SOBRE LIVRARIAS E BANCAS
Sua série tão aguardada foi finalmente lançada. Mas não está nas bancas. Está numa edição luxuosa e acho que é bom guardar mais uma graninha…
por Paulo Floro
Hoje em dia, o número de lançamentos é tão grande que fica praticamente impossível acompanhar tudo de uma vez. Só de títulos periódicos (mensais ou não) chegam quase a uma centena. Humanamente (e financeiramente) impossível é comprar todas as luxuosas edições que todo mês abarrotam as livrarias e comic shops. Para quem colecionava HQs nos anos nos anos 90, quando a editora Abril praticamente monopolizava o mercado, não tem do que reclamar dos dias de hoje, quando séries não demoram tanto para serem publicadas aqui e o número de editoras diversificam as opções de compra.
Contudo, todo esse momento promissor possuí algumas ilusões. A primeira é se acreditar que existe uma indústria de hqs no Brasil. Poucos autores brasileiros conseguem uma oportunidade em alguma editora. E elas são muitas. Só este mês de julho 13 editoras divulgaram lançamentos. Tirando os quadrinhos da Turma da Mônica (Ed. Globo), apenas a Pixel Media prometeu um lançamento de um autor brasileiro, Curupira, de Flavio Colin. Este paradigma existe há muito tempo no Brasil, e o quadrinho brasileiro nunca encontrou espaço nas bancas ou livrarias, mesmo com escolas formando desenhistas e roteiristas, como a Quanta Academia e a Fabrica de Quadrinhos. As editoras preferem não apostar em um terreno arriscado, com personagens desconhecidos ou sem apelo. Com isso, muitos artistas vendem seus serviços para as comics americanas, principalmente a DC. Para criar uma indústria seria necessário séries mensais de artistas brasileiros e não álbuns luxuosos caríssimos, que afastam possíveis leitores. Uma das poucas séries de sucesso brasileiras foi Holy Avenger, de Marcelo Cassaro e Erica Awano, publicadas pela editora Talismã e vendidos por R$ 3,99. A série teve 41 edições (entre a série normal e alguns especiais) e foi baseada num cenário de um jogo de RPG. Inspirado nos traços do manga japonês, mesclou variados estilos (das comics americanas às aventuras da idade Média). Há várias obras importantes de autores brasileiros nas livrarias, como Lourenço Mutarelli, Julio Shimamoto, Gabriel Moon e Fábio Bá, mas o problema seja justamente a falta desses autores nas bancas.
Outro impecilho para o surgimento de um mercado de quadrinhos no Brasil é o preço. Se por um lado obras importantes são lançadas, por outro poucos lêem, por que na maioria das vezes custam meia centena de reais. Com uma tiragem pequena, só jornalistas, grandes colecionadores e gente com dinheiro bastante pra comprar qualquer porcaria acompanha todos os lançamentos. A Via Lettera e a Opera Graphica são as líderes quando se trata em cobrar caro em um “gibi”. A recém-lançada Y-O Último Homem, da Opera Graphica, com 136 páginas e acabamento impecável custa módicos 56 reais. A mesma edição ORIGINAL americana sai por 40. A Via Lettera, com um respeito ENORME com a obra e sobretudo com os fãs, relançou Watchmen em QUATRO volumes (!), com 132 páginas e papel off-set por R$ 42 cada! Ou seja, para se ter uma das maiores hqs de Alan Moore desembolse 168 reais. A edição americana em um único volume, papel couché sai por menos que isso. A Conrad relançou Sandman com um acabamento e edição primorosas, mas o custo benefício é grande. Com preços que variam entre 48 e 60 reais, as edições do Senhor dos Sonhos, apesar de caras, é um investimento à altura da importância da obra. Além disso, a Conrad já lançou obras com um preço justo, a exemplo de Ero Guro de Suehiro Maruo e os dois livros de Borgia por 33 e 39 reais. A Pixel também investe em formar um público leitor trazendo títulos clássicos e lançamentos de sucesso a preços interessantes, além de continuar a publicar Spawn mensalmente. Os livros de Corto Maltese possuí uma edição que supera a original européia, e custa 33 reais.
Estas editoras, sobretudo a Pixel que já publica Spawn, poderiam investir em lançar séries nas bancas, com uma tiragem maior e preço mais barato. A curto prazo, o retorno não seria grande, mas talvez o público comprasse mais quadrinhos. Ninguém quer retornar ao momento anterior, quando apenas uma editora cuidava praticamente de todos os lançamentos (A Abril), mas o acesso a essas obras poderia aumentar caso a) o preço diminuísse ou edições mais acessíveis sem muito luxo, pudesse diminuir os preços ou b)todos nós tivéssemos dinheiro suficiente para comprar os principais lançamentos e ainda sobreviver até o fim do mês.
UM APURADO SOBRE AS EDIÇÕES MENSAIS
Nem só de edições luxuosas da Conrad, Pixel e Opera Graphica anda o agora promissor mercado de quadrinhos brasileiro. A Panini, a maior editora de revistas em quadrinhos no país lança em média 35 lançamentos por mês, incluindo aí as mini-séries, os encadernados e os mangas. Evidente que, como detentora da licença para publicar Marvel e DC, seja ela a responsável por “movimentar” o mercado. O trabalho está indo muitíssimo bem, e com uma boa grana dá pra se acompanhar no mínimo umas 10 séries imperdíveis…
1- JOVENS VINGADORES [Young Avangers]
Finalmente a Marvel conseguiu criar um grupo de super-heróis adolescentes divertido (ou no mínimo verossímel). Os Jovens Vingadores são uma espécie de versão cover dos ícones originais. Patriota, Hulkling, Rapaz de Ferro e Asgardiano tentam utilizar seus poderes contra o crime, apesar da inexperiência que os mete quase todas as vezes em problemas. Neste primeiro arco, temos a participação de Jessica Jones e Capitão América, e a busca do Rapaz de Ferro em tentar reverter seu futuro como um dos maiores vilões da Terra. Os desenhos de Jim Cheung é excelente em retratar heróis adolescentes e o roteiro de Allan Heinberg ao mesmo tempo em que foge das tramas rasas, mostra que é possível escrever histórias de jovens com poderes sem recorrer à completa idiotice como o lixo que é Os Novos Mutantes – Academia X de um tal de Nunzio não-sei-o-que, publicadas em X-Men. A série é de longe a mais pop da Marvel e cai no gosto dos leitores. Não raro recebe adjetivos como “viciante” e “fabuloso”. (Publicado em Novos Vingadores)
2- DEMOLIDOR [Daredevil]
A fase de Brian Michael Bendis no título do Homem Sem Medo definitivamente entrou para a história. Ao lado do desenhista Alex Maleev elevou as histórias a um patamar clássico. Com uma trama envolvente, Bendis promoveu uma reviravolta na vida do Demolidor, revelando sua verdadeira identidade. Com isso, Matt Murdoch precisa lutar contra os seus inimigos e pela sua própria identidade. A série desenhada num estilo noir é cheia de recursos narrativos, que fazem da série uma das melhores já feitas pela Marvel. (publicado em Demolidor)
3- OS SURPREENDENTES X-MEN [The Ashtonishing X-Men]
Os X-Men de Josh Whedom e John Cassaday contrastam em quase tudo com o estilo freak do roteirista anterior, Grant Morrison. Os mutantes guardaram o couro preto e voltaram a vestir colantes. Whedom decidiu se focar em um grupo pequeno de mutantes para explorar a personalidade e a história de cada um deles. Os diálogos só perdem mesmo para o Demolidor de Bendis, mas é impagável o atrito entre Kitty Pride e Emma Frost. Com Os Surpreendentes X-Men ninguém precisa ler nenhum outro título dos X-Men, com histórias cansativas e repetitivas do obtuso Chris Claremont. (publicado em X-Men Extra)
4- BATMAN [Batman]
A revista inteira do Batman é ótima. Com séries como Detective Comics e Batman já tivemos sagas que modificaram a história do Homem-morcego e trouxeram algo novo na história do herói nos quadrinhos como nunca se acreditou que fosse possível. Os escritores Jeph Loeb, Brian Azzarello e desenhista como Jim Lee revitalizaram as histórias do Batman sem precisar de um grande evento. (publicado em Batman)
5- FALCÃO NOTURNO
O selo MAX, a tentativa da Marvel de criar um catálogo de séries adultas que pudesse explorar ainda mais o aspecto ultra-realistas de seu universo segue lento e cambaleando. A série de maior sucesso (de crítica inclusive) Poder Supremo acaba de ser zerada, mudada de nome para Esquadrão Supremo e passa a ser publicada pelo selo Marvel knights, para alcançar um maior público. Ainda assim o Marvel MAX ainda conta com grandes títulos como é o caso deste Falcão Noturno. Escrito por Daniel Way, o herdeiro definitivo de Garth Ennis, a mini-série conta à luta da versão marvel do Batman contra o Palhaço, que pretende dizimar a população de Detroit. Ultraviolenta, a série é desenhada por Steve Dillon, o que nos faz lembrar bastante Preacher, com tudo o que ela tem de perverso. (publicado em Marvel MAX)

UM CREEP APAGADO
por Paulo Floro
THOM YORKE The Eraser
[Sum, 2006]
O disco The Eraser, o solo do Thom Yorke, líder da maior banda do planeta, o Radiohead, já havia sido “lançado” na internet desde o finzinho de maio/início de junho. Péssimo, pois desde essa época os fãs da banda inglesa atestaram que o creep mais querido da música pop inglesa não precisava MESMO de um disco solo. Não como esse Eraser. Chamá-lo de minimalista é ser condescendente, trata-se de um vazio criativo tremendo, que se fosse feito por um outro artista que não o líder da banda mais importante do mundo hoje, seria logo taxado de pastiche do Radiohead ou coisa pior. Esperava-se que Thom Yorke pudesse exercitar à exaustão suas feições extraterrestres, mas o Radiohead já fez isso bem melhor, até mesmo no Amnesiac (2002), um disco só de sobras. Dessa maneira, o que encontramos aqui é a tentativa de Yorke retirar o último sumo do bagaço da esquisitice que cultivou com sua banda durante 15 anos. O início tímido nos faz acreditar que veremos uma nova ode moderna ao jazz, com climas que se sobrepõem à música em si (efeitos, instrumentos, vocal), mas na verdade não temos muita surpresa. Visto que a própria banda inglesa já não assusta mais o pop, o Thom Yorke e seu Eraser é apenas mais uma obra pretensiosa de um vôo-solo de um vocalista. Discos solo são sempre complicados.
Provavelmente Thom Yorke queria transformar seu álbum numa espécie de obra radiohediana, sem se afastar muito. Todos os integrantes da banda auxiliaram de alguma forma com o disco. Jonny Greenwood criou alguns samplers e barulhos, Ed O´Brien tocou banjo, e Yorke surrupiou várias sobras de estúdio, muitos pedaços de músicas que já estavam praticamente no lixo e trechos de canções que estão nos discos oficiais do Radiohead. Mas segundo o vocalista, só os mais atentos irão perceber. Os BEM atentos. Com faixa The Eraser , Eraser começa uma lamúria meio cadenciada; depois em Analyse se afunda
numa espécie de letargia que é o resto do disco. Há alguma salvação em Atoms For Peace e a faixa número nove, Cymbal Rush, mas não há do que se empolgar. Foi dito que Yorke tocou a maioria dos instrumentos, mas a impressão que se tem é que se pode fazer tudo com uma bateria eletrônica. Até um disco solo. Nem mesmo sua produção elegante e caprichada torna The Eraser um disco interessante. Este álbum dificilmente será lembrado e só servirá para calar a boca dos quem dizem que o Radiohead é Thom Yorke.
NOTA:: 5,5

CRESÇA E APAREÇA
por Paulo Floro
CAMERA OBSCURA Let´s Get Out Of This Country
[Merge, 2006]
Descobrir o som do Camera Obscura era algo tido como orgulho. A banda escocesa ja era uma opção off-mainstream para o Belle and Sebastian. Os übber-indies já exibiam os discos do Camera Obscura como trilha sonora de suas mazelas, enquanto o mundo mortal ouvia os discos monocromáticos do Belle and Sebastian. Mas sempre é difícil superar o carma de uma comparação, principalmente quando se trata de uma banda ícone de um estilo, de uma fôrma. E é mais difícil para o Camera Obscura, que nunca fez muito sucesso nem na Europa nem em canto nenhum, nunca tocou em festivais, nunca teve singles badalados em publicações de músicas, apesar dos discos sempre muito elogiados.
A estreita relação do Camera Obscura com o Belle and Sebastian era mais do que uma proximidade musical. Stuart Murdoch, dono do B&S, produziu “Eighties Fan”, um dos primeiros singles dos escoceses e Richard Colburn tocou bateria numa das últimas formações do grupo. Além de que, Tracyane Campbell é uma espécie de Isobel Campbell com mais vigor. No Camera Obscura, Tracyane comanda a sonoridade de quase todas as canções de Let´s Get Out Of This Country, sendo ela a cara e a voz da banda, assim como Murdoch faz no Belle & Sebastian.
O disco Let´s… Possui dois objetivos. O primeiro é mostrar para o mundo pop e a quem interessar que o Camera Obscura tem uma identidade e algo relevante a oferecer e que não se trata de mais uma banda fofa triste-alegre. A segunda, e talvez a mais importante é fazer com que a banda finalmente conquiste um público maior não só na Europa, mas também nos Estados Unidos, onde o disco já foi lançado. O Snow Patrol também já fez algo parecido ao buscar o grande público, ao lançar o Final Straw (2004), depois de dois excelentes discos cultuados por um pequeno séquito de fãs.

Let´s Out… É um disco que recupera um glamour perdido, tenta criar uma atmosfera de ilusões perdidas, como um filme dos anos 30, a começar pela capa do disco. Campbell se esforça em criar um clima retrô nas faixas. Sua voz remete a uma tristeza, apesar das músicas não serem efetivamente tristes. Pelo contrário, “Lloyd, I´m Ready To Be Heartbroken” não faz feio em uma festa com seus tecladinhos Trendy, “Come Back Margarett” sofre de falta de vigor, foi feito para se ouvir depois de um fora. Então as pessoas vão ouvir escondidas, dizendo que não precisam de mais um disco como esse. Muitas vezes ser indie é se esconder.
O principal ponto no som, na atitude, no estilo e na fórmula do Camera Obscura e de seu pop sem muito mistério é o glamour. É indie e fofo, mas com glamour. E com glamour esta banda escocesa poderá ilustrar péginas da Wire com seus vestidos dos ‘60 e com sorte vender alguns discos longe dos fãs mais chatos.
NOTA:: 8,0

O MAIOR HERÓI DA TERRA PROTAGONIZA DRAMA FASHION
por Calvin Curtis
SUPERMAN – O RETORNO
dir: Bryan Singer [EUA, 2006]
A manchete pode ser um tanto taxativa, mas é precisa poucos minutos para se constatar: Superman – O Retorno exagerou no drama. O filme é um dramalhão estrelado por um super-herói. Sim, temos cenas espetaculares, como a sequência em que o Superman salva um avião em queda livre e o pousa num campo de futebol, outra em que após uma luta contra Luthor leva ao espaço uma montanha de cristal e Kryptonita. Mas o mote do filme é a relação entre Lois Lane (Kate Bosworth) e o amor platônico que a jornalista nutre pelo homem de aço (estrelado pelo novato Brandon Routh). Depois de cinco anos longe da terra, quando partiu em busca de seu planeta natal, Krypton, o Superman retorna e encontra Lois Lane casada e com um filho de…. 5 anos! (Desculpem se estraguei alguma coisa). Ela irá receber um Pulitzer por uma matéria “Por que o mundo não precisa do Superman”. Após o seu retorno terá que lidar com seus sentimentos em relação ao heroi de capa e seu marido Richard White (James Marsdem, o Ciclope de X-Men, mais uma vez se dando mal em triângulos amorosos) Lex Luthor, interpretado por Kevin Spacey, também retornou e planeja destruir o mundo, matando bilhões de pessoas, um mundo que em sua mente insana, merece morrer por ser tão caro ao Superman. Spacey fez um ótimo trabalho como Luthor. Conseguiu mesclar o tom camp e irônico dos filmes de Richard Donner da década de 70 com um ser inescrupuloso e sádico dos quadrinhos. Tirando ele, todos os outros personagens coadjuvantes são dispensáveis e desinteressantes. O próprio Superman não se importa muito com Luthor, por que ele está mais preocupado em saber mais sobre os atuais sentimentos de Lois, chegando ao ponto de usar a visão de raios-x para bisbilhotar a vida da moça. É certo que a relação entre os dois jornalistas do Planeta Diário (Lois e Clark) sempre foi um elemento de muita importância na história do Superman, mas o diretor Brian Synger achou que deveria fazer desse elemento o cerne principal de seu longa. E houve muitos excessos. Tantos excessos que culminou em várias falhas na própria narrativa e cenas um tanto ingênuas e/ou melosas, como por exemplo o fato do Superman estar em coma e Lois ir até lá beija-lo e forçar o despertar do herói. Não bastasse esse take “Bela Adormecida”, na mesma cena vemos o uniforme do herói ao lado. Quando chegou ao hospital, os médicos rapidamente rasgaram a roupa para e o colocaram na mesa de cirurgia. Sim, a mesma roupa que suporta entradas na atmosfera, balas de metralhadora e altas temperaturas. Na cena em que Lois vai até o quarto do hospital, a roupa já está refeita e o Superman foge com ela. Novinha! Um dos filmes mais esperados deste novo século, o retorno do Superman inicia uma franquia que continua a série de tv Lois & Clark (no Brasil, As Novas Aventuras do Superman), onde o Superman e suas aventuras eram menos importantes do que a relação entre ele e Lois. Se pelo roteiro, talvez, Superman – O Retorno não tenha sido feliz, fazendo um dramalhão pop com cenas de ação, por outro reviveu o espetáculo que é o homem-de-aço. As cenas com o Superman em ação são magistrais e provam o quanto é possível, hoje em dia, tornar verossímel um homem voar. Brandom Routh também está perfeito
como Superman, do queixo quadrado ao penteado. Sua interpretação é tão bem executada que nos leva a entender o por que Lois, nem ninguém, ainda descobriu que Clark Kent, repórter do Planeta Diário é o Superman por debaixo daqueles óculos. Routh consegue modelar duas personas bem distintas, o que mostra um Superman que esconde sua real identidade e não um Clark que possui um alter-ego poderoso. As personalidades bem delimitadas do Superman e de Clark estava certamente no roteiro, mas construí-lo com tamanha eficácia foi uma façanha de Routh. O novo uniforme do Super é glam, uma mistura do estilo da Era de Prata e da mini-série Reino do Amanhã. Outra referência interessante é a homenagem que Synger faz ao longa original de 1974, conservando a música tema e a abertura em estilo retrô. Superman – O Retorno foi um projeto bem pensado, com vários elementos que retoma o personagem para o top das adaptações das hqs para o cinema. O diretor Bryan Singer deu o sangue e muito do mérito do filme é seu. Poderia ter se tornado um clássico inconteste, moderno e elegante, mas imprimiu no herói uma dramaticidade afetada, gratuita, ao explorar sem muito êxito a relação amorosa com Lois. Mas ainda assim, o seu retorno é um dos maiores espetáculos da Terra.
NOTA::6,5

NEM TUDO QUE VOA É SUPER. – OU O APURADO-MOR SOBRE O SUPERMAN.
por Paulo Floro
Desde que foi criado em 1938 por dois garotos judeus, o Superman é a maior instituição da cultura pop, alternando bons e maus momentos em diversas mídias, mas ainda assim sempre popular. Mas o que faz um homem truculento voador, vestido com as cores da bandeira norte-americana, com a cueca por cima da calça fazer tanto sucesso, a ponto de ser uma imagem fixa nas mentes de todo o planeta?
Para os milhões que foram aos cinemas ver o retorno do Superman (veja resenha do filme logo abaixo), talvez a imensa maioria não saiba muito da longa trajetória do herói nos quadrinhos (a sua, digamos, mídia natal) e das várias mudanças que o homem-de-aço já sofreu ao longo dos seus quase 70 anos. Para os espectadores (e para muitos críticos de cinema que nunca leram um gibi do herói), o conceito do Superman é o que importa. A idealização do herói como um deus estrangeiro que não apenas protege a humanidade como lhe serve de exemplo e idealização de justiça. Vestido com as cores da bandeira dos Estados Unidos, o Superman pretende evocar o ideário de liberdade e justiça, além de representar o poderio ianque, sempre de prontidão para salvar a todos da catástrofe que se aproxima.
Superman representa o mito moderno do herói definitivo. Todos os seus elementoso levam a se transformar num mito. E não poderia ser diferente. Desde que foi criado em 1938 por Jerry Siegel e Joe Shuster, nenhum outro herói preenche o ícone de poder e justiça como ele. Como um deus, praticamente tudo está a seu alcance. Foi o super-herói mais forte que existe por muito tempo. Alimentado pelo sol, pode ir ao espaço, percorrer grandes distâncias e segurar um avião com as mãos. Se com esses poderes, o Superman poderia se afastar da humanidade, intocável como um deus, ao contrário, ele se entrega como seu salvador máximo.
Depois de uma carreira nos quadrinhos cuja qualidade oscila bastante, um seriado para a tv e quatro filmes que eternizaram o ator Christopher Reeve como o Super-Homem, o herói azulado retorna aos cinemas nas mãos de um nerd de responsa, Bryan Singer, responsável por dois filmes dos X-Men de relativo sucesso, chega às telas Superman O Retorno (Superman Returns). Com esse blockbuster lotando os multiplex, cresce o interesse pela história e mitologia do Superman. Sobretudo aonde ele sempre pôde ser encontrado, nas histórias em quadrinhos.
FAQ DO HOMEM-DE-AÇO
por Calvin Curtis
Quase 70 anos de personagem e muita coisa ficou no caminho. Quem hoje assiste ao novato Brandon Routh vestir a capa rubra e o colante azul do Superman, não sabe que o herói já morreu, teve programa de rádio e já levou uma surra do Batman. A seguir O GRITO selecionou algumas perguntas essenciais para se entender o homem-de-aço e não ficar perdido.
- Depois de criarem o Superman, os criadores Jerry Siegel e Joe Shuster se tornaram milionários para o resto da vida.
Se hoje em dia, idéias idiotas rendem milhões de doletas, antes não era bem assim. De fato Siegel e Shuster criaram o Superman em junho de 1938 para o primeiro número da revista Action Comics (que até hoje publica histórias do herói). No entanto os dois jovens criadores venderam o personagem para a Detective Comics Inc. por 130 dólares na mais lucrativa compra de direitos da história da indústria do entretenimento de massa. Siegel e Shuster já vinham trabalhando para a DC havia algum tempo e nos primeiros anos do Superman escreveram as histórias que serviram para delinear a origem do personagem. Demorou algum tempo para os dois criadores se ligarem na burrice que fizeram, pois perceberam que transformaram a DC Comics numa das mais ricas empresas de quadrinhos dos Estados Unidos. Em 1946 questionaram judicialmente os direitos do personagem, mas a DC venceu a disputa. Mesmo recebendo 100 mil dólares por um acordo em que desistiam da pelega judicial pelos direitos do personagem, os dois foram excluídos do corpo criativo da empresa e tiveram que sair em busca de outras atividades. Em 1975, Jerry ameaçou uma campanha pública sobre a falta de consideração e respeito da DC para com os criadores do Superman. Com medo da repercussão negativa próximo ao lançamento do primeiro longa do Superman, a DC decidiu pagar uma pensão vitalícia de 35 mil dólares e a informação antes de todo produto cultural ligado ao herói: “Superman, criado por Jerry Siegel e Joe Shuster.”
- Quando Superman apareceu e como conseguiu a fama?
No início do personagem, o Super era bem mais violento do que é hoje e não voava, só dava grandes saltos. Seu “S” também era bem discreto. Mas em 1939, Siegel e Shuster criaram um título próprio para o Superman inaugurando a Era de Ouro da DC Comics e delineando os elementos do personagem que dura até hoje: a origem, a juventude como Superboy, o planeta Krypton, Metrópolis, o Planeta Diário (na época Estrela Diária, Daily Star). Lex Luthor apareceu em 1941, um vilão à altura para o filho de Krypton e o relacionamento com Lois foi explorado por Siegel e Shuster até o afastamento dos dois em 1947. Mas o que fez com que as comics do Super-Homem explodirem enquanto fenômeno pop foi o programa de rádio de 1943. Pra se ter uma idéia do impacto que o programa radiofônico teve na vida do Superman, alguns elementos importantes na cronologia, como a kryptonita, foi introduzido primeiro no rádio e um ano depois nos quadrinhos. Em seguida, na chamada Era de Prata (1959-1970), a origem do personagem foi modificada e com a volta de Jerry Siegel foi feita uma reformulação crucial, resultando no herói que conhecemos hoje.
- O azulão morreu mesmo?
Sim. Em 1992. E para matar o maior super-herói do planeta o nome do vilão não poderia ser outro: Apocalypse! Numa dramática batalha nas ruas de Metrópolis, o homem-de-aço morre, causando um enorme impacto em todo universo DC. A repercussão da morte do Superman na mídia também foi grande, o que serviu para aumentar a popularidade do herói. Várias séries foram feitas sobre a morte, e como a DC não é insana, nem burra, não demorou para um Superman novinho em folha para os anos 90 retornar e acertar as contas com seu algoz no sucesso de vendas A Vingança do Superman.
- Depois de quase 70 anos, vou ficar perdido ao ler os quadrinhos do Superman hoje.
Não exatamente. Antigamente ler quadrinhos da DC Comics era muito complicado. Com milhões de universos paralelos, uma cronologia bagunçada e várias versões dos heróis morrendo e retornando, ficava difícil acompanhar qualquer título. Hoje em dia, com tudo (um pouco) mais organizado, a cronologia da editora já não pesa mais sobre as aventuras do personagem. Além disso, todas as histórias são divididas em arcos com início e fim, que até certo ponto são independentes entre si. No Brasil, a revista mensal Superman, publicada pela Panini, traz todos os títulos do azulão publicados nos Estados Unidos, incluindo Action Comics. Recentemente tivemos ótimos arcos de Brian Azzarello e Jeph Loeb. Outra revista interessante é Superman/Batman. Hit nos EUA, a revista mostra os dois principais heróis do universo DC em aventuras inusitadas e é escrito por Loeb e ilustrado por Ed McGuiness. Superman bate o ponto também na revista da Liga da Justiça, também publicada pela Panini. Pra quem não quer ficar preso às séries mensais, atualmente nas bancas pode ser encontrado os encadernados das últimas mini-séries do Superman, Entre a Foice e o Martelo, de Mark Millar e Dave Johnson, que conta a origem do herói caso caísse na URSS, Identidade Secreta de Kurt Busiek e Stuart Immonem, sobre um garoto com os poderes do homem-de-aço, Dia do Juízo Final de Dan Jurgens, relembrando o dia da morte do Superman e em breve, O Legado das Estrelas, mostrando a origem definitiva do super-homem.
- Por que a cueca por cima da calça?
Ele é o ser mais forte do universo, deve ter algum motivo.
UM OUTRO SUPER-HOMEM::
por Calvin Curtis
Desde que foi criado à quase 70 anos, várias interpretações já foram criadas para o homem-de-aço. Nem sempre boas, essas interpretações se utilizavam dos valores e elementos clássicos que fazem do Superman o ideal máximo de um super-herói.
Alan Moore em 2001, se utilizou de uma criação de Rob Liefeld (conhecido por ser um dos piores desenhistas de todos os tempos, além de criar personagens como Cable, Briagada, e outras coisas que os quadrinhos tiveram o desprazer de conhecer) para criar a sua versão do Superman. Pois o destino pregou uma peça nas hqs (ou talvez, o próprio Moore tenha pregado…!) quando Supremo, o plágio de Liefeld foi transformado numa das grandes obras dos quadrinhos nas mãos do escritor inglês. Moore fez de Supremo um libelo sobre a dificuldade dos super-seres de se conectar com o mundo das pessoas normais. Quem também analisou essa problemática, desta vez com o próprio Superman foi Mark Waid em Reino do Amanhã (Kingdom Come, 1996), ao mostrar o azulão velho e um tanto sem paciência.
Nesta série, que mostrou o futuro do Universo Dc, Clark Kent não nutre muito otimismo sobre a humanidade e suas várias facetas. Outro Superman diferente foi apresentado por Frank Miller em Batman – O Cavaleiro das Trevas (Batman Dark Knights, 1989). Naquela que é considerada uma das maiores obras de quadrinhos de todos os tempos, ao lado de Watchmen de Alan Moore, o Superman é um capacho dos ideais norte-americanos, num governo extremista que gerencia uma enorme produção atômica. Miller, utilizou o Superman para fazer uma apologia política do poderio americano. Vestido com as cores das bandeiras dos Estados Unidos, o super-homem esconde sob seu semblante austero, o intocável e o invencível. A crítica de Frank Miller à arrogância idealista e militar norte-americana atinge o ponto extremo na cena da mini-série onde um Batman velho, sem esperança e escrúpulos dá um soco na cara do homem-de-aço.
Em 2004, Mark Millar transportou o Superman para a URSS na mini-série Entre A Foice e O Martelo, que mostra uma realidade alternativa onde o filho de Krypton cai na União Soviética ao invés dos EUA. Durante um tempo capacho de Stálin, o Superman passa a questionar suas próprias ações, tendo em seu encalço novamente um certo homem-morcego. A série, acaba de ser relançada pela Panini num encadernado com as capas originais e alguns extras. A Marvel também fez o seu Superman. Na década de 1970, o Esquadrão Supremo era um grupo que buscava “homenagear” os principais heróis do Universo DC, criando versões de seus principais nomes para o Universo Marvel.
Assim dessa forma foi criado Hipérion, que é uma cópia evidente do homem-de-aço. Ele voa, lança raio pelos olhos, tem super-força, invulnerabilidade e chegou à terra numa nave, caindo numa fazenda. Abordando a dificuldade de lidar com os próprios poderes, Hyperion tornou um sucesso a série Poder Supremo (Supreme Power, 2003), do selo adulto Max. Na série, é recontada a origem do “superman” sob uma ótica realista.
VOCAÇÃO OU OBSESSÃO?
por Fernando de Albuquerque
VOCAÇÃO DO PODER Eduardo Escorel e José Joffily
[Brasil, 2005]
O que leva um cidadão comum, que dispõe de boa dose de popularidade, candidatar-se a um cargo público? Essa é uma das perguntas que Vocação do Poder, filme de Eduardo Escorel e José Joffily, faz, e responde com muita destreza. O documentário mostra o percurso de 6 candidatos ao cargo de vereador nas eleições de 2004 na cidade do Rio de Janeiro. O filme, que já foi exibido em festivais importantes do país como o “E Tudo Verdade” e na última “Mostra Internacional de Cinema de São Paulo”, só agora chega às telinhas recifenses e no circuito alternativo. Em um cinema não muito estruturado. Está sendo exibido, no Cine Teatro Apolo, com sessões de terça a quarta e nos finais de semana nos horário das16h, 18h e 20h.
A princípio muita normalidade, mas quando as primeiras imagens surgem na tela o espectador, que com toda certeza esperava um filme bem sisudo vê esta tese cair por terra. O documentário possui várias particularidades. A primeira delas está na escolha dos protagonistas. A equipe incluiu apenas aqueles que estavam se candidatando, pela primeira vez, a vereador do Rio e que, de preferência, fossem jovens. Para realizar a escolha foi disposto um formulário on-line, para que os interessados em participar do projeto respondessem 16 questões sobre sua orientação política, partidária e as condições da campanha; com isso foi possível escolher os candidatos que representassem diversas alternativas da conjuntura política da cidade. Foram 70 inscritos. E as gravações tiveram início nas convenções partidárias desaguando na comemoração de alguns e na decepção da derrota de outros, ao final das eleições. Tudo isso passando por uma apuração bastante aflita e a reação no dia seguinte.
A narrativa é bem linear, nada de muita experimentação. Pelo contrário há o retrato fiel de cada participante. De um lado está a Pastora Márcia Teixeira, com 45 anos; do outro um funqueiro cheio de gírias: o MC Geléia, com 27 anos. Noutra ponta do está Carlo Caiado, 24 anos, e uma campanha com mais pirotecnia que discurso; em outro extremo está André Luiz Filho, com apenas 21 anos, herdeiro político dos pais (ambos deputados estaduais), a seu favor um assistencialismo daqueles bem baratos. Ainda faltam Felipe Santa Cruz com um discurso altamente politizado, talvez o mais consciente de todos, e o “esforçado” Antônio Pedro de Mello, com 30 anos. Todos são diferentes espelhos da política nacional. Dá até para estabelecer algumas comparações.
Voltando ao institucional: o filme reproduz, entre uma tomada e outra, as dificuldades de campanha de cada candidato. Bem como as diferenças gritantes entre eles. Enquanto um se dedica ao corpo-a-corpo subindo os morros, outros se focavam nas comunidades em que seu nome já era conhecido de alguma forma. Noutro extremo um dos candidatos rezava com muito fervor e passeava em locais mais populares. Isso enquanto um fazia discursos bem analíticos e enriquecedores para platéias vazias. “Isso é o reflexo do descrédito na política nacional. Um auditório da Puc com menos de 20 alunos para debater sobre política”, disse Felipe Santa Cruz em um dos momentos de frustração. A cena se conclui com uma seqüência dele, abraçado à sua esposa, passando pelas famosas pilastras redondas, bem no estilinho da arquitetura dos anos 50, dos terraços da Puc do Rio.
Alguns problemas técnicos e de edição chegam a irritar o espectador. Um deles é a presença, em alguns momentos, do diretor em cena e mesmo a falta de enquadramento da câmera que deixa o microfone aparecer. Alguém pode até dizer que “a presença do diretor” demonstra uma questão estética. Mas não nesse filme. Quando uma obra se destina a abraçar questões de imagem possui propostas diferentes. Não se pode confundir desleixo com experimentação. E lá pelo meio da exibição vem a pergunta: onde está a pastora Márcia? São poucas as tomadas em que são exibidas a campanha da pastora. Mas tais desvios, digamos assim, não diminuem a atração causada pelo filme. Vale a pena ser visto não só pela indignação que causa, mas também pela boa dose de risadas proporcionada por cenas bem escatológicas.
NOTA:: 7,0
ENCURRALADAS COTIDIANAS
por Fernando de Albuquerque
O CORTE
Konstantin Costa-Gravas
[França/Espanha,2005]
O que fazer quando se perde o emprego? Em tempos que a taxa de desemprego chega às alturas essa é uma pergunta, no mínimo, pertinente e que o cineasta Konstantin Costa-Gravas satiriza, com muita maestria, em seu novo filme “Le Couperet”, que chega ao Brasil como O corte. Nele, ele lida com a questão do capitalismo, ganância corporativa e tudo utilizando a melhor forma de crítica: a comédia. Mais precisamente um excelente humor-negro, ao mesmo tempo meio tenso, meio desleixado. Nada que se pareça ao estilinho “ideologicamente-chato” de Michael Moore.
O filme narra a história de Bruno Davert, um típico executivo da indústria de papéis, que está a dois anos sem conseguir emprego e ao ver suas economias chegarem ao fim sente que seu estilo de vida começa a ruir. Isso acaba fazendo com que Bruno “enlouqueça” e comece a traçar um mirabolante plano para recuperar seu emprego: assassinar o homem que ficou no seu lugar e todos os possíveis concorrentes, qualquer semelhança com a recente situação brasileira no qual uma estagiária mandou matar suas concorrente ao emprego é mera coincidência, mas acaba por trazer a história, por mais absurda que seja, mais próxima de nós. O filme alterna as incursões criminosas de nosso anti-herói com uma outra empreitada igualmente complicada: a de manter sua família na completa ignorância e plenamente unida apesar da crise. Quase uma façanha já que várias vezes o próprio Bruno é visitado por agentes da polícia francesa em cenas carregadas de uma tensão histérica.
As investidas do desajeitado,porém bem sucedido serial killer rendem risadas e é notável como Gavras sustenta o humor e o suspense após tantos anos de filmes densos e sérios; como em Desaparecido (“Missing” de 1982, que recebeu indicações ao Oscar incluindo melhor filme e levou o de roteiro adaptado) e o recente Amém, que lida com a omissão da igreja no período do Holocausto. Em O Corte ele se diverte, inclusive brincando com clichês de filmes americanos como o noticiário de televisão que sempre fala sobre o assunto do filme (assassinatos de executivos da indústria do papel) na hora que os personagens principais estão vendo; ou mesmo no exagerado product placement que pontua o filme inteirinho, mas você nunca sabe exatamente de que produto se trata. Chega a ser pilhérico a quantidade de propaganda de calcinhas e lingeries em outdoors e nunca se sabe a marca, ou se realmente são propagandas de calcinha ou de um motel com shows eróticos.
Dividindo boa parte dos méritos está a ótima atuação de José Garcia, que com sua aparência medíocre e ótimo timing consegue convencer a platéia. Ele atua como cidadão comum levando às últimas conseqüências o infortúnio do desemprego. Mesmo que a verossimilhança de alguns acontecimentos seja duvidosa. Acho que todo mundo que já esteve desempregado por um algum período sem emprego, sem sombra de dúvida, vai se identificar com o drama e rir com a tensão meio desleixada do protagonista Bruno.
O Corte só peca pela extensão. Chega um momento em que o filme começa a incomodar e se estender mais que o necessário. Talvez se ele tivesse cerca de uns bons 20 ou até 30 minutos menos seria bem mais leve e teria o circuito narrativo mais bem amarrado. Mesmo deixando o espectador impaciente ele consegue prender a atenção e ainda tecer um ácido comentário sobre o nosso tempo, onde o homem vale apenas pelo dinheiro e as coisas que possui. O filme chegou a receber duas indicações ao César, melhor ator para José Garcia e melhor roteiro adaptado.
NOTA:: 7,5

BELEZAS DA GUERRA
por Paulo Floro
FLAMING LIPS At War With Mystics
[Warner, 2006]
Quando é que o futuro chega? Bem, talvez o Flaming Lips não saiba responder a essa pergunta, mas o seu mais novo álbum, At War With Mystics é o mais “presente” da banda.
Depois de lançar a obra-prima Yoshimi Battles The Pink Robots, um dos melhores discos que esse planeta já viu nos últimos anos, o grupo tinha a opção de lançar a obra definitiva que os levaria para as rádios ditas roqueiras, paradas da Billboard e para as audiências médias. Mas depois das loucuras geniais de Yoshimi, com todo o lance conceitual, praticamente uma ópera-rock indie-bizarra, o Flaming Lips traz à Terra basicamente um disco político (ou assim se pretende), ao criticar o abominável George Bush e a também abominável Britney Spears. “Yeah, go tell Britney Spears and Gwen Stefani that their energy and their Prom Queen smiles only go to prove that they don’t emphatize with my sadness”, (“Então vá dizer à Britney Spears e à Gwen Stefani que seus sorrisos de Rainha do Baile não compreendem minha tristeza”) diz Coyne na música “The Sound of Failure”.
Neste disco Wayne Coyne ainda está preso em seu mundo espacial e ele ainda ostenta o seu brio de maluco. O álbum não está mais acessível, como já foi dito em algumas resenhas, a diferença é que a banda deixou de lado por um tempo os robôs japoneses e alienígenas buscando compreensão e buscou ser um pouco mais atual. Mas isso não retirou a genialidade do grupo.
O Flaming Lips ainda é a voz excêntrica da América de Bush. O grupo se encontra à margem do rock e suas conjunturas, por que eles são malucos. Wayne Coyne não irá abrir mãos de suas apresentações esquisitas, as bolhas, as pelúcias no palco. E isso só faz aumentar o culto ao grupo norte-americano. O que nem sempre é bom, por que pode deixar a banda um pouco hermética para novos ouvintes. Mas quem não se rende aos acordes de Yoshimi, com clássicos como “Do You Realize”?, até um fã do Manowar ou Queen of the Stone Age se emociona. Com At War With Mystics, o Flaming Lips precisa mostrar que consegue ser pop sem se render à uma viagem cabeçuda, difícil e conceitual, afinal foram eles que lançaram um disco quádruplo que só podia fazer sentido ouvindo todos ao mesmo tempo (Zaireeka, 1993). E nem foi preciso outro Yoshimi. Por que não se cria obras primas assim, toda hora.
Pagar pau para o Flaming Lips é delicioso e reconfortante. Faz você repensar todo o tempo que você perdeu elogiando discos do Kaiser Chiefs ou The Bravery. Por que existem bandas que tem MORAL, e isso não se consegue com hits badalados. (Pelo menos não SÓ com isso). At War With Mystics começa com o single “The Yeah Yeah Yeah Song”, uma atmosfera meio demente, com um coro meio absurdo, acordes ritmados e bateria meio nervosa e já avisa na letra “Você é louco? É muito perigoso fazer o que se quer (…)”. “Free Radicals” é a continuação de uma viagem que explora um pouco o psicodelismo passado do Flaming Lips. “The W.A.N.D. (The Will Always Negates Defeat)” volta a falar de política. O disco é uma sucessão de gratas surpresas, a culminar na perfeita “Goin On”. Wayne Coyne promete continuar a surpreender o pop com uma viagem a um lado fantástico do rock, mandando às pqp as críticas que certos roqueiros que os acusam de serem neo-hippies floridos; o mundo não precisa deles. O mundo precisa dos Flaming Lips. Pra logo.
NOTA:9

