpite. Uma expressão de “o que foi aquilo?” e todos foram embora. O calor das máquinas estava no fim.
GRITOS SOBRE O TIM FESTIVAL 2006
- A edição paulistana do Festival foi um fracasso de público, mas no Rio e em Vitória a média de público também não foi muito boa. A principal reclamação era a escalação minguada em São Paulo, que não teve Beastie Boys, Patti Smith nem Devendra Banhart. Além disso, o ingresso era o mais caro, R$ 180 reais.
- No Rio de Janeiro, de última hora escalaram Caetano Veloso pra recuperar o prejuízo.
- Apesar das estripulias, da jogação, de loucura, da cusparada, Karen O. é muito tímida e os jornalistas ficam com cara de mamão perto dela, tamanha é a introspecção da moça.
- A organização alegou que a mudança de local do show para o Tom Brasil foi uma exigência do Daft Punk, que temia ter sua parafernália tecnológica danificada caso chovesse. Outros especulam que, dada a procura por ingressos, teríamos muitos espaços vazios no Anhembi.
- Especulação é uma merda. Antony and the Johnsons, Clap Your Hands Say Yeah, Goldfrapp e até Radiohead foram dados como certos nesta escalação do TIM Festival.
Veja vídeos do TV On The Radio, Daft Punk e Yeah Yeah Yeahs
. .. …
Acesse:
Mombojó: http://www.mombojo.com.br/
TV On The Radio: http://www.tvontheradio.com/
Thievery Corporation: http://www.thieverycorporation.com/
Yeah Yeah Yeahs: http://www.yeahyeahyeahs.com/
Daft Punk: http://www.daftpunk.com/
Tim Festival: http://www.timfestival.com.br/noticias/