
COCOROSIE
Noah´s Ark
[Touch and Go, 2005]
Essas irmãs franco-americanas possuem uma atmosfera excêntrica e sublime em suas músicas. E isto é algo cuja importância é até mais relevante que a própria qualidade das canções. Uma análise apressada da sonoridade desta dupla mezzo francesa pode resultar em incoerência. Desde que lançaram seu primeiro disco em 2004, La Maison de Mon Revê, elas foram abraçadas por um circuito que passa longe de histerismos urgentes como Arctic Monkeys e novas bandas por aí. Noah´s Ark, seu segundo disco têm a participação, por exemplo de Antony Hegarty (na faixa Beautiful Boyz), do Antony and the Johnsons. Vejam por aí que as meninas são bem relacionadas. O disco não é acessível, não se sugere nenhum momento para se ouvi-lo. Possuí momentos de jazz, calmíssimo. Em outros um coro de animais se mistura a um solo lamurioso meio ópera. Seu público, assim como a dupla, são pessoas estranhas, alternativas. Aliás, o termo alternativo é pertinente para o CocoRosie. Por que alternativo não são, hoje, aquele grupo de bandas inglesas incensadas pela mídia ou um disco que nunca foi lançado no Brasil. Este termo, na era em que tudo é acessível e rápido, é formado por bandas e artistas que buscam uma sonoridade que passa longe dos acordes de guitarras que apenas mudam de entonação de uma banda à outra. É a busca de um pop elaborado, que mesmo difuso, difícil e complexo, passa a intenção de nos levar para algo longe, e isso o CocoRosie soube fazer bem. [Calvin Curtis]
NOTA:: 8,0
ALTERNATIVO À QUE?
Um termo meio confuso, hoje em dia ser alternativo é buscar novos caminhos, e muitas bandas pelo mundo hoje exploram a música de maneira fabulosa e diferente.

Antony And The Johnsons: De Nova Iorque, Antony e sua banda traduziram a melancolia das ruas cinzentas e pessoas desoladas de maneira elegante. Com seu vocal precioso, a banda mistura o pop clássico com temas jazzísticos elaborados. Muito piano, harpas. No último disco, I Am A Bird Now, contou com várias participações especiais como o cantor Devendra Banhart, Lou Reed e Rufus Rainwright.

Archicteture in Helsinki: Da Austrália, esse combo de mais de oito pessoas se esforça em criar novos ambientes sonoros. Passeiam desde temas fofos bellesebastianos à um pop com instrumentos clássicos. Seu último disco, In Case We Die, foi bastante elogiado pela crítica. O AH também é uma das poucas bandas hoje em dia que possuem uma música difícil de ser enquadrada.

Josh Ritter: Chamado de novo Dylan, por quem não soube apreciar com cautela o som deste jovem cantor e compositor de Idaho. Com muita cautela em relação à fama, Ritter busca criar de maneira livre suas composições. O seu pop nada familiar já lhe trouxe comparações que o próprio cantor não aceita tão confortavelmente. Seu último disco (o quarto da carreira)The Animal Years, é lançado este mês na Inglaterra e Estados Unidos e traz o melhor de seu folk.
Arquivado em: Editors, Floro, Guillemots, Juliette and the licks, Matéria, Música
NÃO FIQUE PERDIDO
por Calvin Curtis
O Grito estréia uma coluna de playlists, com uma lista de músicas que não podem faltar em qualquer tocador. Desta vez, uma listinha básica (mas bem básica mesmo) de bandas que vão aparecendo a cada segundo.

GUILLEMOTS – We Are Here
A banda que tem um brasileiro Guillemots já é cultuada por fãs ingleses, que acham o som do grupo uma classe só. Shows deles por aqui foi prometido para esse ano. Olha só o mix; um piano bem sexy, meio Motown, alusões a uma atmosfera ´60, tipo Pet Sounds dos Beach Boys e um guitarrista que atende por Magrão. Se você for nerd ou inglês iria adorar.
Onde: O single We Are Here e www.guillemots.com

EDITORS – Munich
Esta banda havia aparecido ano passado, com um vocal que lembrava bastante Paul Banks do Interpol, que por sua vez lembrava muito o Ian Curtis, enfim. No entanto, a banda se define como post-gothic e diz que não quer soar melancólico. Agora esqueça tudo e se apegue aos climas soturnos da banda, que já possuí muitos fãs e um mini culto no Reino Unido. Munich, é pesada, com guitarras sobrepostas que dão um ar dark ao Editors.
Onde: no disco The Back Room, lançado ano passado.

JULIETTE AND THE LICKS – You´re Speaking My Language
Juliette Lewis soube construir sua carreira como atriz caminhando para um circuito cult, trabalhando com diretores autorais que souberam aproveitar a atitude e a beleza de Lewis. Tarantino e Oliver Stone são alguns dos fãs da moça. Algo meio Joan Jett bizarra, Juliette explora seu vocal gritado. Além disso sabe explorar sua imagem de garota louca-desesperada, tão usada em seus filmes. Com o The Licks, Juliette parece ainda estar em uma de suas personagens
Onde: No disco You´re Speaking My Language
MUSIC IS MY HOT HOT SEX
por Mozart Werther
O Montage foi uma das bandas novas brasileiras que souberam aproveitar a internet como uma ferramenta poderosa de divulgação de sua música. O grupo está imerso em fotologs, MySpace e suas mp3 estão disponiblizadas no site do TramaVirtual. O grupo formado no Ceará, explora o universo pós-electro com uma produção elaborada, acentuada pelo visual andrógino-pintoso de seu vocalista Daniel Peixoto. A banda se apresentou no Campari Festival no início do mês e promete acontecer na noite mais dançante do Abril Pro Rock, hoje. Por email, Daniel, o vocalista concedeu a seguinte entrevista ao Grito!.

ABC do Abuso
O Grito: Você tem apenas 19 anos, como você encara estar vivendo todo este hype?
Daniel Peixoto: Normal, passei a vida esperando esse momento, que ainda nem começou, isso é só o ensaio.
É bem estranho que você viva no meio alternativo e não beba nem fume, como você conseguiu manter a decisão?
Agora eu bebo e fumo… Entrei na ordem.
Além dos fotologs, você faz parte de um programa na Internet (Programa Asterisco: www.geradormusic.com.br/ ), poderia falar um pouco desse seu lado?
Apresentei um programa de TV em fortaleza por um ano, depois saí e fiz o programa asterisco, especial pra internet. Mas a banda comeu todo nosso tempo, por que a equipe era a mesma, eu, o Leco editava, o Ricardo nosso produtor era o diretor.
A literatura tem algumas influências nas musicas do Montage ou no seu estilo de vida?
Tem sim, o Patrick é escritor dos bons e fez uma parte das letras, as primeiras.
Depois de uma longa pesquisa, eu observei que você gosta muito da cultura pop da televisão. O que te faz gostar desses programas, como Pânico Na TV e Banda Antes?
Infelizmente depois que eu vim morar em São Paulo não vejo mais TV, não tenho tempo. Mas eu gosto de ver TV porque gosto de fazer TV.
O movimento gay influenciou notadamente O Montage, isso te incomoda de algum modo? Você acha que isso afasta um público heterossexual que possivelmente iria gostar de sua banda?
De jeito algum, e quem lhe disse sobre a maioria heterossexual? Uma pessoa que não curte nossa banda por que ela traz referencias gay não merece ouvi-la. E ainda merece a morte.
O Que Terá Acontecido A Baby Jane?
Ela deu fazer de ter uma irmã aleijada.
Você gosta muito de Lynch não é? Os filmes deles são um tanto controversos. O Montage choca e quebra a barreira da “moral e dos bons costumes”, assim como o diretor o faz?
Assim esperamos… Queremos ver a esbornia, o mundo “pegar fogo”.
Como foi o início no Ceará?
Rápido, éramos amigos e o nosso produtor chegou e disse vocês são uma banda agora… Pronto. Uma semana depois marcamos um show.
Por ser um estado um tanto difícil de fazer sucesso, a Internet ajudou de alguma forma?
De todas, ela foi a responsável por tudo o que esta começando a acontecer.
Quem escolheu o nome Montage?
O nome foi o Patrick (guitarra) que escolheu.
O electro realmente morreu?
Morreu sim, tanto que essa edição do Abril Pro Rock vai ter uma noite só pra ele, morreu mesmo, e deve ser por isso também que 90% das casas e clubes no eixo RJ x SP só tocam electro. Deve ser também por esse mesmo motivo que DJs renomados no mundo todo que tocavam house estão tocando electro agora. Baby, o que morreu foi a lambada…
O debate do novo milênio é o que é ser EMO! O que você acha do movimento?
Emo? Nada a declarar…
Como o Montage se intitula?
Somos electropunks.
Você já levou alguém que estava vendo o seu show para cama? Por que Como disse o Patrick, a um site: “Todo mundo que comer o Daniel.” Como você ver esta afirmação?
Já sim, e ate namoramos depois (risos). A afirmação do patrick melhor que ele mesmo responda (mais risos).
O funk de alguma forma não marginalizado o Montage? Já que você tem um Funk da Ginasta carioca.
Nada, depois de nomes como Marlboro, M.I.A., Tati e Deyse Tigrona o funk é luxo.
Como você consegue ter a energia que tem em cada show? È isso que te ajudar a ter essas pernas malhadas? È necessário algum preparo inicial?
Sempre fui hiperativo, tenho muita energia. Para manter a forma eu faço yoga e capoeira.
Como foi o lance da trama virtual? Ela ajudou a banda de que maneira?
Foi importantíssimo, abril o canal para que as pessoas tivessem nossas canções.
Como o Montage se vê a 10 anos?
Riquissimo.
O Cansei de Ser Sexy é uma ameaça à música alternativa no Brasil, assim como foi o Chico Science e sua Nação, que depois deles, todas as bandas eram parecidas ou erroneamente comparadas ao conjunto! Você acha que isso vai acontecer com o Cansei de Ser Sexy, ou o mercado fonográfico vai baixar a crista para o Montage?
Não entendi sua pergunta, não entendi a comparação do Chico com o CCS. Chico era um musico foda, o Cansei de Ser Sexy é uma brincadeira.
O Hype te incomoda?
Não.
MISANTRÔPEGA 2
Depois de um período de hibernação, nossa colunista retorna junto com o povo da Nouvelle Vague.
GODDARD
O precursor foi Truffaut, mas a ele seguiram uma geração de críticos e cinéfilos franceses, consolidando um gênero. Entre eles estava Jean-Luc Goddard. Quebrando o convencionalismo, ousando deliberadamente, Goddard pegou um argumento de Truffaut e realizou uma homenagem paródica aos filmes de gangsters americanos: Acossado (1960). O resultado é um trabalho singular, pois foi filmado com pouco dinheiro e equipamentos leves. Ambientou várias cenas nas ruas, abusou dos diálogos improvisados, recorreu à luz natural e emendou citações literárias. O ritmo é sincopado, com cenas curtas (jump cuts) interrompidas abruptamente (uso de edição elíptica) e posições de câmera incomuns. Os protagonistas duelam perdidos num labirinto existencial. Depois de sua obra de estréia, Goddard tornou-se o diretor mais radical de sua geração. Sua maior contribuição foi propor a renovação dos temas, pregar a subversão da forma e a desconstrução da narrativa.
TRUFFAUT
Um dos mais importantes capítulos da história do cinema moderno foi escrito n noite de 27 de abril de 1959. Aplausos efusivos para Os Incompreendidos, no Festival de Cannes, deram início a uma nova etapa da linguagem audiovisual. Era a estréia em longa metragem de François Truffaut, 27 anos, o mais temido, pretensioso, arrogante e odiado crítico da França. A platéia comemorou, sem saber o êxito de um parto, o nascimento de um estilo inconfundível. A Nouvelle Vague, como foi chamada a renovação estética e etária da produção francesa estava nascendo. O fenômeno mudou a cara do cinema mundial. Filmes baratos, com orçamentos modestos porém narrativas originais e enfoques realistas entraram em moda. Truffaut foi o cérebro e porta-voz da onda, saindo da premiação ganhando o reconhecimento de melhor diretor. Ele era o mais contundente dessa turma de resenhistas e bombardeava o cinema que estava sendo feito naquele país nos anos 50. Abominava o peso literário e teatral das obras do período, criticando o artificialismo das imagens e o fato de diretores se submeterem a produtores, roteiristas e atores. Saía de cena a poesia melosa e o nacionalismo exacerbado e surgia o cinema de autor.
CÚMULO DO ABSURDO
Pink Flamingos leva espectadores ao extremo no Cineclube Revezes
por Calvin Curtis
Uma sucessão de absurdos. Pink Flamingos, exibido na última quarta para um grupo de cinéfilos no Cineclube Revezes causou histeria e gritos de horror, pontuados por gargalhadas nervosas. Muita gente não entendeu aquela elegia ao grotesco, nojento. Por que uma travesti gigantesca faz boquete no próprio filho, coloca um pedaço de carne entre as pernas para depois comer e come cocô de cachorro? Em outra cena um homem estupra uma mulher num galinheiro enquanto esmaga galinhas vivas. De verdade. Qual a função deste aparentemente gratuito, cinema do absurdo?
Dirigido por John Waters em 1972, Pink Flamingos entrou para a história como um ícone do cinema independente e subversivo. A idéia principal de Waters talvez fosse uma subversão da própria idéia do fazer cinema, já que o intuito de um filme como esse é que o espectador saia da sala. De preferência com um asco terrível. Outro ponto de discussão é sobre a estética do trash e, até que ponto o realizador está ciente de que está realizando um lixo. Ou, o que é uma obra ruim? Aqui, no entanto temos um verdadeiro caso de um diretor com poucos recursos, é evidente, mas Waters realmente atinge seu objetivo em chocar com Pink Flamingos. Ed Wood, pra fazer um contraponto óbvio, por exemplo, estava convencido de estar produzindo algo realmente genial. Em Plan 9 From Outer Space, temos um exemplo perfeito de um filme feito com poucos e péssimos recursos e conseguimos observar a visão de um artista naïf, que não conseguia discernir sua própria obra, que mesmo sendo uma merda, a via como um clássico. A diferença entre Waters, citado como um mestre do trash, é que com Pink Flamingos ele consegue tirar pessoas da sala de exibição escandalizadas e enojadas, enquanto em Ed Wood, o público saía às risadas de escárnio por virem algo tão ruim.
Na história, um travesti chamado Divine vive com sua família bizarra em um trailer escondido da polícia, quando um casal de pervertidos invejados com o título que Divine ganhou da imprensa local de ¿a pessoa mais pervertida que existe¿, decide eliminar a ameaça. Os personagens, todos amigos de Waters se entregam em personagens que vão à fundo em imundície e perversão, e é provável que eles fossem desta exata maneira na vida real. Que ator encontraríamos hoje para fazer uma cena onde um homem mostra o quão elástico é seu cu, abrindo e fechando aquele orifício (sic). Ou Crackers, o filho de Divine que transa com galinhas vivas, matando as aves no ato sexual. Este living act é claro nas imagens da fita. O corpo da amante estuprada no galinheiro está cheio de marcas e feridas. Transar com galinhas deve doer. Outro ato de escatologia ao vivo é quando Divine espera um cachorro fazer cocô, recolhe as fezes e come com prazer. Esta ode à escatologia e bizarrice vai de contraponto a tudo feito naquele momento em cinema nos EUA. Vivendo uma ressaca da liberação sexual, Pink Flamingos significa tudo o que não se via e que não era para ser vistos jamais em uma sala de cinema. Na verdade, o filme é uma paródia hardcore aos padrões de Hollywood. Uma só câmera é utilizada geralmente, com vários zooms indo e voltando, algo de muito incômodo para um espectador acostumado com multiângulos para aumentar a emoção. Os diálogos e a interpretação dos personagens é muito, muito afetada, quase um teatro shakespereano com palavrões, fazendo menção aos diálogos das love stories açucaradas. Por fim a arquitetura dos personagens e o elenco é que é absurdo mesmo. Edie, a mãe débil mental que vive num cercadinho, obcecada por ovos, a própria Divine, musa de Waters, e Cotton, a companheira de viagens. Cotton possuí uma estética interessante. Ela é uma personagem que representa o glamour dos anos dourados de Hollywood, o que pode ser observado por seu figurino clássico e elegante, sua voz cândida, seu semblante austero. Pervertida ela adora observar as transas bizarras de Crackers no galinheiro, além disso, é o contraste naquele cenário de bizarros, sendo ela própria, uma.
John Waters continuou com a mesma irreverência e elementos do trash e do bizarro em outros filmes, e muitos utilizando sua musa, Divine, que morreria no fim dos anos 80 de problemas no coração. Assim como Almodóvar, que fez seus primeiros filmes pouco digeríveis no início e caminhou para uma sofisticação, Waters adentrou a indústria do cinema sem perder (muito) a sua visão. Os filmes desta fase, nem de longe representam o diretor de Pink Flamingos e Female Trouble, que acabou em sessões da tarde com Cry Baby e Mamãe é de Morte. Mas ninguém mais espera que vejamos alguém comendo cocô nas telas. E por isso Pink Flamingos deverá continuar maldito.
PINK FLAMINGOS
John Waters
[EUA, 1972]
pode ser encontrado em locadoras, com sorte.