INFERNO FRENÉTICO… OU COMO DERRUBAR TODAS AS PAREDES
Por Paulo Floro

M.I.A. | Arular
[Xl/Beggars US, 2005]
Tudo parece estranho quando você liga a MTV e vê uma negra se pendurando numa grade ao som de um batidão funk. Mas nada de cachorras – ainda é a MTV. Tudo isso (sim, por que é muita coisa, vou explicar) é M.I.A., a cantora anglo-cingalesa, que veio desandar a receita uníssona e imutável do bolo pop. Para ser bem simples: com nota 11 de atitude, M.I.A. misturou música eletrônica, hip hop, ragga, dub e rock com o funk carioca. Os britânicos piraram. A crítica pirou. World Music o caralho. M.I.A. é incrivelmente pop. Seu disco Arular é uma das coisas mais dançantes desde 2005. E hipnótico. E sensual. E… Nossa, original!
Um rápido apurado sobre a moça nos traz alguns fatos. O nome M.I.A. é Maya Arulpragasan, 27 anos, nasceu na Inglaterra, mas passou grande parte da juventude no Sri-Lanka. Seu pai, escritor, participou ativamente da guerra civil e a própria cantora foi considerada uma refugiada de guerra. O nome do disco Arular, é uma referência ao nome de guerrilha de seu pai. Daí a profusão de referências militares no disco.
M.I.A. (que significa Missing In Action) foi dada até como desaparecida no Tsunami. Formada em cinema, M.I.A. era fotografa e designer (é dela a capa do disco The Menace do Elástica e a produção do seu clipe “Bucky Done Gun”, bem como a ótimo website oficial) e tomou o impulso máximo ao terreno musical quando Peaches, a ex-prostituta canadense diva do Electro lhe deu de presente um seqüenciador Roland MC-505. Em seguida sua faixa “Galand” fez o maior sucesso na Inglaterra, o que fez a imprensa abrir os olhos para M.I.A.
Além disso, M.I.A. fez parte de uma organização estatal chamada Eros, que buscava a independência da minoria Tamil no Sri-Lanka sem violência. No entanto, o terrorismo e a repressão do governo jogaram o país no caos urbano, o que fez o Eros se unir a grupos armados. Arular, o disco, é uma colagem de todos esses elementos da vida de M.I.A. O projeto gráfico, que mistura produtos do consumismo ocidental com pistolas e tanques é de autoria da própria Cantora.

Funk terrorista
O disco é muito mais do que um pancadão para inglês ver. M.I.A. se utilizou do som seco e pulsante dos bailes cariocas, inclusive em “Buck Done Gun” (com o sample do DJ Malboro) e misturou às viagens frenéticas de ragga, gangstar rap, dub, rock e electro. A faixa “Hombre” parece um canto de macumba jamaicano. “Pull Up The People” fala de prisioneiros de guerra, carros esportes e Nokia. Todas essas colagens, caóticas à primeira vista são fruto de uma globalização violenta, que MIA se aproveitou com muita inteligência e atitude. Anos-luz a frente do funk carioca e diferente deste, Arular não se resume apenas à energia sexual, e mostra influências que vão do Electroclash de Peaches (Fuck The Pain Away), ativismo punk e ótimas letras do rap de The Streets (que lógico, é inglês).
M.I.A. e seu disco Arular, tornaram-se um choque no mundo pop! Mesmo elogiada por críticos musicais, ainda causa incomodo em nichos indies (afinal, há algo mais conservador do que ser Indie?). M.I.A. difere no quesito criatividade, mudança e pressão das redundantes bandas do hype US-UK, que mesmo lançado ótimos discos (como o Franz Ferdinand e o Interpol), resume-se a reprocessar o pós-punk inglês. MIA é o satanás, renda-se.
NOTA :: 8,0
THEN YOU WANNA BE… A NOISE BAND?
Por Wagner Beethoven
Eles se intitulam post-brega do inferno, mas suas musicas são um paraíso aos ouvidos, com uma técnica de um grande clássico e uma excelência de um Velvet Underground. O Monodecks (O GRITO explicando: “Monodecks é a sobreposição de sons através do “revezamento” de duas fitas K7 num microsystem de dois decks com um microfone externo. Este seria o primeiro processo de gravação da banda“) é uma nova banda que de Recife. Os fãs da banda vem crescendo a cada dia, cultuados pelo seleto grupo que viu o primeiro show no showcase do Festival No Ar: Coquetel Molotov. E após uma conversa via MSN tivemos a idéia de uma entrevista, com o batera, Tiago:
O GRITO!: Como foi o começo da banda? De quem foi à idéia inicial?
Tiago: Essa pergunta já vale por umas quatro. Vamos lá: Eu, Domingos e Breno tínhamos blogs sobre música e ambos líamos os blogs uns dos outros. Um tempo mais tarde a gente começou a conversar via MSN e numas dessas conversas eu e Domingos tivemos a idéia de formar uma banda. Nessa mesma conversa o primeiro nome que cogitamos para ser o possível segundo guitarrista foi o de Breno. Começamos então a fazer uns ensaios esporádicos nessa época (meados de 2004), mas tudo se resumia a umas jams sem muita objetividade. Inclusive Lanna, que entrou oficialmente na banda há duas semanas, participou de alguns desses ensaios. Ramiro tocava e ainda toca comigo em outra banda, a Telura, e entrou no grupo uma semana antes do Coquetel convidar a gente pra tocar na segunda edição do No Ar, e aí sim a coisa começou a tomar um rumo mais concreto. No final das contas, foi até fácil juntar a cambada, difícil foi fazer o bonde pegar no tranco.
Quais são as referências da banda?
Se é pra citar algumas, vou dizer cinco que tenho quase certeza que são unanimidades entre a banda toda: Syd Barret, Slint, Brian Eno, Velvet Underground e Explosions In The Sky. Mas individualmente as referências chegam a ser até díspares em algumas ocasiões.
Quem é o cabeça e idealizador da banda?
Bem, posso dizer tranquilamente que Domingos é o gênio atormentado da banda… Eu sei que ele vai ficar meio puto quando ler isso, mas é a verdade. As composições que atualmente temos tocado são todas dele, mas elas mudam bastante quando começamos a trabalhá-las em conjunto. Resumindo a ópera, Domingos traz as músicas e o resto da banda se esforça para não estragá-las.
Vocês têm algum objetivo? Gostaria de alcançar a fama de uma determinada banda?
O objetivo atual é trabalhar cada vez mais em composições, fazer o maior número de shows que pudermos nesse meio tempo e depois gravar um Epzinho. Em relação a fama, ainda esta muito cedo para pensarmos nisso. Daqui a alguns anos quem sabe a gente possa vir a se preocupar mais com algo do tipo, mas por enquanto a gente nem leva isso em conta.
Por que a escolha de fazer uma banda sem vocais na maioria das músicas? Foi difícil a aceitação do público por não terem vocal?
Não foi nem uma escolha o fato da maioria das composições não possuir vocal. A gente percebeu que as tais canções sem vocal não precisavam de vocal por possuírem uma carga melódica muito forte, o vocal seria um extra, desnecessário em tais músicas. Mas não temos nenhum possível “preconceito” contra vocais, apenas não surgiram muitas músicas nas quais a gente precisasse usar esse tipo de recurso. Já essa estória da aceitação do público, a gente ainda não tem a menor idéia como isso esta rolando. Só fizemos um show até o momento e como o mesmo foi num evento que tinha muitas bandas instrumentais, eu creio que quem sacou a nossa apresentação não teve muito problema para assimilar a parada toda. Recebemos muitos comentários positivos, outros nem tanto, mas só vai dar pra solidificar qualquer idéia em relação a isso tudo num futuro próximo, de preferência.
Como foi a escolha do vocalista?
Quanto ao lance do vocal, realmente não temos ninguém na banda com essa função. Domingos canta em duas músicas da banda, “The Place Where I’am” e “Love Is A Shelter”, mas só “Love…” possui um vocal mais destacado e “The Place…” possui umas vocalizações mais esporádicas no meio. Mas ele não se considera o vocal da banda, tanto que ele já quis passar o vocal “The Place…” pra mim, mas eu não ainda consigo cantar tocando batera ao mesmo tempo. Na verdade, ninguém da banda canta porra nenhuma, então a gente opta por deixar os vocais com uma função menor nas músicas, até porque a gente percebeu que boa parte das composições que tocamos no momento não precisam realmente de um vocal
Como rolou o lance do Coquetel Molotov? Vocês acham que de alguma forma eles contribuíram para carreira da banda?
Pessoal do Coquetel ouviu as mp3s de algumas das gravações caseiras de Domingos no Trama Virtual, provavelmente gostaram e resolveram chamá-lo para tocar no festival. Consequentemente chamaram o Monodecks também, já que essas músicas foram compostas para a banda. O show foi até legal, apesar de alguns percalços que não vem ao caso contar aqui. Nunca tínhamos tocado ao vivo antes e nosso primeiro show foi justamente em um festival que vem crescendo a cada ano, então não deixou de ser uma puta oportunidade tocar lá, apesar do nervosismo natural que esse tipo de situação acarreta. Fora que o fato de podermos ter assistido o primeiro dia do festival de graça foi por si só uma coisa deveras bacana.
A FORMAÇÃO:
Breno Mendonça – Guitarra
Domingos Sávio – Guitarra, Flauta, Voz e Programação
Ianna Gico – Teclado
Ramiro – Baixo e Guitarra
Tiago Barros – Bateria e Percussão
PRA BAIXAR:
Reverbera na Caverna
Loungitude
Topete de Morrissey
Preto Velho
The Place Where I Am
Mais fotos do Monodecks no Festival No Ar: Coquetel Molotov, clique aqui:
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Arquivado em: Art Brut, Electrelane, Floro, Kasabian, Matéria, Mylo, Música, White Stripes
O APURADO [Parte Dois]
Por Paulo Floro
Só até o final do ano aconteceu coisa pra um ano inteiro. E ainda nem contamos a volta do Franz Ferdinand, o Anthony and the Johnsons e muita coisa ótima que vai ficar pro Apurado do final do ano. Ah, e lógico muitas bandas nao foram citadas, por que o intuito é falar de bandas urgentes ou que vc deve prestar atenção logo se nao fica perdido. Go!…

ART BRUT :: My Little Bother
Eddie Argos surge como o novo Jarvis Cocker, com suas palavras dando gancho ao cotidiano do jovem médio atual. A banda inglesa Art Brut e seu carismático líder, Argos misturam às novidades indie de hoje o som mod do The Fall. O próprio Argos tem um vocal quase falado à la Mark Smith. O nome da banda ironiza com o ritmo novidadeiro da produção rock atual. My Little Brother conta como o irmão de Argos tornou-se um roqueiro junkie viciado em crack. O disco Bang Bang Rock & Roll, por suas letras ácidas, sacadas e ultimas pérolas rock é candidato fácil a um dos melhores discos do ano.

MYLO :: Destroy Rock & Roll
O DJ Myles Mclnnes, de 24 anos trouxe um pouco de vida à redundante cena eletrônica da Europa. Ao lado de Erol Alkan e o combo Ater Ego, da Alemanha, o escocês Mylo é um dos principais nomes das pistas atualmente, sem se prender a um “nicho” ou cena, mistura batidas do IDM, house à riffs de guitarras e muito rock & roll. O hit Drop the Pressure, com sua batida incansável foi o hino do verão inglês. Tiga e Laurent Garnier são fãs de Mylo e já fizeram remix pra suas músicas.

KASABIAN :: L.S.F
Ninguém se lembrava de como se dançava uma música de rock quando então apareceu o Kasabian. Misturando acid-rock ao clássico guitarra, baixo, bateria, o grupo fez um disco onde todas as músicas vão do bom ao excelente. Muito balanço e peso sob medida o disco homônimo do Kasabian é objeto perfeito em festas, shows, cozinha, quarto de motel, discmans… Escolha L.S.F., Processed Beats, Reasons Is Treason…

WHITE STRIPES :: Blue Orchid
Nem era tanta surpresa que White Stripes iria lançar um disco que os fundamentasse como uma das maiores bandas de rock dos últimos tempos. Get Behind Me Satan trouxe o mesmo blues sujo, o virtuosismo guitarreiro de Jack White, a demência pop de Meg White e a criatividade minimalista que caracterizou a banda. Sem muita novidade, o que transformou o White Stripes num maior sucesso foi o barulho causado pela dupla em turnês, entrevistas, publicações. Vide exemplo, o antológico show no Amazonas, quando Jack saiu do teatro para cantar para uma platéia ensandecia.

ELECTRELANE :: Bells
Esse grupo de Brighton só de garotas é o que estávamos esperando há tempos. Nada de fetiche. O som das garotas é surpreendente, nunca vamos esperar o vai acontecer. Com vocais variados, algo entre o pop-classudo e o rock pesado Kimn Gordiano, a banda é uma mistura de Breeders, Sonic Youth (obvio) e Luscious Jacksons. Bells, deliciosa, foi tirado do recém lançado Axes, feito nos EUA