O Grito!


Cat Power | The Greatest
Agosto 9, 2006, 1:31 pm
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CAT POWER The Greatest
[Matador, 2006]

Chan Marshall sempre foi um ser inofensivo. Este seu sétimo disco explora ainda mais a sua fragilidade, com seus temas tristes, aspecto etéreos, como se a vida fosse embora de maneira silenciosa, terna. Apenas algumas faixas mais ou menos dançantes como “Could We” destoam do clima introspectivo deste The Greatest. É um disco para se ouvir com calma, já que poderia ter sido lançado em qualquer outra época. O que torna esse disco relevante na carreira de Marshall, ao lado de Moon Pix, é o fato da cantora explorar a soul music americana, como na faixa título, com Marshall tocando sax, piano e violino. Luxuoso e sexy. Cat Power continua sendo o primor da sofisticação do indie-folk. Com The Greatest, em seus temas tristes, ainda continua emocionando com bastante pouco.
NOTA:: 8,0Paulo Floro



Wolfmother | Wolfmother
Agosto 9, 2006, 1:30 pm
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WOLFMOTHER Wolfmother
[Interscope, 2006]

Dizem que o Wolfmother revisita a glória e os pecados de grupos de hard-rock e Heavy Metal dos anos 1970, como Led Zeppelin, Black Sabbath e talvez, AC/DC, mas no fundo eles se parecem muito com o Mars Volta. A diferença é que o Mars Volta direcionou o seu som para uma viagem cabeçuda que por pouco não desbanca para a chatice plena. Outro que se aventura no terreno heavy é o The Darkness, que não passava de uma piada, que de tão forçada, alguns até assimilaram, o que fez com que a banda, conseguisse lançar um bom segundo disco, com menor dose de picaretagem. Sim, o Wolfmother, assim como o Darkness e o Mars Volta, também se aventura nesse terreno heavy, mas com uma proposta mais inteligente, ou sortuda. De fato, o Wolfmother não tem nada de novo e é um pastiche de bandas como Led Zeppelin. Mas isso não é ruim, entenda. MAS, estes australianos conquistaram seu lugar no cenário hype atual. Com um single como “Woman”, um música excelente como “Vagabond”, uma boa acessoria de moda, e segundo muitos um dos melhores shows deste ano, a banda encontrou a receita do sucesso. Além disso é a trilha sonora perfeita pra ficar “ligado” o dia todo. É como se eles fossem um disco do Black Sabbath apertado F5 centenas de vezes, um decalque, mas hoje em dia isso não está mais importando.
NOTA :: 6,5 Paulo Floro



Sonic Youth | Rather Ripped
Agosto 9, 2006, 1:29 pm
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SONIC YOUTH Rather Ripped
[Geffen, 2006]

Este é o disco mais direto do Sonic Youth. Com uma guitarra a menos, a banda mostrou um lado mais pop, assimilável e acessível. Um dos maiores problemas destes nova-iorquinos é justamente se ver atacado pelo seu próprio brilhantismo. Teve até críticos dizendo que os discos da banda só importavam de fato até o NYC Ghost & Flowers (2000). Mas é justamente essa capacidade de dialogar com o mainstream e o experimentalismo do rock de vanguarda que fez do Sonic Youth uma das bandas mais importantes e longevas da música. Outro problema é que a todo lançamento da banda segue-se uma profusão de referências à seus outros discos. “Reena” é o máximo que a banda conseguiu em busca de um refrão assobiável, “Do You Believe in Rapture” é a receita mal-feita de uma canção pop, caótico ao estilo Sonic Youth, mas ainda assim bastante simples e bonita. Depois de vários discos que redefiniram o lugar do rock, sobretudo nos anos 1990 e discos que primavam por uma estética ousada em busca de novas sonoridades, nem sempre bem compreendidas, a banda desde o último álbum, Sonic Nurse, se aproxima cada vez mais de um amadurecimento. Muitos encaram esta fase como uma depressão criativa. Mas parece que a banda está se divertindo. Quando decidiu não salvar o rock, o Sonic Youth fez um disco legal.
NOTA:: 7,0 Paulo Floro



Serena Maneesh | Serena Maneesh
Agosto 9, 2006, 1:27 pm
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SERENA MANEESH Serena Maneesh
[Honeymilk, 2005]

Serena Maneesh, esta banda da Noruega, é um evidente caso de ressaca que o rock muitas vezes experimenta nestes anos 2000. Acabou a efervescência dos originais ficamos com a diluição, muitas vezes interessantes, dos que se utilizam do rastro de criatividade dos ícones. Interpol, Editors e outros conseguiram lançar discos excelentes baseando seus trabalhos claramente numa revisão e apropriação de bandas como Joy Division e Echo And The Bunnymen. O Serena Maneesh, ainda consegue entreter com seu som sorumbático e pesado, mas praticamente mimetiza o som de bandas como Jesus and Mary Chain e My Blood Valentine. De fato, as referências no Serena Maneesh são muitas, que vão de Ride à Primitives, mas não encontramos neste disco de estréia da banda nenhuma novidade que os torne relevantes. Não há a verve que tinha o Is This It? dos Strokes, nem o brilho do Take Them Own, Them Your Own, do Black Rebel Motorcycle Club, mesmo quando parte da crítica os acusavam de cópias. O Serena Maneesh não tem nem mesmo algo que justifique um hype, por isso a banda passou despercebida até mesmo pelos festivais de rock europeus do ano passado. De legal mesmo, uns singles bacanas como “Un-Deux” que lembra as melhores faixas do Loveless do My Bloody Valentine e “Drain Cosmetics”, que possuí um clipe que mostra a outra coisa legal na banda, a vocalista Lina Holmstrøm. De resto, meia dúzia de faixas instrumentais que remetem às piores elucubrações do Sonic Youth. A banda tem boas intenções, mas ao menos neste primeiro disco, desperta apenas a apatia. [Paulo Floro]
NOTA:: 5,5



The Raconteurs | Broken Boy Soldiers
Agosto 9, 2006, 1:27 pm
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THE RACONTEURS Broken Boy Soldiers
[Sum, 2006]

Jack White é bastante consciente quanto às suas pretensões de dominação. Depois de alcançar o renome com bons discos e encarnar uma excentricidade forjada com o White Stripes (ele não usa mais vermelho, branco e preto), decidiu transformar 2006 no ano em que reinaria absoluto com seu projeto paralelo, o Raconteurs. Pra começar, chamou seu amigo Brandon Benson, deu férias à Meg White e conseguiu que alguém dissesse que o disco que estava produzindo iria ser melhor que o Nevermind. Raconteurs e seu disco, o Broken Boy Soldiers é enxuto em suas pretensões; dispensa a bunda-molice de (muitos) discos do Brendan Benson e algumas músicas cansativas do White Stripes. Além disso, agrega um blues-rock vigoroso que não é trazido de nenhum dos grupos. Some tudo isso a um visual retrô e o novo penteado de Jack e teremos então o melhor (ou talvez o mais famoso e bombástico) grupo de rock deste ano. “Steady As She Goes”, o single agridoce lançado antes, é a mais perfeita fusão de Benson e White (agitada-lenta-agitada), uma das melhores músicas deste ano, “Hands” faria qualquer um arriscar um adjetivo como “perfeita”, mas a melhor música do disco é “Store
Bought Bones”, uma prova de que White pode ser conservado para sempre, caso lance discos bons como esse. Jack White se confirma como o ícone máximo da renovada que o rock sofreu na virada dos 2000 (ainda se usa “novo rock”?), e para quem ainda duvida disso, provavelmente irá se surpreender quando outro disco do White Stripes chacoalhar a mídia novamente. Este Raconteurs pode não ser o novo Nirvana, mas tornou redundante e chato, todas as viagens grunges pós-Nevermind que um dia tivemos que aturar.
NOTA:: 8,5 Paulo Floro



Gnarls Barkley | St. Elsewhere
Agosto 9, 2006, 1:25 pm
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GNARLS BARKLEY St. Elsewhere
[Downtown, 2006]

A música pop é pródiga em criar seus próprios mitos. E rápida também. Danger Mouse após “Crazy”, single de maior sucesso deste St Elsewhere é hoje considerado o midas das melodias e respeitadíssimo produtor musical, com álbuns do Gorillaz e Rapture no currículo. Em 2005, Mouse lançou o maldito Grey Album, um disco que misturava o Black Album do Jay Z com o White Album dos Beatles. Com essa mistura no mínimo excêntrica, não tinha como não chamar atenção. Agora o produtor se uniu ao cantor Cee-lo Green para lançar este disco de estréia de seu novo projeto, que, como se não bastasse ter momentos maravilhosos ainda entrou para a história quando o hit “Crazy” chegou ao topo das paradas comercializado apenas pela internet, na forma de downloads. Em mãos erradas uma música que diz “I Make Your Crazy”, pode se tratar de uma aula de clichê, mas trata-se do hino absoluto de 2006, com melodias que mesclam do gospel ao rap. O Gnarls Barkley arejou a música pop, e entenda por pop a música comercial de alcance imediato, sem precisar de nenhum conhecimento prévio sobre qualquer referência que seja. É ligar o rádio e dançar. Isso numa época em que as rádios brasileiras tocam todo dia, 100% de lixo puro. “Crazy” é a “Hey Ya” deste ano, e assim como o Outkast, conseguiu esparecer as tensões pós-11 de Setembro com um disco explosivo em sua mistura de estilos. A diferença é que o Gnarls Barckley tem o soulman moderno Cee-Lo Green, que consegue dar ritmo às mais diversas misturas do DJ Danger Mouse, com sua voz ao mesmo tempo sacra e poderosa. St Elsewhere é o encontro de todos os afluentes de referências pop, que vai do rap ao electro. Além disso, o projeto e o disco são ícones de um novo momento do entretenimento mundial, quando a internet é o meio e o fim para se definir o sucesso e o prestígio de uma banda. Como um Arctic Monkeys, o GB deve seu hype e sua
história ao modo como soube utilizar a rede para só depois tomar de assalto o mundo “real”. Não há uma única faixa que retire a atenção do disco. É para curtir do início ao fim, apreciando as viagens comandadas por Mouse em suas misturas aparentemente caóticas; o trip-hop com soul em “Just A Thought”, o hip-hop electro em “Transformer”, o rock´n´roll desconstruído sob bases eletrônicas em “Gone Daddy Gone”, a excelente cover do Violent Femmes “Smiley Faces”, sem falar da faixa mais legal do ano, “Crazy”. Em suma, St Elsewhere é o registro mais moderno da música hoje e aponta novos rumos para o pop ao mesmo tempo em que coloca tudo numa encruzilhada, “e agora, para onde?” [Paulo Floro]
NOTA:: 8,5



You Say Party! We Say Die! | Hit The Floor
Agosto 9, 2006, 1:24 pm
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NADA DE RIOT GRRRL… ISSO É CAN POP!
Banda canadense destrói o feminismo barato do Le Tigre no seu álbum de estréia.
por Wagner Beethoven

YOU SAY PARTY! WE SAY DIE! Hit The Floor
[Sound Document, 2006]

Quando você lê You Say Party! You Say Die!, o que se passa na sua cabeça? Talvez pelo nome, uma banda gótica ou de metal. Nada é muito previsível para os garotos do Canadá e para o CanPop! Com seu primeiro EP, intitulado Dank Wad, conquistaram o Canadá. Formado por Krista Lower, Belky Minkovic, Stephen O´Shea, Joon Nichols e Carissa Roppens, eles fizeram em 2004 o EP e só em fevereiro de 2005 foi que assinaram com a Sound Document.

E em Janeiro de 2006 o We Say Party! You Say Die! lançou o Hit The Floor. O seu verdadeiro album tem forte influência da ex-Bikini Kill e líder do Le Tigre Katheleen Hanna, só que Krista comanda um conjunto de músicos, só que o You Say Party… apesar da semelhança do riot grrrl, eles vão muito mais além do que o Sadie Benning e cia. Pois é perceptível a influência dos Ramones nas músicas curtas e no punk.

Hit The Floor começa com uma instrumental (“Overtrue”) e vem logo em seguida a faixa “Cold Hands! Hot Bondes” com uma letra cantada fantasmagoricamente que desagua em palminhas, piano e ao vivo. Uma das melhores pela reviravolta das batidas, podendo-se dizer que essa é a música de abertura do álbum. “Stockhoul Syndrome Part 1 e 2”, a guitarra e a furia seguido por teclado e bateria. “You Didn´t!” tem a bateria do Interpol só que é mais L7 do que se imagina. O disco fecha com a música “Don´t Wait Up” e esconde a música “Apocalipse Meow” remixada, após uma faixa de aproximadamente 14 minutos.

You Say Party! We Say Die! não é a imitação do Le Tigre, eles são muito mais legais e não tem o cunho politico… WSPYSD talvez possa ser considerado ao lado do Arcade Fire, um grande exemplo de hype vindo do Canadá.

Hit The Floor é viciante, fique longe por que isso é o delicioso CanPop.
NOTA:: 8,0



Quasi | When The Going Gets Dark
Agosto 9, 2006, 1:20 pm
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ORQUESTRA INDIE LANÇA WHEN THE GOING GETS DARK
A dupla Quasi lança o seu sétimo álbum em boa forma
Por Wagner Beethoven

QUASI When the Going Gets Dark
[Touch & Go, 2006]

A dupla Quasi formada por Sam Commer When the Going Gets Dark(vocal, guitarra e teclado), Janet Weiss (bateria) nascida em Portland que lançou pelo famoso selo Touch and Go o seu sétimo trabalho intitulado When the Going Gets Dark demorou 3 anos para ser gravando, o duo continua na linha indie dos trabalhos anteriores e tem como foco o piano, a guitarra e a bateria. Tem neste trabalho uma acentuada pegada lo-fi no que tange a sonoridade limpa e bastante saturada, um mistura de instrumentos, idéias. Porém continua com a irónia dos trabalhos anteriores, se destacando no meio alternativo americano.

Seu sétimo álbum não faz feio a carreira e a fama que o casal de Pothland construiu desde 1997 em seu debut com o álbum R&B Transmogrification. O multiinstrumentista Sam Commes abusou de sua capacidade e consegui fazer do álbum uma pérola da insanidade blues-rocker. Esta capacidade é ouvida na faixa “The Rhino” onde o piano torna perfeita a junção com a guitarra e bateria.

Certa vez sua mulher Janet Weiss afirmou que o Quasi é único, e que é umas das poucas bandas que começaram anos atrás e que continua na ativa e com a qualidade sonora. Ela que também é uma peça importante da dupla.

O álbum segue com o vocal desesperado de Commes na “When the Going Gets Dark” e junto com a doce e suave “I Don’t Know You Anymore”, que é ascensão auditiva do duo. “Peace and Love” é o recado da quinta faixa do disco, mas para quem pensa que e o álbum fica só nisso, está perdidamente enganado.

Pois o Quasi é umas bandas que sofrem do experimentalismo excessivo. Diferentemente do Radiohead e da Björk, que têm álbuns consistentes e bem construídos, não que a dupla não o tenha, mas que eles infelizmente não conseguiram manter a pegada pop das cinco primeiras músicas, onde água com açúcar é pouco pra definir elas, “Beyond the Sky”, “Presto-Change-O”, “Poverty Sucks” e “Merry X-Mas” são chatas e não acresentam em nada ao álbum!

Embora a guitarra blues e o teclado mutante junto com as batidas secas e cheias de charme de Janet façam do Quasi uma boa banda e de seus álbuns um diversão auditiva. Finalizando com uma “prece”, When the Going Gets Dark é aconselhado, mas se você não gosta de gênios incompreendidos e mulheres modernas, fique longe.
NOTA:: 6,0



Os Vendilhões do Templo | Moacyr Scliar
Agosto 3, 2006, 1:57 pm
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MUITAS PERGUNTAS, POUCAS RESPOSTAS E MESMICE LITERÁRIA.por Fernando de Albuquerque


Uma pequena passagem do evangelho segundo Mateus, e que aparece com a mesma virulência em Lucas e Marcos, foi a mola mestra para despertar, no já tarimbado escritor gaúcho Moacyr Scliar a idéia de escrever um novo romance. Ele, com 69 anos de idade, possui 70 títulos publicados e ocupa cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2003. “Os Vendilhões do Tempo” (Companhia das Letras, 304 páginas) é o título do livro que até certo ponto concentra e aprimora algumas das linhas centrais de sua ficção. A revisão de temas bíblicos, por exemplo, já apareceu antes no romance “A Mulher que Escreveu a Bíblia” e no belo conto “As Pragas”.

Neste livro o escritor parte do episódio de São Mateus para desenvolver três narrativas, em tempos completamente diversos. Sempre pontuadas por muito humor (particularidade nos textos do autor), as histórias colocam o leitor a par da intrincada relação entre religião e comércio, religião e ideologia. Que, segundo Scliar, são contradições bem presentes nos dias de hoje. E se ele não avisasse ninguém saberia, não é?

Logo de cara o primeiro episódio reconta a diatribe de Jesus contra os mercadores sob a perspectiva de uma de suas vítimas. O personagem nem ganha um nome: é chamado apenas de “o vendilhão”. Um agricultor falido, ele se muda para Jerusalém em busca de uma nova oportunidade de vida para sua família. E a encontra, vendendo animais e trocando moedas no Templo, até ser perturbado pela irrupção de um líder religioso que poucos dias depois morreria na cruz. Na sua reconstituição da Jerusalém antiga, Scliar está sempre de olho no mundo contemporâneo – quando era agricultor, o vendilhão se imaginava uma vítima do que hoje chamaríamos de globalização: ressentia-se da livre concorrência com o trigo barato importado do Egito. E aí fica bem claro a tentativa de discutir, mesmo que seja sob o ícone de idéias bem clichês, questões contemporâneas que já foram esmiuçadas em demasia. Afinal os ignorantes bradam que tudo é culpa da globalização. E não tem nada mais démodé que pensar com cabeça de socialista utópico referendando os ideais de nacionalismo.

Já no segundo episódio, o tema é reeditado no Brasil do século XVII. O viés aqui é o do estranhamento cultural: um jesuíta que não entende guarani se vê diante de um velho índio que oferece toscas imagens religiosas em frente à igreja. Séculos depois, o pequeno povoado indígena se transforma em uma florescente cidade do interior, a fictícia São Nicolau do Oeste. É lá, em 1996, que tem lugar o último episódio, narrado em primeira pessoa por um jornalista que trabalha como assessor de imprensa da prefeitura. O vendilhão ressurge em um esquete teatral que os personagens centrais montaram na adolescência, num colégio católico. A condição judaica, assunto fundamental da obra de Scliar, aparece aqui como uma sombra sutil. A idéia que um dos garotos faz do vendilhão é a do estereótipo anti-semita: dedos em garra, nariz adunco, olhos que brilham quando avistam dinheiro. E agora sim a história ganha cores mais interessantes e dá até para antever um final mais trágico.

À luz dos fatos mais recentes, a caracterização que Scliar faz do partido de esquerda que toma a prefeitura de São Nicolau do Oeste (um grupo de gente idealista, um tanto ridícula em seu dogmatismo, mas no fundo um pouco honesta) soa muito ingênua. De qualquer forma, a intenção do autor pode até não ser a de comentar a política do momento, mas infelizmente é o que acaba fazendo. Os “Vendilhões do Templo” mira mais longe: é uma crítica às condenações que os fundamentalismos de todos os naipes erguem contra o dinheiro. Puro ardor de socialista ressentido. O comércio aparece no livro como um empreendimento inovador, libertário – uma das grandes aventuras humanas. Não por acaso, um dos heróis do romance será um simples camelô.

Voltando a questões técnicas: o trabalho de pesquisa é algo bem latente neste título composto por descrições minuciosas da Jerusalém dos tempos de Cristo e das missões jesuíticas no Sul do país, panos de fundo da primeira e segunda parte do livro. A terceira história, interligada às outras duas, se passa nos dias de hoje e tem como mote o choque de conflitos de poder, representado pela ideologia de esquerda, e a religião.

Médico por formação, especializado em saúde pública, Scliar, que tem entre os mestres da literatura o conterrâneo Érico Veríssimo e o tcheco Franz Kafka. Desde cedo aprendeu a conciliar as duas atividades para sobreviver. Antes de “Os vendilhões do Templo”, o escritor teve seu romance do ano passado, Na noite do ventre, o diamante (Objetiva), classificado em terceiro lugar entre os finalistas ao Prêmio Jabuti (da Câmara Brasileira do Livro) deste ano, na categoria romance.

OS VENDILHÕES DO TEMPLO Moacyr Scliar
[Companhia das Letras, 304 pgs, R$ 43]



Marvel Apresenta 24 Hulk e Coisa
Agosto 3, 2006, 1:56 pm
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O GRANDE ENCONTRO
Num ato desesperado do Coisa de tentar derrotar o Hulk pelo punho, o Laranja usa a lábia contra o monstro Verde.
Por Wagner Beethoven

Bimestralmente na revista Marvel Apresenta, a Panini publica historias consagradas pelo público americano e arcos fechados. E no mês de junho publicou Hulk e Coisa – Golpe Baixo. Mas se você pensa que vai ver prédios sendo destruídos e muita pancada com o encontro de músculos coloridos, se enganou. Bruce Jones apenas expande sua genialidade que é bem conhecida pelo fenomenal trabalho como roteirista do Incrível Hulk na revista mensal Universo Marvel. Ele choca novamente com um encontro incomum dos fortões da casa das Idéias, pois ocorre numa mesa de bar no meio do deserto. Esta historia pega como ponto de partida um fato da HQ mensal do Hulk, o ponto que o Hulk está foragido da Polícia e do Exercito Americano. É este o foco e o cume da coisa, explicando que a visita do Coisa não foi somente para mostrar fotos, bater um papo e tentar convencer que um dia já venceu o Hulk. O desenho disforme e único de Jae Lee torna a coisa ainda mais dramática. As capas são fortes e chocantes. Ele consegue ser quase perfeito nos traços, numa história de enganação e traição. Era de se esperar. Assim como todas as historias, Jones é surpreendente. O final pode até decepcionar os leitores, mas certamente eles nunca vão imaginar como O Coisa termina.

MARVEL APRESENTA # 24 – HULK E COISA
Bruce Jones e Jae Lee
[Panini 100 PGS, R$ 6,90.]
NOTA::7,0