RÁPIDO E CERTEIRO
por Paulo Floro

THE RAKES Capture/Release
[2006,Sum]

Em 35 minutos quem terá tempo para refletir sobre os rumos do atual rock? Sobre a relevância do hype da música pop inglesa? Estes são os The Rakes, e você foi pego de assalto. 11 músicas para embalar noites hedonistas de pós-adolescentes mal resolvidos. Enquanto o som do Franz Ferdinand partia das faculdades de arte, o Rakes produz suas canções sacolejantes a partir de supostas experiências proletárias, como expresso nas faixas “22 Grand Job” e “Work, Work, Work (Pub, Club, Sleep)”. A última descreve um dia de um trabalhador jovem comum nas grandes metrópoles, num trabalho ruim, lendo semanários de música, torrando o pouco dinheiro em clubes à noite. Capture/Release não permite um único momento de trégua ao ouvinte, definitivamente um dos discos mais legais do ano. Se fosse escolher uma faixa, diria “We Are All Animals” ou “Violent”, mas nem tive muito tempo para pensar a respeito. Com um pé no punk-rock e outro num brit-pop tardio, o Rakes talvez ainda não tenha encontrado sua personalidade, mas já fez um bom trabalho: um disco divertido.
NOTA:: 8,0
AS DROGAS NÃO FAZEM BEM A SAÚDE
Ex-Libertines lançam o seu primeiro trabalho que vem com tudo e, recebendo ótimas criticas de especialistas e de público
por Wagner Beethoven

DIRTY PRETTY THINGS Waterloo To Anywhere
[Mercury, 2006]
A Inglaterra sempre teve o seu lugar nas paradas de qualidade musical. Prova disso foi no inicio de dos anos 1990, o Stone Roses tornou-se uma das bandas mais respeitadas do mundo, nada de popularidade (também foi), mas sim de respeito por parte da critica. O Brit Pop, o pop inglês dava as caras quando Ian Brown inventou de fazer música, infelizmente tudo que é bom dura pouco. O mesmo aconteceu com o Libertines. Banda que tinha como lideres Carl Barat e Peter Doherty.
Seu primeiro trabalho veio como uma bomba para o mundo, era apenas uma banda do novo rock, também um sucesso de publico. Up The Bracket (2002) foi bem recebido pela critica, tão bem quanto o Stone Roses foram. Carl Barat e cia. Tinham sérios problemas com Doherty, que era/é viciado em crack mas ainda conseguiu gravar o segundo o póstumo álbum chamado The Libertines (2004), que foi praticamente gravado por Doherty, mas em regra o craqueteiro estava fora e junto com a sua namorada, a modelo Kate Moss, estavam aprontando muito, porem Doherty não ficou só nessa, fez outra banda, o Babyshambles e lançou o seu primeiro trabalho intitulado Down In Albion que não agradou nem ao público nem a critica e nem o Funk Forever tão pouco bastou para agradar.
Enquanto o Peter Dohert estava sujando cada vez mais a sua imagem, o restante do Libertines estava se preparando para lançar o seu ataque. O Dirty Pretty Things formando por Gary Powell nas baquetas, Anthony Rossamando nas guitarras (substituindo Peter) Didz Hammond (ex-Coople Temple Couse) no baixo e claro, a outra parte do Libertines, Carl Barat que está lançando o debut do conjunto este ano.
Waterloo to Anywhere (Interscope) chegou ao 3º lugar das paradas britânicas e com o sucesso de publico e critica. Barat não tem o que reclamar com o fim do Libertines, pois a qualidade do Dirty Pretty Things não deixa a desejar. Com nítida influência do Clash e não menos genial, Wateloo To Anywhere abre cm uma tapa da cara do ex-parceiro. Anos que estivemos juntos… Mas agora sei que você é um covarde, diz Carl sem medo das conseqüências que logo embala com “Doctors & Dealers” onde o sotaque inglês do vocalista soa como uma poesia. No álbum tem obras-primas como “Bang bagn You’re Dead” que é uma guitarrada de primeira, a “Blood Thrsty Bastards” engana qualquer um, nada de balada. “Gin & milk” mostra uma banda não tão sóbria, por que gin com leite não me parece tao bom. “Enemy” é uma das melhores, seguida de “Wondering” que dá o recado final do conjunto:
Não há mais necessidade de questionar a vida.
NOTA:: 8,5.

UMA PAUSA PARA AMEAÇAR O UNIVERSO
por Paulo Floro
DINASTIA M 1
Brian Michael Bendis e Michale Oaming
[Panini, 52 pgs, R$5,90]
Os Surpreendentes X-Men e os Vingadores se reúnem para discutir o destino da Feiticeira Escarlate, que entrou em colapso e está em Genosha, mas a caminho de lá, os heróis são surpreendidos por um clarão. Está criada uma nova realidade, onde os mutantes são maioria e apenas Wolverine lembra de alguma coisa.
Um cataclisma abalando as estruturas do universo. Wolverine super-star, super-herois no limite. Hmm, algo de novo?
Depois de anos lançando sagas contidas em títulos, muitas excelentes por sinal, com uma certa independência na cronologia, a Marvel decide envolver todos os seus milionários personagens em um evento de alcance total, se estendendo pela maioria dos títulos e criando várias mini-séries de qualidade duvidosa (como Mutopia X, publicada em X-Men Extra a partir de setembro). Hoje em dia, com a internet e várias séries à venda, é cada vez mais difícil emplacar uma grande saga na mídia dos quadrinhos. Ninguém parece dar mais bola às ameaças ao universo. O problema são os clichês inerentes à eventos desse tipo, e o pior, com finais previsíveis, essas sagas costumam voltar ao ponto inicial com poucas repercussões (não é o caso totalmente de Dinastia M, mas não vou dizer o que acontece para não estragar a série mais ainda). Atualmente nos EUA, a Marvel publica Civil War, que diferente de outros grandes eventos da Marvel, têm uma premissa original e está realmente envolvendo a imprensa e leitores, com acontecimentos surpreendentes (ainda é segredo para alguém que o Homem-Aranha revelou a identidade?).
Outro problema da série são suas ligações com vários eventos da Marvel, como Vingadores – A Queda e os recentes acontecimentos nos títulos dos Supreendentes X-Men e do Excalibur. Quem não acompanhou essas sagas, talvez perca um pouco o interesse na mini-série. Pra quem leu A Queda, Dinastia M é praticamente uma continuação, só que bem mais, digamos, universal.
Bendis consegue empolgar a leitura no início, mostrando momentos de crise entre os super-heróis, mas isso já é sua especialidade. Os desenhos de Oeming, não tem nada de fabuloso, mas consegue mostrar uma Genosha destruída, que deveria ter sido mostrado no título do Excalibur, além de belos enquadramentos. Por isso, Dinastia M, não tem nada que a legitime como uma grande série, a não ser quatro meses interrompendo as tramas de vários títulos da editora. A Panini, que não conseguiu empolgar os leitores para o “grande acontecimento do ano”, fez uma edição bem feita. Com duas edições da revista original, trouxe capas variantes, papel couché, e torcemos que não atrase nos próximos lançamentos. Para os impressionáveis, vale a pena comprar as quatro revistas da mini-série, para se deleitar (sic) com o esforço dos heróis marvel em situações-limite. Para os nerds aficcionados e colecionadores, talvez seja importante acompanhar. Para quem está interessado em gastar dinheiro apenas com boas histórias (aqueles que xingam a Panini por pagar 7 paus na X-Men Extra por apenas uma história interessante), não irão perder nada se lerem o recapitula dos fatos assim que a série acabar.
NOTA:: 5,5

ATÉ O CHÃO!! … OU MALDITOS DO UNDERGROUND
por Paulo Floro e Wagner Beethoven
“é som de indie, de fotologger diva
botando as onda do funk de curitiba
designer bicha rebola até o chão
e quando toca tu requebra o popozão”
- Impostora de Cu é rola
Mais um bonde de Curitiba, só que esse é pra infernizar.
Formado pelas MC´s Barbara e Vicky e o DJ Cello, o grupo se joga nas batidas do funk para falar mal dos indies, dos fanáticos por fotolog e do Bonde do Rolê, que também são de Curitiba e ficaram famosos no exterior após excursionar com o DJ Diplo (do selo MAD Decent) e serem elogiados na revista Rolling Stone (“role de cú é rola e quem gosta é baitola”).
O hype do Bonde das Impostora é que eles não perdoam ninguém. Sampleando hits do rock como Take Me Out do Franz Ferdinand e Toxic de Britney Spears e misturando tudo isso com as batidas do funk carioca ninguém escapa nas letras das Impostora. Já famosos na internet, podem ser ouvidos no My Space deles, que registrou mais de 50.000 acessos. Mas o melhor pra conhecer a banda é a página deles no Trama Virtual, com uma hilária sessão de cartas.
A banda não tem meias-palavras pra mandar um foda-se a qualquer coisa, por que a intenção deles é falar mal de todo mundo. Abusados, impostores e podres, colocam pra dançar “até o chão” indies, modernos, jornalistas e quem mais aparecer. King dos Blasé foi o hit mais conhecido da banda, que coloca na berlinda todo aquele modernete que não desgruda de um soulseek para aparecer com o melhor banda dos últimos tempos, mas há outras músicas absurdas como o Funk da Biscate Caminhão e Bicha Designer, com toda a modernidade saindo pelos poros daqueles que não se misturam. As músicas estão disponíveis na internet no site da Trama ou no My Space.
O Grito conversou com MC Cello do Bonde das Impostora por e-mail.
Como foi a formação do Bonde?
Primeiramente Barbara e Vicky gravaram “Rolê de Cu é Rola” para tirar um sarro do Bonde do Rolê, em seguida Cello entrou e começamos a gravar músicas com críticas a cenas e bandas. Vicky foi estudar em NY e Lella agora faz parte do bonde.
Vocês são impostores do indie, do funk ou do Bonde do Rolê?
De nenhum dos três, porque a gente não gosta de indie, nem de funk, muito menos do bonde do rolê hahahahahahaa
Falem sobre os shows
Primeiro rolaram pockets aqui em Curitiba e depois três em São Paulo, dois em Floripa e estão surgindo convites bem interessantes para outros estados. No geral o show é uma bagunça, baixaria pura, tapa na cara, risadas, fãs mostrando os seios, integrantes caindo no chão… Ah e as musicas de forma acelerada!
Vocês serão tipicamente uma banda de internet? Há projetos para um disco?
Sim e não, pois somos de carne e osso, mas a gente começou só jogando música na net, e o negócio tomou uma proporção que a gente nem sonhava… Mas queremos gravar CD sim, o problema vai ser se alguém vai querer comprar hahahahahaha.
Na música King dos Blasé, há uma crítica ao universo indie, mas o que vocês ouvem ultimamente?
MC Cello: Sonic Youth, My Bloody Valentine, Gorillaz, Discomatic, Colibri.
Barbara: Electro, 80’s, 90’s e alguma coisa de MPB.
Lella: Só tem ouvido Bonde das Impostora porque ela tem que decorar as letras até nosso próximo show dia 5 aqui em Curitiba hahahahaha
Mas será que rola uma jam Rolê com Impostora? Seria uma boa idéia não?
Hahaha o duro é conciliar datas… Quase rolou uma na Retrô esses tempo, aliás, na festinha que era chá de panela do casamento Meu (Cello) com a Marina (do Rolê), despedida da Vicky, e niver do Gorky (do Rolê), mas o som explodiu hahahahahahaha
Mas como assim? Você é casado com uma da banda inimiga? Explica isso direito!
Num é banda inimiga hahahahaha. Eu namoro a Marina desde antes do Bonde do Rolê… A terceira musica que eles gravaram (Melô do Vitiligo) é minha… Caldinho Knorr também… E no disco deles pela Mad Decent tem 2 músicas co-autoria minha… Na real a gente é tudo uma máfia hahahahahahaha eu moro com o Pedro e o Gorky hahahahaha.
ENTRE O NADA O CÃO
Mais melancolia indie da Suécia num projeto que precisa ser conhecido.
por Paulo Floro
Sarah Assbring, a artista responsável pelo projeto El Perro Del Mar, estava numa profunda depressão. Depois de passar por várias bandas em seu país natal, a Suécia, sucessivas crises e desentendimentos a levaram às praias espanholas para esfriar a cabeça. Num desses momentos de completude e reflexão, numa minúscula cidade, Sarah, encontrou um cachorro e logo se ligou emocionalmente ao animal, que passou a visita-la todos os dias nesta mesma praia. Foi então, que antes desiludida, decidiu retornar com um novo projeto musical, e o nome do projeto, óbvio, faz referência a esse episódio de sua vida: El Perro del Mar.
Este disco, Look! It´s El Perro Del Mar reúne todos os singles já lançados por esse projeto. Estudiosa de piano e canto desde pequena, Sarah incorpora a música erudita ao pop, jazz e soul de uma maneira fabulosa. Mesmo trabalhando com nomes como Jose Gonzales e Jenny Wilson e sendo muitas vezes acompanhada de dois guitarristas e um organista, prefere manter El Perro del Mar como um projeto solo, para não se prender a uma banda. Descoberta por Jens Lekman, do selo Secretely Canadian (com nomes como Antony and The Johnsons no cast), seu disco já foi lançado nos EUA e no Reino Unido. No entanto, Sarah, que não gosta de shows nem de turnês, prefere o conforto de uma ilustre e talentosa desconhecida à badalação do mundo pop. No entanto dada a beleza das canções de seu último disco, será difícil conservar esse anonimato para sempre. Seu single lançado em vinil junto com Lekman pelo Secretely Canadian, se esgotou rapidamente, sites como Pitchfork, Spin.com dão altas cotações para o último disco Look! It´s… e Sarah já estampa várias revistas ao redor do globo. Recentemente abriu os shows do Calexico em Londres e fez shows ao lado da banda escocesa Camera Obscura.
Looks It´s El Perro del Mar é a trilha sonora da vida de Sarah Assbring. O disco começa triste, como se estivéssemos naquele feriado espanhol, à beira da praia, onde Sarah teve a epifania necessária para começar o projeto. “Candy” e “Sad” exorcizam esses momentos, enquanto “Party” e “Dog” tem paragens mais amenas, mas ainda assim melancólicas. Misturando jazz com música de câmera, pop e algumas pitadas de soul, Look! It´s… conta ainda com “Shake It Off”, feito em parceria com Jens Lekman e “I Can´t Talk About It”, uma bem feita orquestra indie, com coral, guitarras, piano e orgão, além da triste e profunda voz de Assbring, El Perro del Mar é difícil em toda sua poeticidade, delicadeza. Não há pressa para que se alcance um público maior, não há concessões ao pop já bastante conhecido.
EL PERRO DEL MAR Look! It´s El Perro del Mar
[Hybris Records, 2006]
NOTA:: 9,0
GENEALOGIA DO DEMÔNIO
por Paulo Floro
O Demolidor de Brian Bendis é melhor que o de Frank Miller. O Demolidor de Brian Bendis é a versão definitiva do Homem Sem Medo. A saga A Era de Ouro, do Demolidor de Brian Bendis é uma das melhores histórias já lançadas pela Marvel em mais de 40 anos do herói.
Os aforismos acima não são gratuitos nem exagerados. E nem significa um hype infundado, já que há alguns anos à frente do título Daredevil, o escritor Brian Michael Bendis já deu provas de que fez sua passagem pelo título valer a pena. E como! Atualmente a Panini Comics publica no Brasil as últimas histórias desta fase, desenhadas pelo magistral Alex Maleev. Nos Estados Unidos, o título do Demolidor está sendo atualmente escrito por Ed Brubacker (Gotham Central) e recebe elogios da crítica. Bendis revolucionou o personagem, lhe deu substância, experimentou nele técnicas de narrativa ousadas e utilizou todo o universo do herói ao mesmo tempo que o enriqueceu, com novos vilões, tramas brilhantes e um teor adulto que fora esquecido pelos escritores anteriores.
ELE É MARVEL - Brian Bendis ainda não era um dos mais poderosos artistas da Marvel Comics quando começou a escrever o título do Demolidor. Nessa época a editora decidiu confiar à Bendis os argumentos da revista porque também não botava muita fé no herói. O filme, estrelado por Ben Afleck tinha sido um fracasso e as vendas do gibi, escritas antes por Joe Quesada não eram muito animadoras. O Demolidor nunca foi um personagem de apelo midiático rápido como o Homem-Aranha, o Quarteto ou o Wolverine. Nos anos 1980, seu gibi era bimestral e o cancelamento era certo, até que o jovem artista Frank Miller revitalizou o título, criando a mais importante fase do Demolidor antes de Bendis. Miller trouxe profundidade às histórias. Afastou definitivamente o título de “um gibi para crianças”. Foi Miller quem definiu a personalidade dos personagens, Foggy Nelson, Stick, Karen Page. Aproximando cada vez mais o personagem à realidade, tratou de temas como drogas (a namorada de Matt Murdoch, Karen Page era uma viciada) e criou várias polêmicas. Aqui no brasil, os desenhistas da editora Abril tinham que “apagar” do desenho original toda vez que aparecia uma seringa ou outra alusão explícita às drogas. Miller também revitalizou a origem do herói em O Homem Sem Medo, desenhada por John Romita Jr., além de ser responsável por uma das maiores sagas do Demolidor, A Queda de Murdoch, quando o Rei do Crime descobre a real identidade do Demolidor e destrói seu alter-ego, fazendo-o perder tudo, dos amigos ao dinheiro. Depois de Miller, o Demolidor experimentou uma nova fase ruim, com escritores sem substância que acabaram quase destruindo o personagem, como por exemplo ao criar um ridículo novo uniforme, semelhante a uma armadura. Apenas o cineasta e roteirista Kevin Smith conseguiu retomar o sucesso do título. Apesar da versão de Smith se distanciar bastante da origem e personalidade do herói, possuí ótimas histórias e até hoje ainda aguarda um relançamento à altura. Demolidor representa à essência da Marvel, ao mostrar super-heróis voltados para a realidade, atingindo extremos com o Demolidor de Miller.

Frank Miller redefiniu o personagem e o colocou como o principal ícone realista da marvel.
BENDIS - Famoso por seus diálogos, o escritor Brian Michael Bendis utilizou o título do Demolidor para experimentar suas outras brilhantes qualidades como roteirista de quadrinhos. Numa narrativa densa e sombria, Demolidor é diferente a tudo feito na Marvel no momento. Talvez até mesmo nos quadrinhos como um todo. Bendis já tinha em mente suas motivações quando assumiu a revista: destruir a vida do Demolidor. De novo. Logo no início, derrubou o Rei do Crime, revelou a identidade do herói a imprensa e trouxe de volta fantasmas do passado: Elektra, Viúva Negra, Mercenário. Bendis conhece muito de quadrinhos e sabe como transformar em clássicos, argumentos banais. Por isso, em suas histórias não temos apeteóticas cenas de ação, nem uma narrativa linear herói contra vilão. Bendis colocou o demônio numa encruzilhada, conflitando suas ações, e nunca entregando soluções fáceis aos leitores. O Demolidor de Bendis é um herói que chegou ao limite. Ele conserva todos os ideais de justiça mas começa a confrontar seus modos de agir. Ele não tem mais senso de humor nem paciência. Ele derrubou o Rei do Crime e se proclamou Rei da Cozinha do Inferno, afastando-se de seus principais aliados de colante. Como Matt Murdoch, é atacado publicamente e precisa lutar contra isso o tempo todo. A narrativa de Bendis é tão envolvente que em muitas revistas o próprio Demolidor nem mesmo aparece. Merece grande crédito o desenhista Alex Maleev, com sua técnica que mistura fotografia, pintura e efeitos computadorizados. Cada personagem tem uma identidade visual bastante forte, até os coadjuvantes mais insignificantes. Frank Miller redefiniu o personagem e praticamente criou seu universo sozinho. Bendis soube aproveitar isso muito bem, com a diferença que fez do Demolidor uma hq de vanguarda, com um estilo inconfundível e criativo que não encontra parâmetro nas atuais séries. Demolidor não nutre similaridades com um gibi de super-heróis comum, apesar de Bendis fazer várias referências ao Universo Marvel, utilizados até mesmo como metalinguagem.
Atualmente a editora Panini publica na revista Demolidor, o penúltimo arco de Bendis e Maleev à frente do título. Com uma edição caprichada, com capas originais, boa tradução, nunca é tarde para se procurar conhecer um dos maiores clássicos dos quadrinhos desta década.
PRINCIPAIS SAGAS DE BRIAN MICHAEL BENDIS EM DEMOLIDOR:
O Julgamento do Século (edições 1 a 3)
Victor Ayala, o Tigre Branco está no banco dos réus e Matt Murdoch precisa inocentá-lo, tornando-se assim o representante dos uniformizados, complicando ainda mais sua vida pública, abalada com a revelação de sua identidade secreta.
Barra Pesada (edições 9 a 13)
Cansado de lutar, Demolidor decide destruir o Rei do Crime de uma vez por todas! Neste arco, Matt tem outro relacionamento, com a jovem cega, Milla.
O Rei da Cozinha do Inferno (edições 14 a 18)
Maior crise do herói, onde obcecado, tenta livrar a Cozinha do Inferno do crime se proclamando senhor do bairro. Precisou também enfrentar os outros heróis que não apoiaram sua nova postura.
A Era de Ouro ( edições 24 a 28)
Melhor saga da fase Bendis, conta a história de Alexander Bont, o antigo Rei do Crime que saiu da prisão e pretende destruir o Demolidor. A narrativa é espetacular e mistura estética dos anos 60, preto & branco e atual.
Decálogo (edições 31 até a presente edição 34)
Mostra como foi a reação da população de NY durante o ano em que o Demolidor se proclamou Rei da Cozinha do Inferno. Semelhante à um grupo de alcoólicos anônimos, cada morador descreve sua experiência sobre o fato. Grande competência de Bendis como escritor, pois em nenhum momento o Demolidor aparece, mas ainda assim Decálogo é uma história sobre ele.

