MISANTRÔPEGA
Por Rafaella Ordella
Coluna

Almodóvar é um tradutor irretocável da alma feminina. Melhor que qualquer eventual álbum de Chico Buarque. Ele vai das alegrias aos dramas, dos azedumes ao altruísmo de nossos sentimentos. Encontra, expõe e cria simpatia ao revelar o ônus e a delicia de pertencer a esse sexo, em tudo que isso abrange. Como levamos a vida transitando entre o coeso e o caótico, obedecendo apenas à oscilação dos nossos hormônios.
Sexualidade incandescente; lucidez inconsciente. Bolsa cheia de troço. Traição. TPM, frigidez e pílulas para dormir, num estranhíssimo transe pós-moderno. Toda aquela retórica de ‘nós temos o direito’ sendo diluída no melhor ‘feminismo’ quando assumimos querer apenas ser cortejada, levada para jantar ao sol de mariachis e ganhar rosas. E dá-lhe batom vermelho, muito rímel, Salto Alto e cores cítricas, berrantes!
Mesmo lidando com relacionamentos instáveis entre mãe, filho, irmãs, pacientes em coma e enfermeiros, amantes, enteadas, ex-marido travesti, ele sempre oferece um desfecho feliz.

E por feliz entende-se plausível, por mais extraordinárias que as coisas possam parecer; com o tipo de justiça poética que nos dá a sensação de todo mundo encaminhado.
Um bando de Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos! Tramas vertiginosas, capazes de nos levar de uma gargalhada à reflexão de vida. Um recheio heterogêneo de lágrimas e putaria. Além do êxito inegável de ter transformado o Kitsch em cult.
Atrizes hilárias, histriônicas, botando com sua ‘latinidade’ a Pop Arte no chinelo. Enfim, roteiros impensáveis senão a um ex-diretor de filmes pornôs que faz em duas horas misto de novela mexicana, romance barato de banca de jornal, teatro do absurdo, letra de bolero e mil citações mais sofisticadas, como Truman Capote, por exemplo.
Uma coreografia de poesia cafona, certa euforia melancólica. Libido se confundindo com catarse. Toda a estética e a (atrevo-me a diz tal palavra?) profundidade encontradas nos perfis psicológicos dessas personagens que facilmente identificamos com alguém próximo, pode parecer a principio non sense e escatalogia gratuitos. O ideal seria ir despido das censuras para ter um olhar aberto á obra de Almodóvar. Porque os mais sensíveis se sentirão atingidos, bem no estômago.
Mas o elemento diferencial está aí, quando ele diverte e agride deliberadamente. E sem esse tipo de perspectiva mais ácida sofre coisas sagradas e profundas, humanas e cretinas do mundo, a vida seria um tédio.
Hasta luego

SOBRE SONHOS E LENDAS
Relançamento de Sandman melhor do que a encomenda!
por Paulo Floro
No fim dos anos 80, Neil Gaiman realizou uma das maiores obras dos quadrinhos, Sandman. Ao lado de Frank Miller com o seu Batman – O Cavaleiro das Trevas e Alan Moore com Watchmen. A saga de Morpheus, o perpétuo Senhor dos Sonhos, e sua aventuras no Sonhar fez um grande sucesso, foi um fenômeno editorial e alçou os quadrinhos a um nível artístico nunca antes alcançado. Tudo bem que Will Eismer já se utilizava da linguagem das HQ´s (ou Arte Seqüencial) para criar obras de arte espetaculares (como Avenida Dropsie, O Nome do Jogo), mas nunca um gibi de linha de uma mega editora havia alcançado esse feito. Agora depois de um primeiro volume bem sucedido, a Conrad lança a segunda saga de Sandman, novamente num acabamento luxuoso e papel de primeira.
O segundo livro, A Casa de Bonecas, inicia o passeio de Gaiman pelas profundezas do Sonhar e suas personagens. Conta a historia de Rose Walker, uma deslocada garota que atrai a atenção do Lorde Morpheus por carregar um mal que ameaça o Reino dos Sonhos. A moça de repente recebe um convite para uma viagem onde precisará procurar para um lado obscuro de sua história. Na aventura Rose encontra tipos exóticos, típicos do universo de Gaiman; assassinos, perdidos, loucos, psicóticos.. Além disso, Sandman ainda precisa arrumar a bagunça deixada no primeiro livro, cuidar da fuga de alguns pesadelos e pôr ordem no caos. É neste volume que somos apresentados aos outros irmãos perpétuos, como Desejo e Desespero. Interessante que muitos dos elementos desta parte ainda serão abordados no futuro, mas não é difícil ler livro como uma obra em separado. Genial a parte em que Rose encontra uma convenção de Serial Killers e o pequeno conto sobre um imortal que debate a metafísica de estar vivo ao longo dos séculos com Sandman, sempre no mesmo lugar.

Ao conceder Morpheus, o Senhor dos Sonhos e todas as personagens de sua história, Neil Gaiman criou todo um universo de conceitos e referências. Portanto, ao começar a ler a obra de Sandman, que será publicada em 10 volumes pela Conrad e cujo segundo volume A Casa de Bonecas chega agora às livrarias, deixe-se imergir no sonho que fabulosamente foi construído. Tudo parece familiar e estranho no livro. Gaiman se utiliza muito bem da linguagem dos quadrinhos. Ele não a repele e sim a desconstrói. Os planos, os desenhos, os enquadramentos se assemelham um pouco a tudo antes feito. Mas os artistas Mark Dringenberg e Michael Jones.III utilizam referencias do cinema, fotografia para criar um ambiente de sonho. Colagens. Perspectivas absurdas e um acentuado tom expressionista, forte, apenas com cores primárias.
Alguns entusiastas da obra tentam retirar esta característica, mas Sandman é uma HQ de super-heróis, Gaiman se farta de todas as referencias do universo DC e os mistura a pitadas pop de cinema, literatura clássica inglesa, mitologia, misticismo, bruxaria e lendas modernas. E é isso a prova da genialidade de N.G. Para criar a maior obra dos quadrinhos, não precisou subverter a lógica nem a estética do gênero, apenas alçou e um patamar artístico-literário, que se não fosse a obra, nunca teria alcançado.
NOTA:: 9,0
SANDMAN – A CASA DAS BONECAS
Neil Gaiman
[Conrad, 256 págs, R$ 60]

MAIS BERROS SOBRE GAIMAN
ANANSY BOYS – Não bastou a coleção de Sandman se esgotar nas comic shops americanas, agora o absoluto Neil Gaiman encabeçou a lista dos livros mais vendidos com o sua nova obra Anansy Boys, que conta a historia de um workaholic inglês que se descobre descendente de um deus africano. Pelo sucesso da obra é certo que o livro chegue logo às livrarias, assim como o anterior Deuses Americanos. É a primeira vez que o autor inglês se aventura de cabeça no gênero cômico sem um final traumático de seus últimos livros.
MIRRORMASK – Encomendados pela produtora dos Muppets, a Jim Henson Pictures, o filme escrito por Gaiman e dirigido por seu parceiro Dave Mckean, conta a história de Helena uma garota membro de uma família circense que acaba imersa em um sonho de trevas. Rodado com um orçamento ínfimo, o filme, segundo os autores tenta resgatar a antiga magia de produções como Labirinto com David Bowie. Gaiman e Mckean trabalharam de graça na produção, a ser lançada pela Sony, com participação nos lucros e total domínio da obra. Provavelmente deverá se tornar cult. E provavelmente também não chegara aos cinemas brasileiros.