O Grito!


Scissor Sisters | Tah-Dah
Outubro 25, 2006, 10:15 pm
Arquivado em: Crítica-Música, Fernando, Música, Scissor Sisters


De Electro a Disco. Luxo e carão é o que há.

MUITA OSTENTAÇÃO E POUCO VIRTUOSISMO
Sem camaleônismo Scissor Sisters lança álbum pouco original, mas faz a mais sisuda das platéias rebolar do começo ao fim.
por Fernando de Albuquerque

SCISSOR SISTERS
Tah-Dah
[Sony BMG, 2006]

O debut, com um álbum homônimo, foi em 2004 e causou um frisson irreparável nas principais pistas de dança do mundo. Ninguém passou incólume a hits como “Laura” ou mesmo o refrão “Take your Mama out of night”. E, passados dois anos, os nova-iorquinos (que foram adotados pelo melhor da cool britania) trazem ao público o Tah-Dah

O novo disco não traz nem um pouco de ousadia e diversidade do primeiro, pelo contrário, parece uma cópia. Mas carrega meia dúzia de canções muito boas. São baladas rock que lembram musicais alternativos dos idos anos 1970, como “The Rocky horror picture show” ou um climinha a lá Elton John. E com arranjos pouco convencionais, que soam como nada atualmente no pop. A trupe comandada por Jake Shears expressa sua identidade em canções como “Eveybody wants the same thing”, ou “Kiss Of you” puxada por Ana Matronic. Além disso, há a boa e velha dose de irreverência, classudismo e ousadia visual que marca tudo que é produzido por eles.

Apesar de não trazer nada de novo Tah Dah nega seu irmão mais velho com timbres bem calcados na disco, tendo na música pop o produto final. Esse trabalho traduz com mais força a marca da banda, que mesmo trazendo a temática gay, mostra que, com o teor irônico de algumas faixas, pode ser ouvido em qualquer hora e lugar.

“I Don’t Feel Like Dancin’”, o primeiro single, tem participação de Elton John no piano e exala um espírito tão grudento que já chegou a vender cerca de 45 mil downloads na Europa. Capaz de fazer o mais pudico dos senhores dar uma de John Travolta em plena fila do INSS.

Tah Dah é um disco que exige preparo. Pernas bem malhadas, resistência física, um look ultra-fashion e boa dose de gingado mesmo dentro do quarto. Jake Shears, é quem puxa a ótima “She’s My Man” e evoca o pop oitentista do qual todos nós somos filhos. “Might Tell You Tonight” é aquela típica balada bonitinha. Prefeita para momentos l’amour.

O clima fica mais chocante quando se houve o refrão, com um banjo ao fundo, de “I Can’t Decide”. “Não consigo decidir/ Se você deve viver ou morrer” faz com que qualquer pessoa se identifique e o repita à exaustão: God Save Scissor Sisters!

História – Os Scissor Sisters iniciaram suas atividades em 2003 e chegaram para conquistar os EUA e a Europa com um visual glam e “’Comfortably Numb” – uma versão para a música do Pink Floyd incluída no álbum de 1979, “The Wall” – na carteira.

O espanto inicial, proporcionado por tantas plumas e corpos sarados, deu lugar a uma rendição gradual ao som dançante e aos falsetes estridentes que se alimentam do melhor da cultura gay e da herança deixada por Elton John, Bee Gees, Supertramp ou David Bowie. E claro, com resultados cantaroláveis e muito coloridos. “Comfortably Numb”’, o lado B do primeiro single da banda foi recebido com entusiasmo pela crítica, sobretudo na Grã-Bretanha, onde a canção ganhou generoso airplay.

Com um contrato com a Polydor britânica no bolso, Jake Shears (Vocalista), Ana Matronic (vocalista), Babydaddy (teclas e baixo), Del Marquis (guitarra), Derek G (guitarra) e Paddy Boom (bateria) trocaram a grande maça pelo mundo promovendo seu primeiro trabalho, um longa-duração homônimo, com concertos onde a teatralidade e a exuberância garantiram falatório.

Ao longo de 2004, os Scissor Sisters, cujo nome é calão para sexo lésbico, atuaram junto de artistas como B-52’s e Duran Duran, fazendo a sua estréia mundial em Portugal no festival “Paredes de Coura”.

NOTA:: 10



O Diabo Veste Prada | David Frankel Altman
Outubro 25, 2006, 10:12 pm
Arquivado em: Cinema, Crítica-Cinema, David Frankel Altman, Fernando

COMO O DIABO GOSTA
O Diabo Veste Prada é nota dez, mas se configura como filme para aquela tarde ociosa, com pipoca plenamente justificada
por Fernando de Albuquerque

O Diabo Veste Prada nasceu para ser exatamente o que é: um filminho bem sessão da tarde, uma sátira não muito cáustica e amena sobre indústria da moda, um subproduto mais acessível do fashionismo ”Prêt-à-Porter”. Criação do diretor David Frankel Altman, responsável pela série “Sex and the City”. E depois de clássicos do cinema, como “Blow Up – Depois Daquele Beijo”, de Michelangelo Antonioni, e “Quem É Você, Polly Magoo”, de William Klein (ambos falavam de formas diversas do mundo da moda) ficou muito difícil abordar o tema e parecer inovador.

O argumento é baseado no livro de Laura Weisberger (ex-assistente da poderosa Anna Wintour, editora da revista Vogue), e por isso é de se supor que contenha, muitas meias verdades sobre este império mundial de glamour comandado por criadores e infestado de criaturas sempre magras, com manequim abaixo do 40 e vestidas com a última blusinha da Dior. A protagonista Andy Sachs (Anne Hathaway) é a jovem otimista que procura emprego como jornalista em Nova York. Ela desconhece por completo as engrenagens desta feira das vaidades. É ingênua, lerda e mal vestida para os padrões da hight culture. Mesmo assim é contratada como sub-assistente de Miranda Priestly (a diva Mery Streep), fria, megera, ambiciosa, implacável editora da revista Runway.

É da atribulada convivência entre ambas que o roteiro se nutre. É o conflito entre tolerância zero e a determinação de aprender. Este embate já rendeu coisa melhor, em outros contextos, mas essa não é a proposta do filme. Ele quer ser raso e arrasar no fashionismo. Cumpre com maestria o seu papel.

Meryl Streep aparece mais uma vez oscarizável e de tão fiel chega, em alguns momentos, a desequilibrar a balança que conta com atores do quilate de Stanley Tucci fazendo um dos editores de moda. Ela é particularmente notável vivendo uma mulher competente, solitária e que sobrevive (quase que eternamente) rodeada por pessoas à beira de um ataque de nervos e do abismo do descarte imediato. Miranda, de mulher-diabo, transforma-se no decorrer da trama, em um modelo de perseverança e de resistência. E a moda, para o filme, resulta menos num alvo de ataques e mais num ambiente narrativo propício para ensinar às garotas lições de maquiavelismo. Frankel é um diretor mediano. Além de um pouco previsível do ponto de vista moral e cinematográfico. E isso fica muito claro a partir da pobre seqüência de Paris. Seria preciso um realizador mais perverso e irônico para extrair do livro a carga de rebeldia que ele possui.

O Diabo Veste Prada é de uma produção tão charmosa que consegue esconder um roteiro cheio de previsibilidade. Em alguns momentos o espectador percebe que não há as mãos do diretor, mas o próprio filme toma um rumo. Chegando a evitar a ”cinderelização” da garota assistente e a conversão da editora em bom caráter.

O DIABO VESTE PRADA
de David Frankel Altman
[EUA, 2006]

NOTA:: 8,0



A Dama da Água | M. Night Shyamalan
Outubro 25, 2006, 10:12 pm
Arquivado em: Cinema, Crítica-Cinema, Fernando, Shyamalan

AS FERIDAS DE UMA ANTIGA CRISE
Em A Dama da Água tudo é gancho para apresentar ao público a forma como a narrativa está em xeque
por Fernando de Albuquerque

Os filmes do indiano Shymalan sempre precisam de um certo tempo para serem deglutidos. E isso fica mais notório em sua nova produção A Dama na Água, que teve rápida passagem pelo Recife nas sessões ditas de arte do Shopping Boa Vista. E que agora só resta esperar a tardia chegada em DVD.

Dois motivos básicos podem ser elencados para essa necessidade de tempo. Primeiro porque o cineasta rejeita qualquer tipo de interpretação mais cult de suas produções. E isso ele deixou bem claro depois da exibição de A Vila, quando uma penca de leigos viram no filme certa “alegoria social e política que desmonta o aparelho conceitual da sociedade”, vide as palavras de um crítico brasileiro muito pouco abnegado. Ledo Engano da crítica especializada.

Em segundo lugar porque o filme põe em crise algo que está cada vez mais difícil de esconder: a crise de ficção, a crise da magia contida na grande narrativa. E talvez disso advenha certa antipatia do público. Afinal criticas sociais bem baratas (do tipo de “Crash”, “Tiros em Columbine” e do antigo “Cidade de Deus”) costumam agradar mais que discurso sobre a linguagem.

Logo de cara mais uma dica: quem não assistiu A Vila desista de ver A Dama na Água. O segundo começa quando aquele termina, no exato momento em Ivy encontra com a guarda florestal e paira no ar uma surpresa recheada de “já não há como remediar”. O filme começa com esse pensamento nas primeiras imagens.

Partindo para o enredo: a história é bem no estilinho fairy-tale. Cleveland é um porteiro comum de um condomínio com vários moradores. Todos muito excêntricos (claro!) e que possuem características bem definidas: há o viciado em palavras cruzadas, o grupinho que se junta para “puxar” um, o homem que malha apenas um lado do corpo, etc. Mas tudo muda quando Story (e fica bem explícito a crítica ao enredo) chega pela piscina do condomínio que recebe o nome de “The Cove”.

Ela é uma narf que, assim como a introdução em animação do filme explica, é um ser das águas responsável por tentar ajudar o homem a seguir o caminho correto para a humanidade. Só que, nessa visita ao nosso mundo, alguma coisa dá errada e Story passa a ser perseguida pelos terríveis scrunts, lobos com poderosa camuflagem que tentam a todo custo comer narfs. Cabe ao nosso querido Cleveland ajudar a moça a voltar para sua terra natal. E nisso fica impossível fugir ao clichê de personagens de histórias de ninar que ganham uma roupagem bem pós-moderna. Afinal, nem tudo é ineditismo.

A Dama na Água, então, faz um retorno à raiz. Ou melhor, dois retornos: à utopia, que é combustível de toda fábula, e à oralidade, não só o primeiro modo empregado na transmissão das fábulas e dos mitos, como também a primeira etapa da vida a “fase oral”. Que remete à nossa participação inaugural no mundo. O cineasta afirma o poder de eternidade das ficções ancestrais, mas não deixa um só minuto de colocar a questão do “porquê” elas não funcionam mais da mesma forma”.

As pessoas “não ouvem mais”, diz o narrador da estória sobre o Mundo Azul contada no início do filme. Ela é ilustrada por desenhos feitos num estilo naïf que já dá a entender algumas das intenções do diretor. Essa forma primitiva de narração contida na fábula do Mundo Azul se opõe à deflação narrativa do filme em si e com isso Shyamalan atinge o ponto nevrálgico da dificuldade de ficção que se abate sobre o cinema. Pois se há hoje o retorno fácil ao épico ou ao fantasioso propiciado pela renovação tecnológica, há também a tendência, igualmente forte, a investir nas superfícies e fazer a narrativa se perder nas curvas de uma infinita espiral do tempo. Ou mesmo ter na trama um pretexto para a exploração de certo efeito-cinema (seja na vertigem do puro movimento ou na embriaguez do livre escoamento de imagens).

A Dama da água acaba sendo um filme chato, que não agrada uma platéia fixada na história e entretida em surpresas dentro da história. O público quer susto, emoção e choro descondensado. Shymalan traz reflexões que não tem uma função social reconhecida. A revolução dele é através da estética. A do público deságua nas armas.

A DAMA DA ÁGUA
de M. Night Shyamalan
[EUA, 2006]

NOTA: 7,0



Entrevista Charme Chulo
Outubro 25, 2006, 9:55 pm
Arquivado em: Charme Chulo, Entrevista, Floro, Música

SAUDADE DA TERRA
banda de Curitiba acerta em cheio ao explorar raízes caipiras com o melhor que o pop tem a oferecer

por Paulo Floro

A definição Arctic Monkeys + Bruno & Marrone que consta na página do Charme Chulo no Trama Virtual mostra o quanto esta banda de Curitiba é inusitada. Grata surpresa a surgir da excelente cena roqueira curitibana atual, a banda é uma das mais inventivas na sonoridade, ao juntar violas caipiras com o brit-pop dos Smiths.Com isso, algo particular e original surgiu, o que acabou surpreendendo a crítica em 2004, quando lançaram o EP Você Sabe Muito Bem Onde Eu Estou. Após isso, shows em festivais importantes como o Curitiba Rock Festival e destaques em várias publicações fizeram do Charme Chulo uma promessa para o ano que vem.

Formado em 2003, pelos primos Igor Marcel (vocais) e Leandro Delmonico (guitarra e viola), a banda ainda consta com Peterson Rosário no baixo e Rony Jimenez na bateria. Este ano, os rapazes do Charme Chulo terminaram as gravações de seu primeiro disco, que deve ser lançado em breve. O disco foi produzido por Xuxu (vocal e guitarra da banda Pipodélica) e gravado em Florianópolis. No disco consta inéditas como Não Deixa a Vida Te Levar e Barretos. Mas músicas que ajudaram o público a assimilar o estilo “Charme Chulo de ser”, como Piada Cruel e Polaca Azeda também dão as caras. A produção do disco, delimitou as influências da banda – que ainda passam por Legião Urbana, The Killers, Almir Sater, Dalton Trevisan e o indie-folk – e ajudam o Charme Chulo a ser o expoente solitário de um estilo ao mesmo tempo que os insere no cenário do melhor que o rock brasileiro está revelando esse ano.

O GRITO falou com o vocalista Igor Marcel por email sobre passado e futuro da banda.

Pra começar, o que a banda anda fazendo atualmente?
Estamos prestes a lançar o primeiro disco da banda. No máximo até janeiro será lançado. Estamos fazendo muitos shows por Curitiba, São Paulo e várias cidades do Centro-sul do país. Arrumando a casa (entende-se): elaborando novo site, clipe de uma música do disco, resolvendo questões burocráticas para o lançamento do cd e finalizando a arte (capa / encarte) do mesmo. Ah, e o melhor: voltando a compor novas músicas!

Vocês citam entre as suas influências nomes que vão da música sertaneja até Smiths. Nenhuma banda olhou para esse lado da música brasileira ainda, não?
Pelo que parece, em relação a essa geração de bandas independentes, não ouvi nada ainda na linha a qual exploramos, isso é verdade. Já ouvi, por exemplo, a banda Mercado do Peixe, que usa viola caipira, porém focando um outro resultado, totalmente diferente. O nosso é meio inédito mesmo. Mesmo na MPB clássica, a onda sempre foi um lance meio hippie, “federal” com a música caipira. Agora Charme Chulo é punk, pós-punk, new wave com música caipira, sacou? Bom, e o folk brasileiro, tenha você vergonha ou não, é o que? A música caipira, pô!!!

Desde o lançamento do EP Você Sabe Muito Bem Onde Eu Estou, onde vocês inovaram colocando viola caipira no peso do rock-n-roll, o som da banda passou por alguma mudança?
Sim. As mudanças foram mais em relação às influencias estrangeiras, digamos assim. Se outrora o Britpop clássico dos anos 90, eram as referencias mais fortes, desta vez o novo rock, anos 00 (que sempre nos agradou desde o começo, até por seu lado de revival aos anos 80) está marcando presença no novo cd. Bom, isso é lógico, né? Ninguém é bobo. Hehe… ficar preso aos anos 90, molenga, antigo e sem muito sal. Mas quem ouvir o cd inteiro verá, que essa transição não foi feita de maneira barata. Além de ser sempre tudo muito sutil.

Depois do Bonde do Role, daí de Curitiba, muita gente já vê curte funk como algo cult. Será que depois do Charme Chulo, as pessoas pensarão da mesma forma da música caipira?
Quem sabe consigamos fazer com que as pessoas, pelo menos, vejam o valor e a beleza que havia na música caipira, aquela tradicional e instiguem-nas a redescobri-la. Bom, por ser cult, a música caipira já é algo cult!

E o Dalton Trevisan? Ele é ainda uma grande influência pra vocês, não?
Sim. A obra dele é uma eterna influência pra gente. É só você pensar um pouco, nosso nome, Charme Chulo, é baseado na estética explorada por ele, a que ele conseguiu propor e condensar em todo o seu trabalho. É Curitiba, crua e nua! É nossa cidade tão sofisticada, européia, fria e ao mesmo tempo tão chula, pobre culturalmente, com complexo de inferioridade e sem identidade perante nosso próprio país. Uma cidade grande e jacu! Um estado grande e jacu! Charminho provinciano,,… blé!!! Mas eu amo essa cidade, porra!! As pessoas ainda vão ver como somos alguma coisa! Nem que seja um Charme Chulo!!!!

Onde esperam estar logo em breve?
Nos ouvidos e corações das todas as pessoas que se identificam, e que possam vir a se identificar com o que pensamos sobre a vida. Nossas irmãs gêmeas de coração. As que ainda estão por aí e que estarão sempre por aí.


Devorando a terra. Rock improvável a surpreender os ouvidos

Site oficial: http://www.charmechulo.com.br/
Trama Virtual: www.tramavirtual.com.br/charme_chulo



Beck | The Information
Outubro 17, 2006, 10:33 pm
Arquivado em: Beck, Crítica-Música, Floro, Música

BECK
The Information
[Interscope, 2006]

Quando em 2005 Beck lançou Guero, ninguém deu muita bola, apesar daquele ser um disco excelente, quase tão bom quanto Odelay (1996). No entanto, para a mídia em geral, Beck, o garoto-prodígio, retorna triunfal neste disco The Information. Desde quando passou a divulgar esse disco em shows, no mês passado, Beck chama atenção. Fez com que fãs gravassem parte de seus shows para depois editar tudo e lançar em DVD, mas antes que você diga que o Beastie Boys já fez isso, o Beck levou esta idéia também para a capa do disco, onde os fãs receberam uma cartela de adesivos para customizar cada um sua capa. Interatividade é isso. Agora ninguém mais pode reclamar que o Beck não aparece mais.

E pode nem parecer mas Beck Hansen já tem uns 20 anos de carreira nas costas. Imagine como é difícil lançar uma obra no mínimo relevante, quando se é dono de um dos discos mais explosivos de todos os tempos, que é Odelay. Então chegamos neste ano de 2006, com The Information e já percebemos: este disco não é nada, mas ao mesmo tempo é tudo. Não quero entrar em nenhuma viagem à la Fernando Pessoa, mas o que quero dizer é que não há nada que já não tenhamos visto em Beck neste disco. A fusão aparentemente caótica de rock e hip hop (“Dark Star”), os vocais embolados (“Elevator Music”), o country-electro (“Cellphone´s Dead”) e outros maneirismo beckianos. Este ‘igual mas diferente’ é o principal ponto fraco deste disco. Atirando pra todos os lados, Beck copiou-se como pôde. Apesar de afirmar em uma entrevista para a MTV americana que esse era o seu disco mais hip-hop. “Antes de começarmos as gravações, o Nigel (Godrich, produtor) disse que queria fazer um álbum hip-hop. E por um lado é (um álbum hip-hop), mas por outro não” disse Beck. Fora isso ainda temos faixas modorrentas como “Motorcade” e “Movie Theme”. Para ter saudades do Beck escute a faixa título e “Strange Appartion”, que apesar de lembrar os vocais de Pearl Jam, se trata ao menos de uma novidade no som do Beck.

Pra quem outrora reinventou a música rockeira norte-americana, hoje em dia, talvez não signifique muita coisa. [Paulo Floro]

NOTA:: 5,5



Basement Jaxx | Crazy Itch radio
Outubro 17, 2006, 10:33 pm
Arquivado em: Basement Jaxx, Crítica-Música, Música, Wagner

BASEMENT JAXX
Crazy Itch Radio
[XL, 2006]

Os químicos do house quebram um silêncio de três anos. Eles que ganharam o grammy de Melhor Álbum Dance em 2004 com o disco Kish Kash, álbum que fincou o lugar de majestada dos produtores Simon Ratcliffe e Feliz Buzton, o Basement Jaxx, como uma das maiores duplas da música eletrônica inglesa. Para quem nunca escutou o Basement Jaxx quando escutar o Crazy Itch Radio vai achar familiar, já que a dupla coleciona remixes e trabalhos junto com o Pet Shop Boys, Roger Sanchez, Lil’ Kin, Yin Yang, Missy Elliot, Justin Timberlake e N.E.R.D. Um novo site foi preparadado para divulgar o trabalho novo, www.crazyitchradio.com, lá está disponivel para escutar no Crazy Itch Player um remix de 80″ e uma entrevista dirigida por Annie Mac.
Black music, Country, Garege, Punk, Ragga, Electro, Calipso, Funk, estão todos misturados como numa sopa bem preparada, todas as faixas têm pontecial para um hit FM, já que elas veêm bombando nas pistas GLS norte-americanas. Há momentos em que podemos confundir música do Crazy Itch Radio com um remix da Toni Braxton, não que isso seja ruim, mas para quem está acostumando com o rock e até com a atitude rock do electro-clash vai estranhar à música. Este disco poderia ser um podcast, pois tem apresentação e praparo para tal, mas o trabalho chaga a ser chato, apenas por parecer ser direcionado para boates GLS onde há drag queens, rapazes malhados e calças jenas bem apertadas e chápeus de cowboys. Fica chato por que escutar um CD baseado em batidas repetidas e um mulher com uma voz modificada por computador não agrada a ninguém, parece que a dupla não descança.
Mas se esse foi o intuito da dupla inglesa, eles conseguiram. [Wagner Beethoven]

NOTA :: 6,0



Entrevista Love is All
Outubro 17, 2006, 10:26 pm
Arquivado em: Entrevista, Floro, Love is All, Música

PRIMAIS COM CORAÇÃO
por Paulo Floro

O Love is All vêm da Suécia, mesmo lugar de bandas como (International) Noise Conspiracy e Hell on Wheels, nomes conhecidos pela barulheira que fazem. Este quinteto, formado em 2003, no entanto, criou um som bastante primal, meio maluco, apostando num vocal demente, guitarras desordenadas e um original espírito infantil, onírico. No início desse ano, lançaram pelo pequeno selo What´s Your Rapture, o disco de estréia Nine Times That Same Song, onde foram bem recebidos pela crítica. Agora, Após assinarem com a Parlophone, a banda sueca Love is All se prepara para ser grande. O GRITO conversou com o vocalista e guitarrista Nicholaus Sparding nesta entrevista exclusiva

Vocês gravaram uma cover de Yoko Ono para o próximo disco. Quais outras bandas e artistas que inspiram vocês?
Eu sempre fui um grande fã de bandas como The Jesus and Mary Chain, The Cure,
Spacemen 3, Spiritualized etc. Acho que sou uma grande fã da simplicidade. Quando escrevemos as músicas, todas começam bem simples, e então vamos enchendo-as com todas as diferentes perspectivas de cada um. Pra mim, o Love is All é a mais divertida e criativa banda da qual já fiz parte.

A Suécia tem uma antiga tradição roqueira. Como vocês começaram? Houve alguma influência da cena roqueira sueca?
Realmente sempre fomos desajustados musicalmente. Especialmente em nossa própria cidade, Gothenburg. Há muita testosterona saindo daqui, mas talvez isso tenha nos tenha ajudado a encontrar o nosso som, que é um estilo totalmente contrário. Gothenburg sempre foi um bom ambiente musical, mesmo antes da mídia se interessar pelo que acontece por aqui. Isto fez com que todos se sentissem mais livres para criar o que bem entendessem.

A música de vocês soa bastante espontânea. Como vocês fazem as músicas?
Como eu disse, são canções muito básicas – na maior parte das harmonias e melodias que nos tentamos desconstruir até algo estranho, dinâmico e extremo na maioria das vezes. O importante é deixar as canções pop serem ouvidas por debaixo da parede de som maluca que nós tentamos criar.

Como estão as gravações para o próximo disco? Quais as novidades?
Tudo que eu sei é que será um album brilhante!

Vocês assinaram contrato com a Parlophone para lançar o disco no Reino Unido. Depois de começar num selo pequeno como o What´s Your Rapture, estão preparados para o sucesso?
Pra mim, sucesso já foi ter lançado pelo What´s Your Rapture e vendido bem em poucas semanas. Acredito que podemos vender umas mil cópias nos Estados Unidos, e isso já nos deixará felizes. Está sendo uma grande surpresa pra nós e estamos realmente felizes por trabalhar com a Parlophone, que é uma das majors, mas tem um carinho e entusiasmo acolhedor que nos ajudou a continuar o nosso trabalho sem exercer uma grande pressão sobre nós. Era esse o modo como nos sentíamos na What´s Your Rapture, e é assim que está sendo agora.

Planos para uma turnê maior? Quem sabe, tocar no Brasil?
Seria divertido pra caramba. Tudo que sei é que estamos com agenda cheia até a próxima estação…

Leia mais sobre o Love Is All no Grito aqui



The Pipettes | We Are The Pipettes
Outubro 17, 2006, 10:26 pm
Arquivado em: Crítica-Música, Música, The Pipettes, Wagner

BOLINHAS, VESTIDINHOS, PASSINHOS E MUITA DIVERSÃO
Banda inglesa, Pipettes, lança álbum que resgata a musicalidade dos anos 1950 e 1960
por Wagner Beethoven

Num pub em Brighton há mais de dois anos atrás, uma banda nascia, nada experimental. O que nasceu ali foi uma banda com músicas carinhosas, nascida na era do rock e da brutalidade de riffs e drums. Tudo foi baseado na música dos anos 50 e 60 e em bandas como Shangri-Las, Ronettes e é claro Supremes. Rosi, Becki e Gwenno (essa última substituiu a antiga integrante que saiu do começo de 2005, Julia), juntas, formariam as Pipettes.

O trio cria um clima retrô-pop, fazem coreografias. Julia certa vez disse que conheceram o Bobby (guitarra) e a vida delas todas mudaram drasticamente para um existência pior do que uma tragédia Shakesperiana. Seja lá o que isso signifique. A banda de apoio é formada por quatro garotos, essa parte do Pipettes é chamada The Cassettes e para divulgar a música, além do site oficial, elas tem uma página no myspace. Nada que possa assustar alguém nos anos 2000, mas é quase impossível achar uma banda que fale fundamentalemente de amor como as Pipettes.

Elas não se encaixam em nenhuma cena indie inglesa. Indagada sobre o assunto, Rose respondeu que se você é um garoto magrinho com uma guitarra provavelmente você se dará bem. As meninas não tem medo do mundo e inicialmente lançaram dois singles, “ABC” e “School Uniform” com uma tiragem de 500 cópias cada uma custado 3 £ e hoje você com preços inflados no site eBay por 20 £.

Depois de muito hyparem em cima deles, o terceiro e o quarto single foram “Dirty Mind” e “You Kissed Are Wasted On Me” produzidos pelos irmãos Ollie e Matt Jacob, donos do selo inglês Memphis Industries, que venderam muito bem e lançaram pelo mesmo selo o primeiro trabalho We Are The Pipettes que vem sendo bem recebido pelo público e pela crítica.

Site oficial: http://www.thepipettes.co.uk

ASSIM NÃO, O PÉ ESQUERDO PRA FRENTE

THE PIPETTES
We Are The Pipettes
[Memphis, 2006]

We Are The Pipettes destrói toda a homogeneidade da música inglesa, nada de gritos à base de testosterona. As Pipettes fazem passinhos sincronizados, gritinhos de lá lá lá e bastante pop.No álbum de estréia, a banda de apoio, The Cassettes apresenta uma música genuliamente “sixties” dos anos 2000. Becki, Gwenna e Rosi são quase líderes de torcida de futebol americano, a primeira faixa, “We Are The Pipettes”, é uma apresentação da banda para o público, ela entra no clina de vestido de bolinha amarelinho.O disco fala de amor em essência, ela são garotas e isso é o mais importante. O disco todo é recheado de perolas. Palminhas e o clima de baile universitário. Surf music e panderolas. We Are The Pipettes é um divisor de águas na música britânica, não no tocante de vendagem ou sucesso, mas sim de coragem e inovação do cenário pop inglês. Resgata valores antes esquecidos, esses que vão de dançar separado, se divertir, bater palmas e o principal, escutar boa música. Rosi, a mais nova do trio, define o som de sua banda como música pop moderna, para pessoas dançarem. E para quem não têm preconceitos musicais e quer se divertir. [WB]

NOTA :: 9,0



I Love You But I´ve Chosen Darkness | Fear Is On Our Side
Outubro 17, 2006, 10:26 pm
Arquivado em: Crítica-Música, Floro, I Love You But I´ve Chosen Darkness, Música

I LOVE YOU BUT I’VE CHOSEN DARKNESS
Fear Is on Our Side
[Secretly Canadian, 2006]

Os acordes inicais de “The Ghost” já avisa: este é um disco não muito feliz. Podemos imaginar que este I Love You But I’ve Chosen Darkness veio para engrossar a fileira de bandas darks e tristes que emulam Joy Division (aka Editors, Interpol), mas o ILYBICD vem de Austin, Texas e são melancólicos por opção. Bem longe do glamour britânico e do hype nova-iorquino. Até mesmo o selo Secretly Canadian parece apostar nessa tristeza, já que tem o Antony and the Johnsons no seu cast. Produzido por Paul Barker, do Ministry, o disco tem todo um contexto musical oitentista, e o produtor ajudou a banda a encontrar o entreposto perfeito entre a morbidez pós-punk e a melancolia de um Ian Curtis. Não há nada animado nesse disco, que puxa o ouvinte numa montanha-russa desesperada e sombria. “Lights” tem o mesmo baixo inquietante de “Disorder” do Joy Division, e é uma canção que trata de amor de uma maneira desesperançosa. Mas o disco também traz outros temas, como a morte em “Long Walk”. Com isso, este Fear is Our Side não tem pretensões em buscar uma finalidade para tanta agrura, e é neste ponto que está sua maior virtude, ele é sincero em sua sonoridade. Não há uma faixa do disco que faça concessões às regras do pop. Prova disso é que a banda escolheu “According To Plain” como single de divulgação e ainda coloca um clipe escuro e confuso pra rodar na TV. Nesta faixa quase dá pra sentir as profundezas, aliás no disco todo. É impossível não ser atingido por esta escuridão, cheia de texturas e melodias que não encontramos qualquer hora após ouvir “We Choose Faces” e “Last Ride Together”. É necessário questionar, que um dos discos mais belos do ano vêm de uma banda melancólica do Texas? O que importa é que esse é o registro mais tocante do ano. Logo na primeira audição praticamente envolve o ouvinte e chega sem rodeios, direto naquilo que tentamos esconder, sejam frustrações, mágoas, prazeres guardados, tudo num âmbito muito particular. Para o I Love You But I’ve Chosen Darkness, as trevas estão com todos. [Paulo Floro]

NOTA:: 9,5



Lily Allen | Allright,Still
Outubro 17, 2006, 10:26 pm
Arquivado em: Crítica-Música, Floro, Lily Allen, Música

LILY ALLEN Alright, Still
[EMI, 2006]

Muita gente caiu no engodo que foi este disco da “ladra-mas-não-morde” Lily Allen. O single “Smile” que abre o disco é a única música boa, daquelas que você escuta numa banca de jornal ou ao acaso no rádio. O clipe é até legalzinho e tal, mas o Allright, Still dela não empolga.A moça passou o ano inteiro tentando infernizar a vida dos ídolos indies, descarregando suas frustações pelos seus quilinhos a mais e por sua estatura e, enfim por ser sem graça e sem o que os ingleses chamam de ’spice’, aquela temperinho que falta. Aborrecida, Lily amolou o pai para gravar sua demo (coitado do velho) e por fim a EMI, abraçou a idéia e lança este disco. Com um pé no ska e outro no reggae, não chega a lugar nenhum. Depois de tanta chatice e de tanto abuso, Allen só vai ser mais uma chata no apurado final. Nem suas letras que falam de crack tirou seu cd do lugar comum das cantoras femininas meia boca. Para os fãs de Nickelodeon a dica é “Friday Night” e para as garotas que ainda acreditam nessa merda toda de ‘girl power’, ouçam “Take What You Take”. Em 2006, prefira a popozuda Nelly Furtado. E tenho dito. [Paulo Floro]

NOTA:: 5,5